Soul Surf

Um peregrino pelo Vietnã

Sidão Tenucci infiltra-se no apertado buraco usado pelos vietcongs na guerra contra os norte-americanos. Foto: Dani Meres.

Foi um banho de coragem, suavidade, persistência, paciência. Estes povos têm histórico de pelo menos 2 mil anos de conflitos, invasões, massacres, ameaças, além da enorme sombra da China pairando sobre suas cabeças constantemente.

 

São mais de 50 etnias e outros tantos grupos linguísticos convivendo numa dança alucinante e criativa. Harmoniosa, acreditem. As balas geralmente vêm de fora. Nem sempre, claro.

 

As fronteiras políticas não respeitam as diferenças étnicas, claro, mas também é principalmente por isso, não só aqui, como na África e em outros lugares, que os conflitos persistem.

 

Por ter uma posição estratégica na entrada da Ásia, o Vietnã, por exemplo, tem sido alvo da cobiça dos grandes do mundo durante este largo período.

 

Tiveram mil anos de ocupação chinesa, do século I ao X (o tempo aqui se mede em séculos), até ser finalmente expurgado. Em seguida foram invadidos, no século XIII, pelos mongóis de Genghis Khan, que também venceram.

 

Logo seguiram várias ameaças e invasões chinesas até a França ocupar o que chamaram de Indochina (Laos, Vietnã e Camboja) de 1850 a 1954, quando os franceses foram finalmente vencidos e expulsos.

 

Quando os vietnamitas pensaram que iriam descansar vieram os americanos. Johnson e Nixon não tiveram dó. Descarregaram 15 milhões de toneladas de bomba no país, três vezes mais do que em toda a segunda guerra mundial.

 

E os caras resistiram. Cavaram 255 quilômetros de túneis ao redor de Saigon (hoje rebatizada, contra a vontade dos vietnamitas do Sul, de Ho Chi Minh), e se enfiaram ali.

 

Ali moravam, comiam, dormiam, reuniam-se para entabular estratégias e atacavam de surpresa os comandados dos generais norte-americanos que, no começo da guerra, acreditavam que “varreriam” os vietcongs para o mar.

 

Dez mil soldados chegaram a habitar os famosos túneis. Eu entrei em um deles para sentir a vibe. Sufocante. Feitos na medida para o pequeno biótipo dos locais.

 

A derrota foi uma porrada nunca mais resolvida no ego dos EUA, além de comprometer uma geração de americanos: perto de 200 mil soldados do exército, marinha e aeronáutica do país mais poderoso do mundo morreram e outros tantos ficaram feridos ou incapacitados – os americanos dizem que foram 58 mil, os vietnamitas, 300 mil.

 

Estima-se que 3 milhões de vietnamitas tenham sido mortos nesta guerra, de 1962 a 1975, dois terços de civis, mulheres, velhos e crianças. As sequelas das bombas de Napalm deixaram rastros de terror e os efeitos do agente laranja deformam fetos até hoje.

 

A imagem da embaixada americana sendo invadida pelos vietcongs (vietnamitas comunistas) em 1975, com todo mundo em pânico correndo para os poucos helicópteros é uma das mais fortes da história.

 

Como os vietnamitas encaram a vida hoje? Como olhar para o mundo depois disso tudo? O sr. Thang, um professor universitário de Hanoi, me respondeu, e acreditem se quiserem: “Com compaixão. Considerando que lutamos contra todos, temos que esquecer o passado e abrir os nossos braços para o mundo, senão, com quem iremos nos relacionar?”.

 

Buda existe em um país comunista. Ho Chi Minh ali é Deus. Foi o general, o presidente, o filósofo, o artífice da vitória vietnamita, liderando com carisma e talento, com conhecimento do terreno, com a capacidade de auto-sacrifício e paciência de um povo eminentemente camponês. Amazing shit.

 

A solenidade do seu corpo embalsamado na enorme construção especialmente feita pelo regime para eternizá-lo (contra a vontade dele, que preferiria ser cremado) é o momento mais “Ortodoxia Stalin” que presenciei.

 

A sisudez dos guardas não permite sorrisos, fotos, conversa ou até olhares fugidos ou passos fora do tapete vermelho que cerca o corpo. Passam todos em silêncio. A figura de Ho Chi Minh preservada com técnica de embalsamamento realizada em Moscou parece viva.

Mas cadê o surf? Devem estar agora se perguntando os caros leitores do Waves. Bom, estou indo para Bali para descontar o atraso. Considerando que a minha curiosidade a respeito da região era puramente histórica e até sociológica, a pesquisa sobre o surf teve certo limite auto-imposto.

 

Nesta primeira viagem para a região tive que optar. Sim, tem onda no Vietnã, em China Beach, um enorme beach break, sem muita qualidade, pelo o que eu pude presenciar, além de correntezas traiçoeiras e uma água geladinha neste inverno deles.

 

O salva-vidas queria que eu assinasse um termo de responsabilidade e o chefe dele me proibiu de entrar. Não estava lá essas coisas, então não perdi nada, a não ser o gostinho de ter “surfado no Vietnã”, pelo menos desta vez.

 

Fica para a próxima. Vou ter que voltar para conferir melhor – e revisitar a maravilhosa cidadezinha de Hoi An -, e assinar o termo. Até lá fica a lição não só dos vietnamitas, como dos cambojanos e dos laosianos: “não há nada que não se possa conseguir com coragem e persistência, e não há nada nem ninguém que possa se impor a você indefinidamente”. Os caras são pequenininhos, mas ardidos.

Sidão Tenucci é surfista e viajante – em vários sentidos. Surfou a maioria dos 50 países que visitou, e quase surfou no Vietnã.

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