A mesa do surf no Café Literário da Bienal ocorreu no dia 3 de setembro de 2011.
O que faz um surfista no meio de dezenas de escritores do mundo todo e, literalmente, de 600 mil leitores na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro?
Nada, a não ser que ele também seja um leitor ou tenha escrito algo que os curadores da Bienal entendam como interessante. No caso, segundo me disseram ao telefone ao me convidarem, foi porque a pesquisadora encontrou o meu livro “O Surfista Peregrino” como “única ficção nacional relacionada ao universo do surf publicada no Brasil”.
Muito bem, mas o que a tribo tem para contar nunca foi de muito interesse do mundo literário. O que mudou? Só porque agora somos milhões, de uma relevância inconteste na economia e geramos celebridades próprias? Sim. E não.
Existe também uma curiosidade para entender o que se passa na alma dessa entidade, o surfista. No caos moderno e fragmentado, neuroticamente fincado no material, o cara com uma prancha numa onda parece ter algum tipo de resposta simples.
Pegando a meada do swell, posso dizer que da total ignorância da sociedade sobre o surf para uma certa relevância, foi uma longa e interessante jornada.
Foram muitos caldos dentro e fora da água, desde a época em que eu estudava jornalismo na ECA-USP e os caras me olhavam estranho devido às sandálias havaianas, cabelos até os ombros queimados pelo sol, calça jeans boca-de-sino rasgada e remendada da loja de ponta-de-estoque “Lixão” (só tinha no Rio), camiseta regata e prancha biquilha sempre na capota do meu detonado Opala azul 1975.
Talvez o fato de ser inverno e estar rolando um frio de pelo menos 7ºC no campus ajudasse a reforçar o preconceito. Talvez por me verem como um “surfista alienado” – na época o chavão não era velho – fizesse com que descartassem para o escanteio da semântica humana, a priori, aquele ser alienígena. Não os culpo. Eu era realmente alienígena naquele planeta USP.
O fato é que lá estava eu, um mês atrás, em pleno século XXI, depois de as meninas da produção da Bienal terem me enviado a passagem, no Aeroporto Santos Dumont, esperando o motorista que me levaria até o hotel cinco estrelas na Barra da Tijuca, tudo pago. No saguão o time do Flamengo chegava causando um discreto alvoroço. O goleiro Felipe, o técnico Vanderlei Luxemburgo e seus colegas rivalizavam no quesito celebridade com as participantes do concurso Musa do Brasileirão, zumbindo suas curvas radicais em volta do buffet.
O que diriam de tudo isso meus “colegas” barbudos dos anos 1970, discursando em cima dos caixotes na saída da facú, com suas namoradas enfezadas mais peludas embaixo no suvaco do que eu?
Escandalizar-se-iam com a suave vulgaridade ou se extasiariam com a possibilidade de penetrar a Disney World das letras? Na época eram todos integrantes da ala soft da Libelu (grupo universitário esquerdista Liberdade e Luta),que dominava o ambiente político no campus. Tudo que cheirasse a não-político, apolítico, despolitizado, ou discretamente de centro, era execrado e picotado na guilhotina da sua retórica raivosa (atitude recorrente desses fãs da revolução marxista).
Imagine o que não pensavam do surf! Tudo isso refletia uma proporcional reação à feroz ditadura que rolava no Brasil? Sim. Exagerada? Talvez. Mas o que diriam? Provavelmente que Freud não explica, que Lacan não entende, que Schopenhauer ficou ainda mais cético, que a Estética de Aristóteles (o belo, o bom e o verdadeiro) é datada, e que a Semiótica não é de grande utilidade para a vida prática, já que ninguém interpreta mensagens corretamente mesmo.
Fui muitíssimo bem recebido no Rio. Formamos uma “mesa” no Café Literário, juntamente com o poeta, professor de literatura da UFRJ e grande pessoa Alberto Pucheu, tendo como mediador o Edinho Leite, profundo conhecedor do assunto e veterano da imprensa surfística, militando atualmente na ESPN.
O papo foi sendo incrementado pelas perguntas e o astral subiu uns 10 pés, a ponto de o organizador ter que pedir para encerrar porque o tempo já tinha esgotado fazia tempo. Na verdade eu e o Pucheu entramos como “alternates”: substituímos a escritora do livro “Onda”, Susan Casey (“A onda é um paradoxo: é objeto e movimento”), que não pôde vir porque a sua patroa, a Oprah Winfrey, para quem ela edita a revista do mesmo nome, teve uma prioridade de última hora; e ao meu amigo Carlos Burle, que justificou a ausência em função da perspectiva do maior swell da história previsto para Teahupoo no mesmo fim de semana.
