O fotógrafo Marcelo Bolão, do site HBPix, morador de Huntington Beach, trocou uma ideia legal com Wagner e Miguel Pupo, família de história no surf paulista.
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É uma conversa realizada durante o US Open na Califórnia em agosto. E, para quem gosta, o assunto é prancha, mais precisamente as que são produzidas com carinho por Wagner na oficina da Ohana Pupo – OHP.
Qual o envolvimento do Miguel na fabricação das pranchas dele?
Wagner Trabalhamos bem próximos para desenvolver modelos de pranchas, tipos de curva, grau do ângulo das quilhas para diferentes tipos de ondas e campeonatos. Sentamos, conversamos e desenvolvemos um modelo adequado para o melhor aproveitamento em cada etapa.
Ele usa quilhas móveis ou fixas ?
Wagner Só utilizamos quilhas móveis Future Fins. É a quilha que o Miguel acha que tem a melhor resposta.
Muitos surfistas profissionais não entendem de design de pranchas e deixam tudo à critério do shaper. Miguel é assim?
Wagner De jeito nenhum. Miguel participa ativamente no processo de criação das pranchas dele.
Ele entende muito de prancha, sabe exatamente o que funciona para ele. Por outro lado, está sempre aberto para testar novos designs. Às vezes ele fala: “Pai, deixa com um pouco mais de flutuação na parte da frente”.
Dá pra saber se uma prancha é boa só de colocá-la embaixo do braço?
Miguel Opa, dá sim. Na maioria das vezes já dá pra saber se a prancha vai funcionar só de colocar embaixo do braço.
Noto que quando dá aéreos, você coloca o pé da frente bem próximo do bico da prancha. Vocês tiveram que mudar alguma coisa nas pranchas em função disso?
Miguel Sim, trabalhamos muito na flutuação da área próxima ao bico, justamente para facilitar na volta do aéreo.
Wagner Antes, quando Miguel voltava do aéreo, a prancha espirrava ou prendia no lip. Depois de muitos testes, conseguimos desenvolver uma prancha que permite que ele volte dos aéreos suavemente e com muito controle.
Hoje em dia muitos surfistas estão adicionando quadriquilhas ao quiver. Vocês já testaram quadriquilhas ou nem querem saber disso?
Miguel Voltei para o Brasil da Indonésia com a ideia de fazer uma quadriquilha. Fizemos uma e ficou excelente.
Funcionou em que tipo de ondas?
Miguel A quadriquilha funcionou bem em todas as condições. Ela é ótima para manobras e para pegar tubos. Ondas grandes e pequenas também. É uma faz-tudo.
Wagner Miguel vai levar as quadriquilhas para Teahupoo e ver se ela segura nos tubos. Fizemos umas quadriquilhas pequenas, parecidas com as usadas por Kelly Slater.
Wagner, você está acostumado com as ondas brasileiras. Como você consegue fazer pranchas para o Miguel usar em Teahupoo, uma onda muito diferente das que está acostumado?
Wagner Trabalhamos no outline, Miguel testa e me dá um feedback.
Mas, geralmente as pranchas que ele usa em Teahupoo não fogem muito das que os outros surfistas usam lá.
Miguel Durante os campeonatos, eu pego muitas pranchas na mão pra ver o que os outros surfistas estão usando. O que eu achar que vale a pena, testo nas minhas próximas pranchas.
Wagner Miguel esteve com o Kelly no Taiti e viu as pranchas dele em detalhes.
Ah, entendi tudo. Miguel é tipo um espião durante os campeonatos. Ele pega as pranchas dos outros tops, vê o que estão usando e tenta copiar ou adaptar as novidades para as pranchas dele? (risos)
Wagner E quando estou no computador desenhando a prancha, ele fala, `a prancha do cara tinha menos curva, tinha um double concave, um single to double ou um double to single etc. As pranchas que estamos desenvolvendo agora são para acelerar dentro do tubo.
Só ganha nota excelente quem entubar bem profundo. Estamos fazendo pranchas para ondas tubulares e que não são muito boas para manobras, mas permitem que o surfista entube bem profundo e consiga trocar de borda dentro do tubo para ganhar aceleração e poder sair. Essas pranchas têm mais flutuação na área do bico.
Miguel, qual prancha você usou quando ganhou o Prime em Fernando de Noronha?
