Visual do pico em Burleigh Heads, Gold Coast australiana. Foto: Vitor Froimtchuck.

Verão chegando e, com ele, as ondas, graças a Deus – ou Netuno, melhor dizendo. Vários picos aqui na Gold Coast já deram o ar da graça com, destaque para D-bah e Burleigh Heads, que proporcionou os melhores tubos.

 

Neste começo de verão aproveitei que a massa turística ainda não chegou em peso e acordei cedo num dia que prometia boas ondas na frente de casa.

 

O sol não tinha nem nascido quando atravessei a rua e corri até o Burleigh point. Pulei das pedras e remei até o outside. O clima era sombrio. Nublado, frio, meio sinistro. Nem liguei. A brisa terral já começava e as séries quebravam com a maré que vazava. Cheguei ao outside junto com uma grande série.

 

Nem pensei duas vezes. Remei e dropei a primeira mesmo. Cavei forte e, já adiantando com velocidade, botei para dentro. Um lip imenso jogou na minha frente. 1, 2, 5 segundos… Saí pela boca do tubo, seco. Saí da onda e um sentimento de felicidade tomou conta do meu corpo. Uma vibração forte de adrenalina. Muito prazer.

 

Nenhuma alma viva viu. Nem os tantos golfinhos que diariamente patrulham o pico, nem mesmo uma única gaivota. Não inspirou ninguém, nem mesmo inveja. Niguem se calou, fingiu que não viu ou gritou amarradão.

 

Nem um camarada para tirar onda ou ficar falando durante dias. Ninguém tirou foto ou filmou. Nada para ver depois tomando cerveja com amigos ou para contar orgulhoso pra namorada.

 

Não houve nenhuma prova concreta que eu peguei aquele tubão. Está só na minha memória. Ainda surfei mais algumas boas até o crowd começar a ficar pesado, mas nenhuma foi igual àquela onda. O tubo. Saí pela praia, corri até em casa e fui para faculdade.

 

Deixei minha vaga no outside para alguém aproveitar este dia clássico. Alguém que irá sentir o mesmo que eu senti e surfistas no mundo todo aproveitam diariamente. Dirigindo na highway eu tinha um sorriso na cara lembrando do tubo.

 

Uma onda. Não roubei, não implorei ou pedi nada para ninguém. Não dividi com ninguém e ninguém me impregnou. Nada mudou para mim. No mundo nada mudou por causa do meu tubo. Mas, às vezes nem precisa mesmo.

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