
Nos dias de hoje, o nome Orlando Nunes pode passar batido numa rodinha de surfistas mais jovens.
Mas esse é o verdadeiro nome de “Prexeca”, 41, figura folclórica nascida e criada no Guarujá e dono de muitas histórias para contar.
Assíduo freqüentador de uma das primeiras surf-shops do Brasil, a Surf Center, do falecido Preto nos anos 70 e começo dos 80, Prexeca foi segurança de diversos campeonatos e protagonizou situações hilárias, como quando expulsou Derek Ho e Sunny Garcia da água nas Pitangueiras.

Atualmente Prexeca ganha a vida dando aulas de surf na escola Caminhos do Mar e, convertido ao cristianismo, é um dos líderes da Igreja Bola de Neve no Guarujá.
Nesta entrevista concedida ao site Waves, essa lendária figura do surf brasileiro fala sobre os anos áureos do esporte no Guarujá e do curioso apelido que ganhou há 25 anos.
Quais eram os caras que começaram a surfar com você?
Preto, Marquinhos 360, Tinguinha Lima, Neno Matos, Nonay, entre outros. Mas o cara que mais arrepiava naquela época e não ficou famoso foi Rosulo Maer. Ele era regular e dava uns cutbacks lindos.
Você trabalhava na loja do Preto? Como foi aquela época?
Na verdade eu não trabalhava lá, mas ficava o tempo todo na loja viajando nas pranchas, bermudas, não tinha condições de comprar nada e ficava sonhando. Eu grudava na Surf Center. Se não me engano foi a primeira loja de surf do Brasil.
Quais eram as pranchas dos seus sonhos que eram vendidas na Surf Center?
Homero, Gledson, Lightning Bolt e Patro. Eram todas monoquilhas.
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Como surgiu o apelido “Prexeca”?
O ano era 83, eu estava na praia com meus amigos Maurici e Irineu, todo cheio de areia, meio sujo, e fomos para o centrinho jogar fliperama. Aquela coisa de moleque largado. Por causa do meu estado eles me chamaram de Prexeca e acabou pegando.
Basta a gente não gostar de um apelido pra ele pegar…
Com certeza. E foi assim comigo, eu não gostava e hoje ele faz 22 anos. E depois que o Maurici, que me deu esse apelido, faleceu, eu comecei a gostar de ser chamado de Prexeca.

Você trabalhou como segurança em vários campeonatos. Tem alguma história que marcou?
Antes de trabalhar nos evento eu cheguei até a competir em alguns. Existem duas histórias bacanas. A primeira foi triste, com final feliz, que o fotógrafo Sebastian Rojas apelidou de “rala bunda”. Foi durante o Niasi Tribuna, no Canto do Maluf, quando um cara sem experiência foi parar atrás das pedras em um dia de ondas enormes. Estava eu, o Roley e o Jorge Mula. Eu me joguei das pedras com mais de 300 pessoas olhando e eles me jogaram uma corda. Depois de um certo sufoco consegui salvar o cara.
A segunda história foi com o Taiu e Jorge Pacelli. Eu era segurança do Hang loose Pro no Maluf e o Sunny Garcia, Derek Ho, Barton Lynch, Gary Elkerton, Matt Branson e outros estrangeiros estavam surfando na área ao lado da competição. Eu queria pedir para eles saírem da água, mas não sabia falar inglês. O Taiu e o Jorge tinham bronca desses caras por confusões que rolaram no Hawaii e me disseram para falar “Get out of the water, haoles” (saiam da água, forasteiros). Eu comecei a falar isso e todos saíram da água. Eu dei uns berros e eles esvaziaram a área. Mais tarde foram reclamar no palanque e pediram para chamar a polícia, porque um louco tinha expulsado todos da água. Eles queriam me mandar embora do evento, mas não foram felizes. O Taiu e o Jorge são foda.
Você passou por três gerações de surfistas no Guarujá. Cite alguns destaques.
Da primeira geração tem o Rosulo Maer, Neco Carbone, Sergio Gorilão, que surfa para os dois lados, e o Preto. Depois o Tinguinha, Deri, Taiu, Jorge Pacelli e Tarzanzinho. Depois o Charles Cardosos, o Erick Miyakawa e você.
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E o Charles, onde está?
Pôxa, um vice-campeão mundial amador hoje vive da pesca. Ele gosta, mas poderia estar ganhando mais com o surf.
Hoje você trabalha ensinando a galera a surfar. Fale um pouco sobre essa fase.
Eu dei aula nos anos 80 pela loja Hi Fly e O’Neill. E há três anos eu tenho a Escola Caminho do Mar, com apoio da Rip Curl, Sthill, HD e Flex Academia. Minha noiva Andréa de Souza, que é formada em Educação Física, me ajuda nessa empreitada. Ela é personal surf trainner da escola. Aproveito para deixar nosso contato: (0xx13) 9148-2557 e 8133-4202, com Andréa.
Você também é líder de uma igreja. Como se converteu?
É verdade. Foi muito bacana. Eu conheci a Andréa na academia e comecei a ir à igreja com ela. Eu sempre me preocupei apenas com as coisas do mundo e hoje não gosto mais de ser chamado de Prexeca, afinal é coisa do passado. Hoje sou líder dos eventos da Igreja Bola de Neve no Guarujá e tenho uma célula, reunião semanal que coordeno em Vicente de Carvalho. Eu era um cara que gostava de bater nos outros e dar uma de “fodão”, e hoje acho isso fora da realidade. Deus faz coisas impressionantes. Essa molecada tem que correr atrás. Ficar olhando os outros e achar que as coisas caem do céu não é a realidade. Rezem e corram atrás porque vale a pena.