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Tesouros chilenos

Billabong Pro Junior Series contou com ondas incríveis em Punta de Lobos. Foto: Divulgação Billabong.

No início do mês, aconteceu o Billabong Pro Junior nas ondas geladas do Sul do Chile. Pedro Henrique e Pablo Paulino, que hoje carregam três títulos mundiais, estavam lá como convidados e não esconderam a surpresa ao constatar que as ondas chilenas lembravam a Indonésia, não fosse a temperatura da água.

 

A minha história com o Chile começou há 14 anos, e posso garantir, ao folhear meu passaporte, que é disparado o país pra onde mais viajei. Estive por lá ao menos umas dez vezes, quase sempre no litoral Norte, entre Iquique e Arica.

 

Uma viagem inesquecível que fiz pelo litoral Sul começou de forma bizarra e acabou se transformando na surf trip em que o surf, o lugar em que acampamos e o astral me deram a impressão de ter sido a melhor barca da minha vida.

 

Peterson Crisanto encanta público chileno. Foto: Divulgação Billabong.

Agora, 14 anos depois, retornei aos mesmos lugares. O primeiro é Pichilemu, onde três ondas incríveis podem ser surfadas, com destaque para Punta de Lobos, point break de incríveis esquerdas que quebram de 4 a 18 pés (ou mais), lugar onde o big rider chileno Diego Medina conquistou o título da maior onda surfada na remada.

 

Naquele ano de 1994, ninguém menos do que Capilé andava me ligando todos os dias, perguntando se eu queria fazer uma surf trip, cheio de conversa pra me convencer.

 

Foi tanta insistência que eu disse ?quando você tiver os tickets e grana da viagem, me liga!?. Foi assim que consegui alguns meses de tranqüilidade.

 

Certo dia, porém, Capilé liga dizendo ?Flavão, tá tudo em cima, vamos amanhã!?. Cacete, quem mandou prometer! Agora não tinha jeito, tinha que ir.

 

Capilé é um grande amigo, mas naquela época eu ainda duvidava da sua sanidade mental (ainda duvido). Embarcados, Capilé me olhava e ria dentro do avião. Somente quando chegamos, ele me falou a verdade. ?Flavão, o negócio é o seguinte… to com 200 dólares, a gente vai ter que andar de ônibus pela costa.

 

???????????????????????? ?Como é que é, mermão, cê tá maluco? Só pra sair do aeroporto, são 50 dólares até Santiago!!!!!!!!!!

 

Meu primeiro pensamento foi voltar no mesmo avião, mas lembrei de alguns amigos chilenos e então resolvi expor a eles, pelo telefone, o meu problema.

 

Pra encurtar a história, fomos socorridos pelo Álvaro Solari, que nos levou pra dormir na mansão do seu pai, que havia falecido há um mês.

 

Dia seguinte, ele já havia intimado dois surfistas chilenos com uma caminhonete 4×4 para percorrer a costa sul, e tudo o que fizemos foi gastar os 200 dólares em comida em um supermercado de Santiago.

 

Antes de sair, ele ainda nos emprestou dois sacos de dormir e uma barraca. Parecia, e era, o fim do pesadelo e o começo de um sonho de muitas ondas…

 

Os dois chilenos – não lembro mais seus nomes – disseram que nos apresentariam uma onda perfeita, secreta, dentro de uma propriedade particular.

 

Clique aqui para ver o vídeo produzido por Flávio Vidigal no Chile durante o Billabong Pro Junior para a ESPN-Brasil 

 

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Diego Medina desafia o power de Punta de Lobos. Foto: Phillip Muller / Billabong XXL.

Foi então que, depois de duas horas de viagem, algumas porteiras e pedidos de autorização, chegamos a uma montanha alta onde se via uma praia distante. Mas, para a nossa decepção, ela estava completamente sem ondas.

 

Descemos e constatamos algumas barracas e pequenas fogueiras no canto da praia. Já escurecia e só yivemos tempo de fazer um lanche e, como não havia nada de luz, o jeito foi abrir o saco de dormir na praia e deitar olhando as estrelas.

 

Não sei que horas dormi, mas acordei com um barulho muito forte e, mesmo no escuro do alvorecer, pude ver as linhas brancas que entravam com bastante intensidade.

 

Surf total. Com alguns chilenos principiantes, Capilé foi o rei do dia, surfando altas ondas. Logo à tarde, partimos para Punta de Lobos com uma visível tempestade chegando.

Pablo Paulino, bicampeão mundial sub-21, em ação no litoral chileno. Foto: Divulgação Billabong.

Desta vez, montamos barraca no quintal da casa do meu amigo Jean Robert, um francês que era o dono de toda a ponta e vivia entre o Valle Nevado no inverno e Pichilemu no verão.

 

Foram 10 dias de dois swells seguidos com formação diferente, tendo dias grandes com uma onda cheia e volumosa e outros com tubos incríveis na ultima seção da onda.

 

Chegaram mais dois surfistas de Santa Catarina, o Saulo Lira e um gurizão gente finíssima que agora não me recordo o nome.

 

Uma barraca, fogueira, céu estrelado, frio pra cacete, mas altas ondas rolando todos os dias. Aquilo é uma máquina de ondas.

 

Agora, em 2008, não acreditei ao chegar naquele mesmo lugar. Algumas pousadas e uma certa infra-estrutura deram lugar a uma etapa do Billabong Pro Junior.

 

Jornalistas do Brasil, Peru, Chile e Venezuela, acompanhados de fotógrafos e alguns dos mais promissores surfistas do hemisfério Sul.

 

Zé Paulo, outro grande amigo, ex-surfista profissional e atual team manager da Billabong, me chamou para ir àquele primeiro pico que se situa numa fazenda e que os locais me pediram que não divulgasse, pois, apesar de muitos brasileiros já conhecerem, ainda é um lugar preservado, onde o surf parece estar florescendo como na década de 70 aqui no Brasil.

 

O surfista local conhecido como ?Conejo? nos guiou e foi fundamental para que fôssemos bem recebidos.

Então, todas as lembranças daquela trip de 94 vieram, só que na versão moderna com este incrível surfista chileno, tube rider de primeira, e os dois campeões mundiais pro junior Pedro Henrique e Pablo Paulino.

 

Eles conheceram as ondas incríveis desse lugar, a água trincando e a corrente animal que colocou à prova toda a resistência deles. Foram dois dias em que escapamos da competição e fizemos mais um capítulo das nossas histórias de surfistas.

 

De volta a Pichilemu, pudemos ver o show de surfistas como Alex Ribeiro, Petersinho e Ricardinho nas ondas de Punta de Lobos.

 

Alguns chilenos estavam aborrecidos com todo aquele tititi na área, mas eu sei que esse intercâmbio vai ser saudável para o surf desse país, que é lindo, tem altas ondas e pessoas muito educadas.

 

Muita gente que vai ler esta matéria sabe o nome desse lugar, mas o importante é que, se você um dia for lá, chegue de alto astral, respeitando a fila do point break e confira por que perdi tanto tempo na frente do teclado falando deste lugar.

 

Clique aqui para ver o vídeo produzido por Flávio Vidigal no Chile durante o Billabong Pro Junior para a ESPN-Brasil 

 

 

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