Os puristas não gostam, os desportistas vibram, os jornalistas divulgam, os verdadeiros profissionais lucram, os amadores sonham, a indústria e o comércio investem e faturam, alguns “viajam”…
O universo do surf não pode ser analisado com base em uma visão única, de um prisma individual, e não são descartados os paradoxos, as contradições que podem conviver tranqüilamente em um mesmo individuo, “o principal direito do ser humano é o de se contradizer” já dizia Baudelaire.
Enquanto atletas, agentes e técnicos, por vezes gritam contra falta de patrocínio, bairrismo, preconceito de cor, credo e origem, os resultados vão acontecendo naturalmente e as barreiras vão sendo vencidas com profissionalismo.
Independente do seu credo muçulmano o campeão brasileiro Jihad Kohdr caminha para o bi no SuperSurf. Wiggoly Dantas é o jovem afro-brasileiro campeão na épica abertura peruana das Seletivas Sub 20, ambos os atletas de marca multinacional criada na Austrália e que atingiu forte ascensão na decada passada no mercado europeu através de sociedade que tinha o ex-sócio da operação americana, havaiano Jeff “Mister Sunset” Hakman (“o melhor surfista de competição entre 1965 e 1975”, segundo Kampion e Brown em “Uma história da cultura do Surf”).
A marca, também nos EUA, cresceu vertiginosamente paralela ao profissionalismo e ao seu maior expoente e vencedor: Kelly Slater, e no feminino patrocina a campeã mundial Sofia Mulanovich, do Peru de altas e perfeitas ondas e de Felipe Pomar, o sul-americano da galeria de campeões mundiais de surf e amigo aristocrata de Juan Manuel Fangio, o argentino que foi na fórmula 1 o que Maradona não foi no futebol.
Fangio, aliás, dizia: “Não basta ter início é preciso ter continuidade”. Neste sentido a fórmula 1, com sua adrenalina de alta velocidade, roncos e até espionagem, é exemplar, acreditem!
Quando se está em uma Ferrari, Honda, Toyota, ou num Renault, com certeza muitas vezes o que pesou na compra foi o status, o modelo, o orçamento, e outros fatores. Mas certamente o inconsciente traduz o que vem do profissionalismo, dos pilotos, dos projetistas e dos engenheiros que fazem a simbiose e levam para os veículos ditos de “passeios”, conquistas da fórmula 1, nelas incluídas a segurança.
Vale registrar a nova conquista da fórmula 1: a provável ascensão de um campeão mundial negro, Lewis Hamilton, o cara que aos 10 anos se aproximou de Ron Dennis e afirmou que seria campeão do mundo, embora não previsse a concorrência do bicampeão Fernando Alonso, rival companheiro de equipe.
Com certeza, no surf temos garotos que também aos 10 anos tiveram a pretensão de ser campeões mundiais. O atual octacampeão Kelly Slater pode ser um deles, resta perguntar ao seu primeiro shaper, o floridiano Matt Kechelle, até hoje amigo do atleta, que na busca e no WCT, já então usava pranchas do consagrado All Merrick.
Slater não gosta de ser derrotado (já se disse que “nem em jogo de porrinha”) e, ao sair de uma final perdida em Hossegor, França, para Teco Padaratz, ele chegou a dizer reservadamente ao brasileiro que isso nunca mais aconteceria, jogando “na pressão” com o colega de profissão a quem confessou invejar “por ele ter encontrado a sua mulher ideal”. Neste sentido, com certeza, para Slater, a busca continua…
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Slater e Teco são dois bons exemplos de profissionais, tendo em comum a forte relação com o shaper, com o artesão de pranchas, verdadeiros mentores das suas carreiras, com os quais interagem sempre. O de Teco se chama Avelino Bastos, nascido em São Paulo, suas pranchas se chamam Tropical Brasil, sendo feitas em Santa Catarina, onde ambos moram.
Quem viajar pelo mundo, certamente vai encontrar pranchas das duas marcas. Elas são, a exemplo de muitas outras, frutos de uma evolução na qual a existência do profissionalismo competitivo não exclui conquistas para o surfista de fim de semana, para o iniciante e para aqueles da busca eterna de ondas perfeitas; busca que já levou ao progresso e à melhoria da qualidade de vida até para regiões tidas como inóspitas, e também ações de verdadeiro compromisso, a exemplo das que tão bem a entidade internacional Surf – Aid representa para o soberano povo indonésio.
E foi na Indonésia que, em 1995, aconteceu um evento histórico do WCT, que, salvo engano, foi recorde de notas máximas, quando “quatro mulheres convidadas juntaram-se a 44 homens na selva da remota e perigosa G-land de Java, e Lisa Andersen, obteve respeito considerável ao lançar-se nos grandes tubos opressivos e ganhar fama nos corais”, disseram novamente Kempion e Brown, sem prever que, anos depois, outra surfista, Layne Beachley, hoje recordista de títulos, teria o “Laureus”, o oscar do esporte, na estante.
