Soul surf

Túnel do tempo

Picuruta Salazar, campeão do OP Pro 85, na capa da edição 8 da revista Fluir. Foto: Reprodução Fluir.

Durante uma nostálgica visita a alguns arquivos pessoais, Sidão Tenucci resgatou episódios e conectou fatos curiosos e interessantes dos últimos 22 anos da história do surf no Brasil, da qual ele participou ativamente.

 

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Por e-mail, Tenucci sugeriu ao editor do Waves.Terra, Alceu Toledo Junior, uma matéria sobre o assunto. A resposta foi positiva e Sidão entrou literalmente no túnel do tempo.

 

Confira antes, a pedido do autor, a troca de mensagens entre Sidão e Juninho e conheça um pouco mais dos bastidores do portal Waves.Terra.

O lendário campeonato na Joaquina deu o pontapé inicial para o surgimento, dois anos depois, do circuito brasileiro profissional. Foto: Reprodução Fluir.

—– Original Message —–
From: Sidnei Luiz Tenucci Jr
To: Alceu
Sent: Monday, March 12, 2007 6:22 PM
Subject: Nossos colunistas vêm de longe…OP PRO 85.

 

Caro editor,

Fuçando nos meus já legendários álbuns, verifiquei que em um deles, mais especificamente o de 1985, está grudada a ficha técnica do OP Pro 85 (o primeiro, que deu origem ao circuito brasileiro de surf, em 87). Posso escanear e mandar. Só para dar uma idéia, a lista dos juízes e dos atletas classificados, por exemplo, coincide em boa parte com a atual lista de colunistas do Waves:
Juízes: Marcos Conde, Rômulo Fonseca, Renato Hickel, Bento Xavier, Alexandre Fontes, Jordão, Sérgio Gadelha.

Coordenação Geral: Roberto Perdigão e Flávio Boabaid.

 

Classificação Profissional:

 

1o Picuruta Salazar
2o César Baltazar
3o Bilo
4o Frederico D?Orey
5o Cauli
6o Neno do Tombo
7o Gugu
8o Tinguinha
9o Renato Phebo
10o Almir Salazar
11o Taiu Bueno
12o Saulo
13o Valdir Vargas
14o Mauro Pacheco
15o Daniel Friedmann
16o Roberto Valério
 
O 4o colocado na categoria amador foi o Carlos Burle…
 
Achei super interessante. Tem umas fotos também.
Você acha que vale a pena fazer uma matéria com esse tema/material?
Sidão

 

—– Original Message —–
From: Alceu
To: Sidnei Luiz Tenucci Jr
Sent: Monday, March 12, 2007 10:48 PM
Subject: Re: Nossos colunistas vêm de longe…OP PRO 85.

 

Que legal Sidão, você sabe que eu sou um nostálgico, gosto destas paradas antigas. Então, fica à vontade e mete a colher nesta história.
 
Um abraço

Junior

 

—– Original Message —–
From: Sidnei Luiz Tenucci Jr
To: Alceu
Sent: Tuesday, March 13, 2007 5:48 PM
Subject: Nossos colunistas vêm de longe…OP PRO 85.

 

Juninho, então aí vai…
 
Dando seqüência à matéria, quero dizer que o fato de os juízes, competidores e organizadores do primeiro OP Pro 85, há 22 anos, serem personalidades de destaque na comunidade do surf ainda hoje, prova uma vez mais o fato histórico desapercebido pela maioria: o surf acolheu em seu ?colo oceânico? milhares de pessoas. Literalmente.

 

De algum modo, todas elas vivem, com suas famílias, dessa conexão com o mar e as ondas. Renato Hickel, ex-juiz do OP Pro, e ex-head judge, é hoje Tour Manager da ASP. Carlos Burle, provavelmente o mais conhecido big rider brazuca da atualidade, foi quarto colocado na categoria amadora.

 

##

 

Paulo Rabello (alto à esq.), Roberta Borges (abaixo), Paulo do Tombo (centro) e Dadá Figueiredo (dir.). Foto: Reprodução Fluir.

Mr. Picuruta Salazar, recordista brasileiro e mundial de vitórias em campeonatos (mais de 150), começou sua escalada fantástica naquele campeonato (ele mesmo me contou a história, e na frente de toda a comunidade, no dia do Surf, na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo) e se não vencesse, sua família teria sérios problemas de sobrevivência.

 

O misto de jornalista/articulista ácido e dono da marca Totem, Fred D?Orey, beliscou um quarto lugar com seu estilo fluido e elegante; a lenda vida Cauli Rodrigues foi o quinto. Nosso querido colunista, locutor de campeonatos e exemplo vivo Taiu Bueno obteve o 11o lugar. O

falecido big rider Roberto Valério conseguiu a honrosa rabeira dos classificados, com o 16o lugar.