Miguel Usei o modelo novo que desenvolvemos durante o verão no Brasil. A prancha tinha o outline mais largo no bico e mais estreito na área da rabeta. Treinei bastante em tubos com essa prancha.
Onde?
Miguel Maresias e Paúba, litoral de São Paulo. Agora, estamos com uma casa em Maresias.
Então você surfa bastante com o Gabriel Medina?
Miguel Sim, no Brasil surfo bastante com ele. A casa em que eu moro agora fica a 30 segundos da casa do Gabriel.
Wagner Paúba é uma excelente onda para treinar tubo. O drop é muito rápido e eles pegam vários tubos em pé. É um ótimo campo de testes para testarmos as pranchas para ondas tubulares.
Miguel, quantas pranchas você usa por ano?
Miguel (rindo) Ah, isso só o meu pai sabe.
Wagner Cada vez que vem ao Brasil ele pega 10 pranchas. Num ano ele usa algo em torno de 70 pranchas.
Você devolve as pranchas que usa no tour para o Wagner?
Miguel Umas quebram, outras eu guardo. Tem pranchas que não estão ideais para competir, mas são ótimas para treinar no dia-a-dia no Brasil.
Wagner Tem pranchas que ele só usa na competição
Miguel É verdade, muitas vezes eu treino com uma prancha e uso outra para competir.
Aquela prancha azul que usou no US Open de 2010 era uma das chamadas prancha “mágica”?
Miguel Era sim.
Wagner (interrompe rapidamente) Miguel não se apega muito à prancha. Sempre trabalhei na mente dele para não se apegar à nenhuma prancha. Esse negócio de prancha mágica não existe. Existem surfistas que se apegam a determinadas pranchas e ficam rezando para elas não quebrarem. Aí, quando a prancha quebra durante a competição, o surfista perde o chão. Isso não acontece com o Miguel, ele testa prancha nova toda hora.
Aparecem muitos surfistas na sua fábrica pedindo uma prancha igual a do Miguel?
Wagner Sim, com frequência. Eles perguntam qual o modelo Miguel usou em determinado campeonato e pedem o mesmo modelo.
Tem muito surfista iniciante que pede prancha com as mesmas medidas do Miguel, mesmo tendo peso e altura bem diferentes?
Wagner Não toda hora, mas acontece. Aí, eu falo, a prancha é sua, faço como quiser. Mas eu digo, se fizer com as medidas do Miguel, a prancha não vai funcionar para você. O melhor a ser feito é uma prancha do mesmo modelo usado pelo Miguel, mas adaptada às medidas para o seu tipo físico. Assim eles entendem e eu faço a prancha que eu penso ser ideal.
Miguel, você coloca mais pressão no pé da frente ou no pé de trás?
Miguel No pé da frente.
Wagner Geralmente todos os goofies colocam mais força no pé da frente. Pode reparar que as pranchas de surfistas goofies não amassam atrás, enquanto as do surfista regular amassam bastante.
Miguel Pode reparar, as pranchas dos regulares quebram no cantinho da rabeta, por causa do dedão do pé. E as pranchas dos goofies amassam no pé da frente.
Wagner As pranchas do Miguel não amassam nada atrás, parece que ele nem põe o pé atrás (risos).
Qual fábrica você utiliza dos serviços de laminação?
Wagner Nenhuma. Fazemos tudo na OHP. Ruy é o responsável pela laminação na minha fábrica. Ele trabalhou vários anos comigo na fábrica da Surface e também trabalhou nas melhores fábricas de pranchas do Japão. Acho muito importante poder controlar a qualidade de uma prancha do começo ao fim. A flexibilidade da prancha influencia muito na performance dela. Por isso a laminação é uma parte muito importante no processo de fabricação de uma prancha. Não adianta fazer um excelente trabalho no shape e fazer um serviço mais ou menos na laminação. Em nossa fábrica fazemos dois tipos diferentes de laminação. As pranchas para os surfistas que não competem são mais resistentes. As dos profissionais são mais leves.
Para quais surfistas famosos você já fez prancha?
Wagner Esporadicamente muitos surfistas famosos acabam encomendando minhas pranchas. O primeiro campeonato importante (WQS) que o Gabriel Medina ganhou foi com uma prancha minha. Recentemente, Adriano de Souza encomendou três pranchas para fazer um teste. Não sei se gostou das pranchas, porque ele ainda não deu um feedback.