Heptacampeã profissional de surf, Layne, australiana, hoje tem um evento que leva seu nome e credibilidade, o “Havaianas Beachley Classic”, patrocinado pela marca de sandálias nacional, também uma das apoiadoras do circuito brasileiro, elite profissional, duas ações de marketing que se traduzem em injeção de recursos para o esporte e retorno de vendas para a marca de sandálias da São Paulo Alpargatas, que assim abre postos de trabalhos em sua fábrica em Campina Grande, Paraíba, onde todas as peças são feitas.
Quando John Scott escreveu na revista Surfer que o “o profissionalismo é negro!”, ele estava fazendo coro com “Da Cat” e outros menos famosos em termos de paradoxos e contradições.
Recentemente, Rico de Souza, pai do promissor profissional Erik de Souza, recebeu da Guiness Book o comprovante de recorde de surfistas em uma onda, feito alcançado com o exemplar profissional Picuruta na mesma onda.
Vale registrar que foi o Senador americano pelo Hawaii, o surfista Fred Hemmings quem fez a entrega, foi ele também que nos anos 60 rebateu Scott na sua oposição ao profissionalismo: “O surf profissional identificará nosso esporte, melhorará todos os aspectos das competições, projetará uma imagem limpa e saudável e irá melhorar e regulamentar a evolução das performances no surf”.
Fred, campeão mundial em 1968, não ficou no discurso e seria um dos fundadores da International Professional Surfing (IPS), que veio ao Brasil fazendo no Arpoador os eventos “Waymea 5000”, no qual nomes como Cheyne Horan, Joey Buran e Terry Richardson foram destaques ao lado de brazucas como Pepê Lopes, Roberto Valério e o jovem Fred Dorey.
A pioneira IPS foi entidade antecessora da ASP, sigla hoje tão conhecida no meio do surf, quanto CBF para os brazucas em geral. ASP que surgiu depois de disputas que estabeleciam um novo conceito propagado por Ian Cairns, hoje realizador de eventos nos Estados Unidos e já ex-integrante da pioneira equipe “bronzed aussies” (australianos bronzeados) ao lado, entre outros, do também australiano Peter Townend, primeiro campeão da IPS.
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Em 1986, quatro anos depois de criado, o “tour” da ASP desembarcaria no Brasil para o pioneiro e histórico Hang Loose Pro Contest, e o palco seria uma então bucólica Florianópolis, na qual a praia da Joaquina foi a anfitriã de gala e o profissionalismo ainda não existia oficialmente, com a associação brasileira de surf profissional (Abrasp) tendo sua pedra fundamental “lançada” com a presença do main stream do surf nacional.
Entre eles, nomes como Roberto Perdigão, que hoje comanda ao escritório sul-americano da ASP com reconhecido profissionalismo. Enquanto o atual presidente da Abrasp é oriundo da própria entidade: seu campeão em 1989, Pedro Bittencourt Muller.
Ele ainda é surfista profissional e integrante da divisão principal surgida em 2000, cujo acesso é renovado através do Brasil Tour, onde pontificam o diretor administrativo da entidade Marcelo Andrade e seu diretor Pedro Falcão, os mesmo da divisão principal.
Sem querer fazer apologia ao profissionalismo e sem considerar ele o dono do monopólio da evolução do esporte surf, é bom saber que ao longo desses anos, o esporte só cresceu havendo idealismo conjugado e atitudes exemplares que fogem das buscas sensacionalistas dos holofotes
E uma delas foi justamente do atual presidente da Abrasp, o surfista profissional Pedro Muller, quando, em 1991, venceu a etapa de encerramento do brasileiro nas ondas de Praia dos Artistas, na potiguar Natal, e doou, sem alarde, para ajudar ao colega Taiu, que se acidentara em treino que o deixara tetraplégico, premiação em dinheiro ganho da melhor forma possível, fazendo o que gosta e com profissionalismo competente e exemplar, iniciado para os atletas quando seu maior ícone, Duke Kahanamoku, recebeu meio dólar a cada uma das camisas típicas que a Kahala com seu endosso vendia, tornando-se o primeiro patrocinado de uma empresa de roupas esportivas, talvez o maior deles.
Vale registrar que as empresas de surf wear, trazem muitas delas em suas origens surfistas precurssores do profissionalismo, muitos deles competidores destacados no seu auge, a exemplo de um que cultivou imagem exemplar também como empresário patrocinador na sua curta passagem aqui: o carioca Roberto Valério, não a toa hoje nomeando à taça que o estado campeão brasileiro recebe quando da vitória na temporada da confederação, vitória geralmente alicerçada em atletas que, ou farão parte da nova geração profissional, ou já o são.