 

Saudoso Miguel Cury (foto maior), Jorge Pacelli (abaixo à esq.), Tinguinha (no tubo) e Claudio Martins (no alto). Foto: Reprodução Fluir.

E todos os outros fizeram história simplesmente por exercitaram a atividade que amavam e amam. Milagre, não? Privilégio? Sim. Num mundo onde as pessoas fazem o que não gostam porque ?precisam sobreviver?.

Rômulo Fonseca, colunista, “the man who ride mountains”; Marcos Conde, técnico vencedor das equipes nos mundiais amadores, da Confederação Brasileira de Surf e colega do Waves, estavam entre os juízes. Roberto Perdigão, organizador e posteriormente presidente da Associação Brasileira de Surf Profissional (fundada por boa parte dessa galera ), amigão – passamos perrengues e porradas juntos julgando os primeiros campeonatos Waimea 5000, no início dos ?80, é hoje diretor executivo da ASP South America.

 

Arnaldo Spyer, com seu humor e inteligência, contribuiu enormemente para a construção de uma psique descontraída e, ao mesmo tempo, organizada e vencedora: o surfista brasileiro. Devo citar com orgulho meu amigo e organizador de eventos Daniel Friedmann, um dos mais belos estilos que o surf brasileiro já presenciou. Valdir Vargas, ex-atleta e companheiro das ondas balinesas em 81, tem dois filhos com a competência e classe do pai sobre a prancha. E todos que eu não tenho mais contato, mas tenho certeza que estão em algum line up do Brasil ou do mundo, olhando para o horizonte e esperando a próxima série.
 
Aquele OP Pro foi mais que um campeonato, foi um festival, traçou os rumos do profissionalismo no Brasil. Originou, exatos dois anos depois, o primeiro circuito brasileiro profissional, que, por sua vez, deu estofo aos atletas nacionais para ganharem tarimba, ginga, malícia, competitividade. Levou-os até onde estão hoje: disputando os pódios do mundo, no WQS e no WCT. Parece fácil e normal, mas não é. Isso era inimaginável há 22 anos.

 

Os gringos eram babados, idolatrados, não eram simples seres humanos, como hoje, disputando uma bateria conosco e tendo que ralar para vencer, quando vencem. Nós humanizamos a concorrência nos tornando também competitivos. Tornamos os gringos seres de carne e osso, e só assim foi possível vencê-los. Nos faltava estrutura, investimento, Fé. A partir daquela data não faltava mais nada. Aceleramos o processo para que um brasileiro alcance o tão sonhado título mundial.

 

É uma questão de tempo, só que dessa vez, menos tempo. É preciso que isso seja dito e repetido. As novas gerações, mesmo os mais esclarecidos, não sabem de onde vieram. Não têm noção do que foi feito antes deles para que pudessem estar na posição relativamente confortável que se encontram hoje. O próprio Mineirinho veio falar comigo depois da homenagem na Assembléia e se mostrou surpreso com toda essa história do surf que ele ignorava.

 

Saber disso tudo não é útil para que os jovens atletas troquem de ídolos (os gringos pelos brasileiros legends), mas para que, tendo uma consciência histórica, sejam alimentados pela vibe e pela energia de todos os surfistas brasileiros que os precederam, encham suas almas de orgulho de um passado conquistado na marra, quando os surfistas brasileiros que primeiro se aventuraram fora do país eram (muito mais que hoje) excluídos, malhados, roubados, humilhados nas competições, ou por não saberem falar inglês, ou por serem de “terceiro mundo”, ou por não fazerem parte da “elite” australiana/havaiana/californiana.
 
Qual atividade tão prazerosa proporciona o privilégio de se viver dela? Qual comunidade vivencia sua prática 24 horas por dia, ampliando os horizontes e percepções das próximas gerações? Qual atividade é confiável, lucrativa (quando bem administrada ), saudável e vista com bons olhos pela sociedade? Poucas. Que eu me lembre, apenas uma: o surf.
 
PS – Gostaria de ufanar um pouco os organizadores que tiveram a brilhante idéia de institucionalizar uma competição que hoje é indissociável dos campeonatos de surf: o Miss Biquíni. Nem é preciso dizer que, a partir daí, a festa continuava também fora da água; além de incluir as meninas, de uma maneira elogiosa e esteticamente viável, na história do surf. As primeiras baterias de bodyboard (masculino e feminino), kneeboard (só dava o Sérgio Peixe) e longboard também foram realizadas nesse campeonato. Foram dez dias de festa. Um dia contarei os bastidores desse Woodstock nativo e salgado e irei literalmente pra galera…

 

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Agradecimentos ao meu eterno amigo e fonte inesgotável de informações confiáveis, Reinaldo “Dragão” Andraus.

 

Nota do Editor Agradecimento ao Luciano Ferrero, editor de fotografia da Fluir, por escanear a revista e enviar os arquivos. (Juninho)

 

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