Na última edição dos jogos mundiais de surf, o ISA World Surfing Games, realizada em março, no Equador, o Brasil conquistou a segunda posição por equipes e confirmou sua condição de potência do esporte.

 

Através de um trabalho que sempre teve como objetivo conquistar o posto de principal país na hierarquia do esporte, os atletas se mostraram determinados a vencer. Porém, de acordo com os próprios, um dos principais obstáculos foi a dificuldade de se adaptar ao mar, que possuía uma forte correnteza e grande remada até o outside.

 

Desde as primeiras competições válidas pelas “olimpíadas do surf”, o Brasil sempre demonstrou um forte nível de competição. Os integrantes de outros países e a própria mídia começaram a nos respeitar a partir do momento em que começamos a nos aproximar dos EUA e Austrália, que sempre se alternavam na liderança.

 

Uma das pessoas mais influentes e importantes para a concretização de todo esse trabalho é o carioca Marcos Conde. Há 18 anos trabalhando com o esporte, iniciou a função de técnico do time brasileiro no segundo mundial sancionado pela ISA (International Surfing Association), realizado na Inglaterra em 1986, campeonato no qual foi formada a primeira equipe para um evento desse porte. Graças ao excelente desempenho dos surfistas brasileiros, a equipe conseguiu a quinta colocação.
 

Na década de 80, Conde foi um dos mentores de uma das maiores empresas brasileiras de surfwear, a Cristal Grafitti, além de ter sido um dos fundadores da ASBT (Associação de Surf da Barra da Tijuca) e da OSP (Organização dos Surfistas Profissionais), ambas do Rio de Janeiro. Também já atuou como executivo da ISA, além de ser um dos idealizadores da CBS (Confederação Brasileira de Surf), onde ocupa o cargo de diretor-executivo.
 
Segundo o próprio, o principal motivo para o crescimento das equipes foi o nível de responsabilidade das pessoas que fizeram e que fazem parte da comissão técnica, que sempre tiveram compromisso e orgulho estampados em cada atuação. Antes do evento na Inglaterra, Eraldo Gueiros e Pepê César participaram do mundial na Califórnia, em 1984. Mesmo sem nenhuma estrutura e planejamento, Eraldo ficou com a 21ª posição na categoria Open e Pepê César com a sexta posição na categoria Júnior.

 

Após esse confronto, o terceiro mundial foi disputado no ano de 1988, em Porto Rico, e o Brasil apresentou uma comissão na qual estavam presentes os melhores surfistas da época, e que segundo a opinião de alguns especialistas, foi o melhor time já formado para um mundial da categoria. A colocação final foi um excelente terceiro lugar, feito inédito até então.

 

O desempenho dos atletas foi formidável: Fábio Gouveia foi o campeão da categoria Open (a mais importante), com Rodrigo Resende em terceiro lugar. Fernando Graça (Júnior), Rico de Souza (Longboard) e Sérgio Peixe (Kneeboard) conquistaram o título de vice-campeões. Pela primeira vez estavam alcançando os resultados que almejavam por anos e o respeito da comunidade como o mais novo integrante das grandes nações do surf. O mundial de Porto Rico foi o “divisor de águas” para o desenvolvimento do esporte brasileiro.

 

Após o campeonato no Japão, em 1990, e França, em 1992, no qual o país ficou com a terceira posição, seria a nossa vez de sediar os jogos. A Cyclone, liderada por Roberto Valério, idealizou uma mega-competição e foi montada uma grande estrutura na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. A mídia convencional e especializada informou ao mundo inteiro que até aquele momento, o evento brasileiro havia sido considerado o melhor de todos os tempos – e subimos mais um degrau conquistando o vice-campeonato, atrás da Austrália.

 

Nas competições seguintes – Califórnia e Portugal (destacando nessa disputa o primeiro lugar na categoria Longboard de Picuruta Salazar) – já éramos considerados um dos fortes concorrentes ao título e novamente ficamos com o segundo lugar, mostrando uma evolução significativa.

 

Porém, foi no ano 2000, nas ondas de Maracaípe, em Pernambuco, que o sonho se realizou e nos tornaríamos pela primeira vez os campeões. Fábio Silva (Open), Marcelo Freitas (Longboard), Tita Tavares (Feminino), Guilherme Tâmega (Bodyboard masculino), Karla Costa (Bodyboard feminino) e Sérgio Peixe (Kneeboard) foram os campeões. A única categoria não vencida por um brasileiro foi a Júnior, que teve como campeão o havaiano Joel Centeio. No entanto, Marcondes Rocha ficou com o vice-campeonato e Bernardo Pigmeu com a terceira posição.

 

Na edição do ISA Games na África do Sul, em 2002, chegamos com o compromisso de defender o título. Porém, mesmo conquistando boas colocações, como os primeiros lugares de Neymara Carvalho e Marcelo Freitas, além de outros resultados expressivos, o time ficou com a terceira posição, com a Austrália em segundo e a África do Sul em primeiro lugar, sendo campeã pela primeira vez na história dos jogos.

 

Atualmente somos um dos pólos criadores de novos talentos. Nosso domínio e favoritismo são claros em qualquer competição relacionada aos jogos mundiais de surf e também pelo mundial Junior (World Junior Surfing Championships), também sancionado pela ISA – competição anual com surfistas de até 18 anos de idade, disputada pela primeira vez em 2003 na região de Durban, África do Sul, no qual o Brasil se tornou campeão.

