Mãe surfista

Thiara é exemplo no dia da mulher

Thiara Mandelli durante um five no litoral do Paraná. Foto: Arquivo Pessoal.

Em homenagem ao dia internacional da mulher, Waves publica uma entrevista com uma surfista muito especial, a longboarder paranaense Thiara Mandelli, grávida de oito meses de Luara. Nessa entrevista, Thiara fala de sua carreira, da expectativa de ser mãe e da volta ao surf assim que a baby permitir, é claro.

 

Está grávida de quantos meses?

Estou começando o oitavo mês, na 33º semana.

 

Quais foram suas principais conquistas no longboard profissional?
Comecei a correr o profissional em 2006, com incentivo de uma grande competidora e amiga – Sabrina Olas. No primeiro ano no circuito não consegui fazer nenhuma final. O melhor resultado foi um quinto lugar no PLC de Santos e acabei na nona colocação no ranking do circuito. Mas já estava felizona.

Em 2007 acredito ter superado minhas expectativas. Subi seis posições no ranking e acabei na quarta colocação geral no circuito. Confesso que foi até inesperado, talvez por isso tão comemorado. 

Os melhores resultados foram um 5º Lugar na primeira etapa do PLC, onde pela primeira vez nós mulheres tivemos o direito de competir em formato mulher-a-mulher. E nos dois últimos campeonatos que corri consegui um 3º lugar na segunda etapa do circuito Petrobras feminino, em Ubatuba, e 4º lugar na última etapa do Arpoador. Em ambas eu estava grávida. Mas na de são Paulo eu ainda não sabia. Na do Rio já estava de três meses, fui apenas com a intenção de pontuar, pois sabia que já não tinha o mesmo gás e que agora precisava ter mais cuidado, afinal minha pequena Luara estava crescendo dentro de mim, mas por Deus consegui chegar à final.

 

Já a ultima etapa do circuito, o PLC na praia da Macumba, não pude competir. Já estava de quatro meses e não surfava mais. Ter finalizado o ano em 4º lugar no ranking para mim teve sabor de vitória, afinal foi um ano muito disputado, com várias meninas experientes competindo e grandes surpresas no caminho, como minha gravidez e as perdas do meu pai e do meu avô. Enfim, entre as turbulências de 2007 conseguir um bom resultado, assim foi essencial para poder trilhar 2008.

 

Quais são seus picos e manobras preferidas?
Com certeza meu pico preferido é onde surfo todos os dias, pico de Matinhos, não apenas por ser aonde treino, e sim por ter qualidade para o surf de longboard, uma onda extensa que proporciona várias manobras, com varias seções. O único problema é que nem sempre tem ondas grandes e isso faz falta em meu treinamento. Mas sou apaixonada pela onda de lá. Posso até parecer egoísta, mas já surfei em vários picos, e com certeza nunca peguei um mar tão perfeito como no pico quando quebra.

Sobre manobras, acredito ter um estilo misto, apesar de gostar mais do estilo radical. Procuro fazer e aprender todas as manobras possíveis, mas entre minhas preferidas estão o switch stance, rasgada, hang-five, hang-ten. Por isso admiro muito o surf radical do Mulinha e o clássico do Roger Barros e dos competidores de fora como Collin McPhilips.

No ano passado você afirmou que o pódio no Longboard Classic estava muito disputado e que o nível das competidoras era altíssimo. E pra este ano, o que você espera?
2007 foi um ano bem disputado, várias meninas novas correndo, mas nem por isso inexperientes, mostraram que têm surf no pé e garra para se jogar em qualquer mar. Fiquei surpresa com a evolução de todas as meninas, sem exceção, cada uma com o seu estilo impondo seu ritmo, e desta maneira fazendo com que a modalidade fique a cada dia mais forte e competitiva. 

 

O que me surpreendeu foi o número de meninas a cada etapa, sempre a cima de 20. Isso com certeza é reflexo de atitudes e incentivos de competidoras antigas como Cris Pires, Karina Abras, Sabrina Olas, Angela Bauer, Mainá Tompson e Luiza Tavarez, entre outras. Meninas que durante anos conduziram a modalidade, e com certeza para nós que estamos chegando aos poucos são ícones de surf, assim como as gringas que surfam muito. Chegar ao patamar delas e com a sua experiência com certeza é objetivo para muitas meninas da nova geração. Para este ano a tendência é a de que a competitividade esteja maior, e que o nível de surf também. Fico feliz com isso, afinal são estes dois pontos que fazem a modalidade ficar cada dia mais forte.

Como tem sido a sua rotina de treinos para os campeonatos de 2008? Você acha que a gravidez atrapalhou um pouco nesse sentido?
(Risos) Por enquanto… imaginário… Estou sem surfar desde o final de agosto, mas sempre estou perto do surf. Eu e o meu marido ajudamos e treinamos três atletas aqui em Matinhos, João Marcos (14), Cezar Teixeira (16) e Raiana (10). Com isso estamos sempre em competições com eles, e desta maneira diretamente ligados ao esporte.