Qual a importância em ter um atleta da elite do surf mundial como piloto de provas das suas pranchas?
Wagner É fundamental. Miguel está sempre testando minhas pranchas contra os melhores surfistas do mundo. Isso é muito importante na minha evolução como shaper.
O fato de o Miguel ser meu filho e de falarmos bastante é muito importante em nosso trabalho. Ele leva as pranchas pra testar no campeonato e telefona para dizer o que funcionou. E, às vezes, o que não funcionou. Ele diz: `determinado modelo funcionou perfeitamente. Aquele outro não funcionou tão bem, a prancha esta desgarrando…´. Aí já penso no que posso modificar para continuar sempre evoluindo. Eu e Miguel não temos medo de errar tentando fazer modelos novos de pranchas. Temos a mente bem aberta.
A sua fabrica OHP patrocina outros surfistas?
Wagner Nao, só Miguel e meu outro filho, Samuca.
Como o Samuca tem se saido nas competições?
Wagner Tem se saído muito bem, foi bicampeão paulista e agora tem o mesmo patrocínio do Miguel, a Hurley.
Ele entende de pranchas?
Wagner (muitos risos) Não entende nada de pranchas.
Miguel, você já testou outras pranchas pra ver se o seu surf poderia se beneficiar com a experiência de outros shapers mais renomados que o seu pai?
Miguel Sim, tive que testar, né? (risos). Já testei pranchas americanas (Matt Biollos), australianas (JS) e havaianas (Tokoro). Fiz o teste com outras pranchas e não deu certo. O trabalho que desenvolvo com meu pai rende muito mais resultados.
Wagner Até o incentivei a usar pranchas de outros shapers. Uma coisa que eu acho muito importante em nosso trabalho é manter a mente aberta. Tem surfista que pede ao shaper para fazer mudanças na prancha e o shaper fala: “Não vou mudar porque eu sei que não vai funcionar!”. Isso não acontece comigo. Miguel às vezes pede umas mudanças nas pranchas e eu acho que não vai funcionar, mas eu faço mesmo assim. Ele diz: “Pai, eu quero uma prancha sem curva na frente”. Respondo, “ok, vou fazer”.
E você faz mesmo achando que não vai funcionar?
Wagner Faço. Temos que testar tudo. Vai saber se não funciona?
Durante o US Open eu vi o pai do pai do Filipe Toledo dar orientações ao filho durante a bateria. Ele assobiava, gritava, mandava o filho remar pra direita, para o inside, marcar o adversário no fim da bateria etc. E observei que você não troca nenhuma palavra com o Miguel durante as baterias. Por quê?
Wagner Já passei um pouco da minha experiência ao Miguel nos tempos em que ele era surfista amador. Hoje ele tem a visão dele, é a profissão dele. Antes da bateria, eu falo algo como “as esquerdas estão melhores, comece a onda com uma manobra forte, não deixe o tempo passar” etc. Depois da bateria eu digo o que acho que ele fez de bom e o de ruim. Durante a bateria eu fico quieto.
Então você um misto de shaper e de técnico?
Wagner Sim, é bom ele ter alguém por perto em que possa confiar. Quando chegamos aqui em Huntington, por exemplo, estávamos treinando com as pranchas novas. Como o Miguel fez um treinamento físico intensivo no Brasil, ele chegou mais pesado. Ele não estava surfando bem. Filmei as sessões de free surf e notei que ele estava distribuindo o peso de forma diferente na prancha e disse: “Miguel, temos que mudar isso!”. Durante três dias focamos nisso e resolvemos o problema. (Nota do editor: resolveram mesmo, porque Miguel obteve o segundo lugar no US Open, derrotando na semifinal ninguém menos que Kelly Slater).
Mas Miguel, você não conseguiria corrigir isso sozinho?
Miguel Acho que não. Meu corpo ficou diferente, fiz um trabalho físico que eu nunca havia feito antes. Fiz RPG e um treinamento físico para ganhar massa. Eu subia em cima da prancha e sentia a diferença na hora. Falava “opa, tá afundando mais, tô balançando um pouco mais”. É importante ter alguém analisando de fora da água.
Wagner Num caso destes é muito comum o surfista culpar o equipamento. Um detalhe muito importante é o posicionamento dos pés na prancha. Dependendo de onde você distribuiu o peso na prancha, ela anda mais ou anda menos. Às vezes você vê que um surfista não está andando. Noto que ele está distribuindo o peso totalmente errado. A tração da prancha está atrás. Não está na frente. A tração está no meio das quilhas
Miguel, quanto você está pesando?
