Pela primeira vez desde que cheguei na Austrália, tive muita vontade de estar no Brasil.
Afinal, poderia ter comemorado a vitória do meu time de coração, o Internacional de Porto Alegre, ao lado dos amigos e da família.
Desde o grande time de 1970, quando eu nem era nascido, passando pelos dois vice-campeonatos brasileiros nos anos 80, o Inter vem merecendo cada vez mais ocupar seu verdadeiro lugar no mundo do futebol.
E lá está ele agora. Na crista da onda, pendurado no lip com as mãos na taça, ou melhor, na prancha.
Naquele momento que tudo pára dentro de você, com todos dentro d?água de olhos vidrados, prontos para ver o qual vai ser sua reação.
A rainha da série caiu no seu colo, mas não por acaso. Você remou muito, esperou dias e dias, tomou ondas enormes na cabeça pra aprender a lição.
Por vezes achou que não seria possível, calculou cada milímetro no imenso oceano para estar no lugar certo.
Seus amigos torcem, outros olham incrédulos, uns invejosos e alguns ainda secam pra você cair. Mas, a essa altura você e a onda são uma coisa só, andam juntos na mesma velocidade e vibram juntos a cada milésimo de segundo.
Então você dá tudo de si, agarra suas chances como quem esperou a vida inteira para estar ali e acontece o drop; turbulento, rápido, agitado, com aquele frio na barriga que não dá tempo nem de assimilar. Como um elevador subindo a mil por hora, ou um carro acelerando e colando você no banco.
Em seguida vem aquela cavada nervosa que parece não ter fim, com o trilho a sua frente iluminado pelo sol vermelho do final de tarde, e o tubo armando alto e pesado como um muro, podendo tanto te abrigar como cair na sua cabeça.
De repente, vem a mais infinita paz. Um salão líquido se forma numa das mais complexas e incríveis criações da natureza; e você ali, metido dentro dela com toda sua alma, aceito por ela. Você está no tubo e é tomado por uma felicidade divina.
Aí, praticamente do nada, quando se está completamente fora do corpo e do tempo, ainda em pleno êxtase e sem perceber que não é um sonho, vem o spray te jogando pra fora ainda mais rápido do que você entrou.
Quando acaba você percebe que fez o tubo da vida. Pensa e primeiro não consegue acreditar no que aconteceu. Depois, medita e realiza que não queria nem poderia estar em outro lugar naquele momento. Tudo se passou como mágica e cada coisa ocupa seu devido lugar.
Suas lembranças cunhadas na memória como uma tatuagem, fotos, vídeos, enfim, tudo registrado para você poder olhar quantas vezes quiser e sentir toda aquela emoção novamente, para sempre.
Pois a vitória do Colorado no mundial Interclubes no Japão foi tudo isso e fez a cabeça dos torcedores de uma maneira impensável.
Depois de ser campeão das Américas no Beira Rio, em cima do indiscutível São Paulo, o que poderia ser melhor do que vencer o ?melhor time do mundo?, com o melhor jogador do mundo, do outro lado do mundo, com todo o mundo de olho?
O time de estrelas do Barcelona foi ofuscado pela pureza da estrela colorada, cheia de garra vinda do coração.
Aqui em Perth, Oeste da Austrália, logo depois do jogo, desci a rua e não acreditei quando me deparei com um palco lotado de Papais Noéis vermelhos cantando ?Jingle Bell? com um show de fogos de artifício ao fundo. Até aliviou a saudade.
Acordei no dia seguinte louco pra ver as fotos e vídeos da onda da vida do Inter. O ano não podia acabar com uma vitória mais simbólica e feliz. Que venha o Natal, porque o presente nós abrimos na véspera!