Fora da água também é um bom treinamento e acredito estar percebendo coisas que antes não via; e aprendendo que para ser uma grande campeã é preciso ser também uma grande observadora. Por isso estou sempre de olho nas competições, de long ou de pranchinha, analisando as técnicas dos atletas, seus posicionamentos e consequentemente os resultados. Outra coisa que tenho feito muito também é assistir filmes.
 

Continuo fazendo caminhadas e quase todos os dias vou nadar enquanto meu marido surfa. Tudo isso está me ajudando a agüentar a barra de ficar sem surfar e não me deixa tão distante dos treinos.
 

A vontade de surfar é tão grande que sonho quase todas as noites que estou surfando. Está sendo muito difícil para mim, por várias vezes fico na sacada do prédio vendo o pico quebrar e chorando com um aperto no coração, mas basta minha princesa mexer na barriga para todo o vazio ser preenchido. Estou aprendendo muito com toda esta experiência, e, com certeza, ela vai me dar forças para voltar a competir e alcançar bons resultados.

Quais são suas expectativas com o surf depois da maternidade?
A partir de 9 de abril a Luara pode chegar a qualquer momento. Estou me preparando para fazer o parto normal, para poder voltar a surfar o mais rápido possível.
 

Com as mudanças que a nossa modalidade sofreu este ano, com a valorização da premiação mais a diminuição de etapas, ainda não saiu um cronograma certo, por isso não sei se conseguirei competir o circuito inteiro. Mas caso as datas sejam mantidas, vou poder correr todas as etapas.

 

De qualquer forma, sei que vai ser muito difícil com minha filha precisando de meus cuidados, mas graças a Deus vou ter uma equipe para me ajudar, um marido atencioso e avós corujas para me ajudarem.

O que vai pegar mesmo vai ser voltar acima do peso e fora do pique. Mas sempre fui bem decidida e sempre lutei pelo que quis. Vou dar um duro danado, e a vontade de surfar que estou tendo agora vai se transformar em força para depois da maternidade. Sem contar que não vejo a hora de um dia subir no pódio de um brasileiro novamente com a minha menina no colo.

 

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Thiara já está na reta final da gravidez. Foto: Divulgação Classic Longboard.

O que você acha da situação do longboard feminino?
Sou sincera ao dizer que ainda temos muito que evoluir em questão de manobras. As meninas de fora mostram muita tranqüilidade quando estão executando, e isso faz a diferença. Mas a nossa evolução tambem é questão de tempo, como disse acima. Isso é evidente a cada dia, a cada novo campeonato, ainda mais com novas meninas. Isso acaba ajudando, afinal uma se espelha na outra e puxa o ritmo.
 

Outro ponto diferencial é que aqui ainda não temos uma boa premiação. Em relação ao long masculino já existe uma diferença enorme, imagine em relação à pranchinha. Na verdade, a modalidade no Brasil precisa ser mais valorizada. Damos duro igual aos surfistas de pranchinhas, rodamos o Brasil da mesma forma, deveríamos ser mais valorizados. Fico com os olhos brilhando quando vejo pela net os campeonatos de long fora do Brasil, com uma grande estrutura, boa premiação, bons formatos. Um dia chego lá.
 

Como você enxerga a mulher dentro do mundo do surf? Pra você ainda existe algum tipo de preconceito?
Preconceito sempre rola um pouco, mas acredito que na maioria das vezes vem de pessoas desconhecidas. Na água, normalmente vem de garotos que por sinal não surfam bem, ou que realmente são machistas. Mas no geral fico feliz, porque não se vê muito disso não. Aos poucos estamos conquistando nosso espaço e isso é importante. Já passei por algumas situações de preconceito, mas foram raríssimas. Surfo há quatro anos e o que percebi é que o preconceito vem sendo menor a cada dia.

Quais são seus planos pra 2008?
Surfar, surfar e surfar… (risos). Não vejo a hora de voltar ao mar, me faz muita falta, é muito difícil. Tenho que ser realista, estou há cinco meses sem surfar e ainda vou ficar mais uns dois meses e meio. Para uma competidora isso é muito tempo, mas tenho garra e vou voltar focada.

 

2007 foi um ano maravilhoso em questão de resultados para mim, por isso vou entrar em 2008 amarradona e torcendo para que seja o que Deus quiser. Não sei  se vou poder correr todas as etapas ainda, mas na verdade vou usar este ano para treino para a chegada de 2009. Daí sim, espero entrar com tudo.

 

Como ficou a questão dos patrocinadores?
Graças a Deus meus patrocinadores, além de acreditarem muito em mim, sempre foram parceiros.  Eles entenderam que mesmo não estando competindo eu estaria representando a marca, fiquei muito feliz. Se eu tivesse perdido os patrocínios tudo seria mais difícil, teria ficado muito chateada. Na verdade, desta maneira eles me fortaleceram, continuam comigo e isso me dá mais força ainda. E por eles vou voltar com tudo, determinada para alcançar bons resultados para voltar a darr retorno. Agradeço a todos: Anjuss Surf Wear, Prefeitura de Curitiba, H2O Cosméticos, Barth Shoes, Classic Longboard, CT Equipamentos e Outside Representações com o Projeto Parafina.

 

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