
Gostaria de compartilhar alguns dos acontecimentos que ocorreram em Peahi (Jaws) neste último swell e ressaltar a importância do trabalho em equipe, pois sem ela, o tow-in nunca poderia ser feito. No domingo retrasado, 16 de janeiro, João Maurício Jabour, Edison de Paula, Renato Phebo e eu partimos de Oahu para a ilha de Maui às 4 horas da manhã.
Ao chegar lá, alugamos uma camionete e fomos para o “cliff” ver a destemida mandíbula do tubarão em plena ação.
A previsão era a de que ela começasse a bombar no domingo, aumentando na segunda e diminuindo na terça.

As ondas estavam com 12? a 15?, vento ruim e direção errada. Naquela hora, o João disse ter visto uns jets indo para outra ilha do arquipélago durante a viagem de Oahu para Maui. Ainda no ?cliff?, encontramos um amigo havaiano que convidou o Edison e o João para pegar um avião pequeno e sobrevoar aquele pico.
Quando chegamos no aeroporto, o doido do havaiano pegou seu colete salva-vidas, tanque de oxigênio, pé-de-pato e entrou no avião.
Ele disse que sempre gosta de estar preparado para o que der e vier, pois caso o avião caísse e ele sobrevivesse, nadaria para a ilha mais próxima.

O Edison e o João estavam na adrenalina, pois o avião era velho e o vento estava muito forte. Sem muita hesitação a dupla brasileira pegou os mesmos equipamentos e entraram no avião. Quando eles chegaram à ilha, viram uma onda grande e perfeita quebrando, e três jet-skis pegando altas.
Quando voltaram, a gente comecou a contatar uns havaianos para planejar uma viagem de barco para o dia seguinte. Não demos muita sorte, pois não conseguimos alugar nenhum barco.
No dia seguinte, segunda, fomos checar Jaws e as ondas aumentaram, quebrando com séries de 20?a 25?, com um vento ?ladal? muitíssimo forte. A direção da ondulação estava de Oeste, o que também dificultou o surf, pois a direita fechava bem rápida. Porém, a esquerda estava muito melhor que a direita, e surfistas ?goofy? como Alfredo Villas-Boas, Formiga e Yuri Soledade fizeram a cabeça
Quando chegamos no harbor, já havia mais de 25 carros estacionados, o que significava mais de 25 jets no pico. Para complicar as coisas, o jet do João não pegava. Quando ligávamos o ski, ele fazia um barulho de pino seco batendo um no outro, o que era totalmente horrível e arriscado. Na hora, o Pato apareceu e sugeriu que colocássemos óleo no cilindro. Depois do João tentar por mais 30 minutos, ele conseguiu ressuscitar a máquina, para o delírio do time.
Nessa hora, a dupla Edison e João foi para o outside e pegou altas. Na maior série surfada do dia, Edison puxou João na primeira da série, que era uma esquerda gigante e mexida de 25?. Segundo o Edison, essa foi a onda mais difícil que ele pilotou em sua vida, pois o vento de 30 nós, os bumps de 1 metro de altura, água na cara, crowd e a onda gigante e tubular quase o fizeram cair do jet-ski.
Clique aqui para ver a galeria de fotos da session em Jaws
##

João disse que o drop foi cascudo. No dia 10 de janeiro de 2004, ele teve um wipe-out em Jaws numa onda de quase 30 pés e teve que ir direto para a sala de cirugia para operar os músculos do peito esquerdo e direito, os quais tinham descolado do ombro.
Mesmo assim, João dropou a morra e fez a onda inteira, o que impressionou a todos por sua volta e disposição.
Quando saiu da onda, Shane Dorian vinha na de trás e João passou a onda remando no limite. Depois, Edison fez o resgate.

Edison também tem estado na maior disposição. Depois de ser salva-vidas no North Shore de Oahu por 10 anos, ele abriu uma escola de surfe em Haleiwa (surfhawaii4u.com) e vem surfando todos os swells de Jaws há seis anos.
Naquele dia, ele pegou uma grande e deu uma rasgada na parte mais crítica da onda.
À tarde, o vento tinha piorado e era vez de eu surfar com Renato Phebo.
Ninguém queria ir, pois quando chegamos na harbor só havia um carro estacionado.

Como já estou morando na Califórnia há três anos e as oportunidades para surfar Jaws estavam muito escassas, consegui convencer a galera para ir ao pico.
Para nossa surpresa, o vento tinha dado uma acalmada quando chegamos e as ondas ainda estavam grandes e perfeitas, mas ainda com alguns bumps. Lá estava o famoso film-maker Larry Haynes fazendo imagens de 16mm para o seu novo filme. Havia também uma pequena lancha dropando as maiores ondas da série.
João puxou a mim e ao Renato Phebo na maior confiança e precisão. Eu peguei as maiores ondas da minha vida. Depois de morar por 10 anos no Hawaii, a única emoção que tenho na Califórnia é a de fazer snowboard, o qual já venho praticando há três anos. Quando soltei a corda naquelas avalanches de água, me senti como se estivesse fazendo snowboard. A velocidade era tanta e a onda era tão grande, que caso caísse, sabia que ficaria numa situação difícil.
Renato Phebo também pegou altas. Como era sua primeira vez surfando Jaws, a adrenalina era muito grande. Mas ele conseguiu dropar umas grandes com muito estilo e surfou no bowl de uma onda enorme.
No dia seguinte, terça-feira, as ondas tinham diminuído um pouco, com ondas de 12? a 15?, com séries maiores de quase 20?. Pegamos altas e fizemos a cabeça. No final da sessão, João colocou o hexa-campião mundial de bodyboard Guilherme Tâmega numas ondas bem grandes. Por estar com muitos bumps, ele voou mais de 1 metro de altura enquanto dropava as ondas, e balançou muito mas não caiu, mostrando seu grande talento.
Teve também outros shows de horror, como uma outra dupla perdendo o jet ski na área de impacto, e eu quebrando a quilha da minha prancha ao entrar em Jaws pelas pedras.
O trabalho em equipe é o aspecto mais importante do tow-in. Em primeiro lugar, o surfista precisa ter um amigo de rocha, pois a vida do surfista está na mão do parceiro.
A dupla também tem que estar preparada fisica e mentalmente, além de saber fazer o ressuscitamento pulmonar e outras técnicas de pilotagem e resgate.
Para finalizar, gostaria de agradecer e reconhecer o profissionalismo de João Maurício e Edison de Paula, que além de ser ótimos parceiros no tow-in, surfam muito bem aquela mandíbula afiada.
Aloha!