
Aconteceu no início de outubro a tradicional coleta de lixo do fundo do mar, realizada todos os anos por instrutores de Parati (RJ) e mergulhadores que freqüentam o pico.
Além de serem retirados 300 quilos de lixo do fundo do mar, o canal National Geographic garantiu que o “Clean up Weekend” terá uma grande repercussão, usando esse ato simbólico para incentivar ações similares em outros países.
Aproveitando a ocasião, a associação de escolas da região juntou a moçada para limpar também a praia de Jabaquara. Surfista gosta de praia limpa e tem consciência ecológica, mas tão importante quanto deixar a praia limpa é manter também o fundo do mar limpo. E o mais legal é que mergulhar é uma bela opção para os dias sem ondas.

O mergulho é uma atividade que completa e pode ser facilmente conciliada ao surf, já que alguns dos principais surf-spots do mundo também são excelente para o mergulho, como Hawaii, Bali e Fernando de Noronha, pra ficar apenas com alguns exemplos.
Comecei a mergulhar em 92, exatamente quando realizei minha primeira expedição; o Crossing American Coast. A idéia inicial da trip era vir de Los Angeles até o Brasil de carro, surfando pelo caminho. Aproveitando o boom da onda dos esportes de ação em contato com a natureza, resolvemos incluir o mergulho à expedição, que comemorava os 500 de descobrimento das Américas.
Fizemos um curso de mergulho básico no Projeto Acqua / Claumar e embarcamos, cinco caras e eu, com a cara e a coragem para os EUA. No bagageiro do avião levamos três mountain-bikes, quatro equipamentos completos de mergulho autônomo, doze pranchas de surf e muita mercadoria dos patrocinadores. No caixa havia dinheiro contado para comprar dois carros usados e somente mais US$ 1,5 mil para as despesas extras.

Ao chegar, compramos uma Pathfinder e uma King Cab e, depois de 15 dias de preparativos, gravações e algumas ondas falidas no pier de Huntington e em Oceanside, partimos para o México. Viajamos dois dias sem parar cruzando o Deserto de Sonora até chegar em Mazatlán, primeira cidade do continente abaixo do Golfo da Califórnia. Aí começamos o surfari.
Com o surf report nas mãos, checamos os principais picos até Puerto Escondido. Fizemos duas baterias alucinantes, a primeira em Pascoalles, com morras assustadoras, bem parecidas com as de Puerto, e a segunda em Tixtla, com boas ondas quebrando sobre um fundo de pedra.
Chegamos em Puerto Escondido no final de setembro para passar uma semana. Nos primeiros dias, as ondas no beach-break não estavam muito boas e aproveitamos para desenferrujar em La Punta. Quando o mar começou a subir, Puerto acertou e pegamos 6 a 8 pés de gala durante quatro dias seguidos. Mas, como a grana estava curta tivemos que apertar o cronograma e deixar o pico ainda com altas ondas rolando.

Depois de passar pelas ruínas Maia de Palenque, a caminho de Cozumel, melhor ponto de mergulho do México, tivemos que dar meia volta na estrada. Chovia torrencialmente na região e a estrada estava interditada com várias pontes caídas.
Entramos na simpática Guatemala e fomos direto para o Vilarejo de Panajachel, a 1.560 metros de altitude, na margem do Lago Atitlán, cercado por três vulcões e considerado o mais bonito do mundo. Alugamos um barquinho de fibra com motor de popa e fomos surfando na marola com uma 6’2 até chegar em Las Cristalinas.
Devido à sua formação vulcânica, a água do profundo lago vem praticamente de chuvas de milhões de anos, por isso é tão cristalina. Nos preparamos para esse mergulho técnico de altitude, fizemos um planejamento especial e caímos na água.
A ótima visibilidade enganou Roberto, na época um mergulhador inexperiente, que foi descendo, deixando-se levar pelo visual da parede. Lawrence (Wahba), que já era instrutor formado, perseguiu o maluco, que já estava nos 23 metros, ultrapassando e muito a margem de segurança desse mergulho.

Depois de uma canseira de 8 horas na fronteira de Honduras, passamos por São Pedro Sula, cidade mais caída de toda a América Central, e seguimos para La Ceiba. Deixamos os carros no hangar da aeronáutica e pegamos um avião Bandeirante para a ilha caribenha de Roatán, verdadeiro paraíso de mergulho.
Conhecemos um guia de mergulho coroa, meio falido, o Till (ou tio mesmo, para nós) que aceitou como pagamento alguns equipamentos.
Ficamos quatro dias na ilha fazendo uns três mergulhos por dia. O fundo desta parte do Caribe é alucinante; muitos corais de diversas formas diferentes, lagostas imensas, garoupas, cavalos-marinhos e vários jardins de enguias. Tudo isso numa visibilidade de 40 metros.
Fechamos o último dia com chave de ouro. Caímos na água, dropamos para 27 metros, atravessamos algumas cavernas e fomos parar no Blue Channel, tentar achar novamente uma moréia que vivia numa toca por ali.

Achamos o monstro verde de 2 metros e ainda outra moréia bem mais simpática, de 1,5 metros, que nadou lindamente para as câmeras. O Tio e Lawrence ficaram amigos do animal, deram peixe na boca dela e até fizeram um cafuné na cabeça.
Uma das vantagens do mergulho sobre o surf é que é muito mais fácil encontrar condições ideais. É uma atividade que nos incentiva a respeitar a natureza, compreendê-la e nos permite conhecer melhor os oceanos e, é claro, amá-lo ainda mais.
Continuem surfando e aproveitem a dica, mergulhar também é show! A segunda parte do Crossing American Coast eu conto na próxima matéria. Até mais galera!
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