Miguel 70 quilos. Pesava 64. Ganhei 6 quilos com o treinamento físico muscular.
Quais modificações fizeram nas pranchas por causa destes 6 quilos a mais?
Wagner Aumentamos a largura e a flutuação. Miguel chegou ao Brasil bem magro depois de ficar quase um mês na Indonésia comendo basicamente só arroz (risos).
Miguel Emagreci pra caramba. Antes de começar o treinamento físico, o treinador disse: “Quando acabarmos nosso treinamento Miguel vai estar pesando 70 quilos”. Aí, já comecei a pensar em como eu iria alterar a prancha por causa desses quilos a mais. Pensei, o próximo campeonato é na Califórnia, água gelada, tem que usar roupa de boarracha e tal. Sempre fazemos um quiver para água gelada e outro pra água quente, por causa da roupa de borracha.
Miguel , eu já vi você e muitos profissionais surfando aqui na Califórnia com roupa de borracha em dias em que muitos locais estavam surfando só de bermuda. Por quê?
Miguel Se passar frio na bateria, eu travo. Não gosto de água gelada e toda vez que obtive bons resultados aqui na Califórnia, eu estava usando roupa de borracha. Teve um campeonato em que ganhei no ano passado, que enquanto os outros surfistas usavam roupa de borracha 2×2, eu usava uma 5×4. A roupa era grossa e pesada, mas eu não passava frio.
Que tipo de treinamento físico você faz?
Miguel Estou fazendo fisioterapia com o dr. Eduardo, de Boicucanga. Também faço RPG, é muito bom para alinhar e equilibrar o corpo. Fiz um treinamento com o Instituto Marazul por mais de 10 anos. Durante todo esse tempo eu viajava semanalmente do litoral Norte até a cidade de São Paulo para fazer o treinamento. Hoje em dia meu treinador é Arthur Vargas. Digo a ele como é a onda que vou surfar. Por exemplo, digo que vou surfar 30 segundos e remar 2 minutos. Aí, ele diz: “Então, vamos treinar mais remadas”. É sempre um trabalho específico, nunca trabalhamos de qualquer jeito, sem metodologia. Para o US Open de Huntington, trabalhamos muita impulsão, por causa dos aéreos.
Wagner Miguel estava todo torto no começo do ano. Eu vi ele surfar e perguntei: “Miguel, você está remando todo torto, está remando sem vontade”. Ele disse que mal conseguia remar devido às dores muito fortes.
Miguel Quando cheguei à fisioterapia, o fisioterapeuta disse que meu músculo havia travado, que eu não tinha mais o movimento do músculo da remada no lado direito. As dores foram acumulando até ocasionarem esse travamento do músculo. O fisioterapeuta fez uma correção e alinhou minhas costas e ombros, me senti bem melhor depois disso.
Você também faz musculação?
Miguel Sim, também faço musculação. O trabalho com o Arthur tem me ajudado bastante.
E quando está viajando pelo mundo pra competir, como você treina? Você está usando a academia do hotel?
Miguel Não faço nenhum treinamento quando estou viajando. Eu não entro na academia do hotel nem para usar a bicicleta ergométrica. O trabalho que fazemos traz resultados que duram semanas. Nunca visando só a semana seguinte. Tento adaptar o treinamento ao calendário das competições. O último treinamento que fizemos tem que gerar resultados que durem de quatro a cinco semanas. Durante as competições a recomendação é não fazer nenhum exercício. Ouvi recentemente uma entrevista com o nadador Michael Phelps e perguntaram que tipo de treinamento ele fazia durante as competições. Ele disse que não fazia absolutamente nada.
Sei que você não gosta de bebidas, noitadas e outras coisas que tiram o foco dos atletas… Seu negocio é falar com a namorada pelo computador ou telefone, não é?
Miguel (risos) É isso mesmo, às vezes meus pais até reclamam que eu fico conversando muito tempo com a namorada pelo computador, mas é isso que me mantém focado em meu trabalho e tira a pressão dos campeonatos.
Interessados em encomendar uma prancha OHP, devem entrar em contato com Wagner Pupo pela página da OHP no Facebook. Converse com ele para receber a indicação do modelo mais adequado ao seu surf (Marcelo Bolão).