 

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Conde ressalta que além da união dos integrantes da comissão técnica, os surfistas sempre se mostraram satisfeitos em participar dos mundiais quando solicitados, independente de sua importância ou categoria. “Desde o início, todos os surfistas sempre tiveram a preocupação de fazer parte do time para os jogos. Posso citar como exemplo o Flávio Padaratz, que integrou o último time que competiu no Equador. Ele é um grande nome do esporte e embora seja um dos principais responsáveis pela entrada dos surfistas na elite do circuito mundial e ter um nome consolidado, foi um dos mais esforçados, sempre dando conselhos a todos e passando uma grande carga de energia. Ele foi um técnico para a equipe e muito importante na questão da motivação, da liderança. Tive o prazer de ter um excelente auxiliar que inclusive me influenciou também. Desde o começo dos jogos mundiais de surf, percebia que os competidores tinham o prazer e a humildade de atender nossos chamados, sempre demonstrando o orgulho de representar o país. Claro que estavam preocupados em buscar a vitória individual, mas a principal atitude era a vitória de todo o time”, analisa Conde.

 

Em relação a esse campeonato nas ondas equatorianas,  Marcos Conde informou que todos tiveram méritos e que o grande problema que enfrentaram foi realmente a condição do mar. “Tivemos notas excelentes durante toda a competição, um dos fatos mais importantes foi a garra e perseverança do time em busca de melhores resultados. Nós fomos muito bem na categoria Longboard com o Marcelo Freitas, que atualmente é o competidor com a maior capacidade de mesclar o estilo clássico com o radical. Aliás, quero salientar sua atuação dizendo que além de ser um excelente surfista, consegue uma grande facilidade para manobrar em qualquer condição, ele se tornou um atleta ímpar. E o mais importante de tudo, ele tem o orgulho de competir pelo Brasil. Essa noção de representar o país, com o espírito de equipe aliado ao seu surf, torna o Marcelo um atleta imbatível em qualquer circunstância. Fomos muito bem com a Andréa Lopes, que mostrou uma grande capacidade competitiva e de profissionalismo, com manobras fortes e um belo estilo. Também na questão técnica dos bodyboarders, a Neymara Carvalho teve um desempenho excelente. Como já temos a tradição de sempre chegar às finais, talvez o Bodyboard masculino tenha sido a categoria que poderia ter uma melhor posição”, finaliza.

 

Como em toda competição, os detalhes podem influenciar e determinar o resultado final. O líder da seleção brasileira comenta que o pior momento enfrentado foi a partir da queda de alguns atletas, como exemplo o Marcelo, que foi para a repescagem, a perda prematura dos surfistas na Open, culminando com a derrota da Marina Werneck na categoria Feminino, ocasionando a queda da equipe. Após o esforço dos competidores, alguns melhoraram suas posições e os resultados começaram a aparecer. “Tenho que parabenizar a todos, foi um trabalho de reação e concentração excelente de todo o grupo, todos se esforçaram ao máximo já que tiveram que chegar nas baterias seguintes para somar pontos suficientes com o objetivo de melhorar a posição final do time”, conclui.

 

Alguns atletas comentaram que existia um equilíbrio entre o Brasil, Austrália e África do Sul e principalmente o Peru, que obteve a quarta colocação, a melhor de toda sua história nos jogos. “Ficamos em segundo lugar novamente e pudemos observar uma melhora dos outros times, atualmente a nossa distância já não é tão grande. Essa circunstância foi notada na categoria Open. O mais importante é a nossa permanência no topo, e é normal que em toda disputa com adversários fortes aconteça uma alternância de resultados”, ressalta Conde.

 

A próxima competição será válida pelo mundial Junior e acontecerá entre os dias 5 e 12 de dezembro em Papenoo, Tahiti, e um dos grandes desafios para essa disputa será um treinamento mais específico para fortalecer a participação das surfistas brasileiras. O depoimento de Conde é contundente ao dizer que a Austrália possui fortes adversárias e se não for feito um trabalho nesse sentido, será difícil vencê-las.

 

“Temos que lembrar também que as regras do mundial Junior foram modificadas e que a partir da competição seguinte os pontos serão corridos, fazendo com que todo atleta tenha uma boa performance para somar pontos suficientes e não prejudicar toda a equipe”.

 

Uma das grandes novidades é o projeto que está sendo encaminhado para o Ministério dos Esportes para que o time  possa receber benefícios do governo. “É um grande passo que estamos dando rumo a um apoio permanente em prol do surf brasileiro. Esse ‘produto’ tem que ser trabalhado, isso é o que desenvolverá o esporte e irá fazer com que tenhamos um circuito atrativo, atletas mais competitivos, bons patrocinadores, é fundamental que esteja presente na mentalidade de cada integrante”, avalia.

 

Todos sabem da importância que o fortalecimento e o significado de resultados positivos podem acarretar para o surf brasileiro. Somos unidos por natureza, essa é uma das vantagens que temos. Com o grupo focado nesse sentido, tudo se torna mais fácil para chegar ao sucesso, e essa tem sido a tônica da seleção brasileira desde o começo.

 

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