Não podemos culpá-lo, claro, embora sentíssemos a sua falta: é para isso que ele vive, e não poderia perder essa oportunidade de forma alguma. Em consequência dessas baixas, o tema que era “Surf nas onda grandes” passou, informalmente, para “A poesia no surf”. Não que não sejam temas afins.
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Fiquei surpreso com a receptividade no debate no Café Literário, com o número de pessoas interessadas no “Soul Surf” -, vertente filosófica do surf hoje bem limitada no próprio ambiente do surf -, e o interesse que a poesia inerente à prática das ondas desperta.
Todos queriam entender como se pode “transcender” surfando, como o espírito pode sofrer uma leve alteração e ser elevado fora dos padrões mentais que utilizamos habitualmente ao se entrar em sintonia com o oceano, e, se ainda existem soul surfers.
Quem sou eu para explicar? O Peregrino tenta, o Pucheu, com sua poesia, também chega perto, mas todos somos aprendizes buscando a palavra certa para definir o indefinível.
Outro dado coincidente é que, com a OP Ocean Pacific, em 1979, nós tivemos uma certa audácia em invadir o main-stream da indústria nacional de confecção na época, incluindo os shopping-centers, quando o “surfwear” era um segmento praticamente desconhecido; e, hoje, um outro reduto antes inexpugnável, o literário, também cede espaço para nós.
Primeiro conquistamos o corpo, depois a mente (a alma é inerente, já sabe o futuro, e é de uso comum a todos)! Permaneceremos inalterados e puros ou seremos contaminados e assimilados novamente como aconteceu com o nosso surfwear?
Numa carona que pegamos juntos no translado da feira para o hotel, o papo com o meu mais novo amigo, o escritor Abraham Verghese (um milhão de exemplares vendidos nos EUA, há 20 semana na lista dos 10 mais vendidos do New York Times, do seu último romance “O 11º Mandamento”, pela Cia. das Letras ), foi, no mínimo, esclarecedor e very interesting do ponto de vista das diferenças culturais e história de vida.
Abraham é etíope, seus pais são indianos e leciona medicina em Stanford, California. Muito curioso sobre o Brasil e sobre o surf, claro, do “motivo de quase não ter visto negros nos restaurantes da zona Sul do Rio de Janeiro”, “da surpreendente pujança da economia e da sociedade brasileira”, “can´t imagine surfing those big waves!”, e de “como? esses edifícios aqui na Barra não estão sendo construídos como infra-estrutura para as Olimpíadas?”.
Ficou muito embaraçado por não ter naquele momento um exemplar do seu livro para retribuir o meu presente, o meu livro Almaquatica. Gentilíssimo ao agradecer e dizer que iria ter o maior prazer em ler “your work”. Imagine.
Aventuras cabeçais e também de coração. Uma literature-trip completa.
É impressionante como dois perfeitos estranhos podem se sentir à vontade para compartilhar experiências e situações pessoais que, muitas vezes, não conseguem com os parentes mais próximos. A barreira da língua pode tornar-se uma ponte.
O espírito aventureiro que me arrastou por 50 países se refestela no inusitado. O sentimento de amizade e espanto desenvolvido com as pessoas que cruzei pelo mundo foi um grande motivador. O prazer de aprender novas formas de entender a vida pavimentou a minha trilha.
Esses três elementos estavam presentes nessa nova “aventura” em terra, na Bienal. Um sonho paralelo. Lugar novo, novas pessoas, novo ambiente, novas formas de pensar. É isso. Eu floresço na surpresa e cresço no mistério. Como diz um amigo poeta: “não posso ver um nuvem passando que vou logo subindo em cima”. Um poeta-surfista diria o mesmo, só substituindo a “nuvem” por “onda”.
Abaixo o e-mail enviado pela organização da Bienal. É o surf nas cabeças.
“Caro Sidão Tenucci,
A Bienal do Livro Rio é um projeto de destaque no cenário cultural nacional. Faz parte do calendário oficial da cidade e envolve todo o Brasil durante 11 dias, conferindo à Bienal a marca de um grande evento literário.
A sua participação na Programação Cultural da XV Bienal do Livro foi fundamental para o sucesso alcançado, que superou todas as expectativas de público e crítica.
Os organizadores do evento ficaram muito honrados com a sua presença.
Anexo encaminhamos registro de sua participação.
Com nosso agradecimento, Sonia Jardim e Tatiana Zaccaro – SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros)”.
Sidão Tenucci é escritor e diretor de marketing da OP Ocean Pacific. Viajou 50 países para melhorar um pouco a sua noção do mundo. Publicou os livros Almaquatica (Fnac) e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Estará lançando em breve sua terceira obra, “Poentes de Amor”, com poemas e textos inéditos ilustrados por 50 artistas plásticos.