Território da água-viva

Em mais uma aventura por lugares inusitados no mapa mundi do surf, o explorador francês Antony ?Yep? Colas apresenta um novo destino para os fissurados em pegar ondas virgens e sem crowd, onde a cultura do esporte ainda não deixou suas marcas.

 

Dessa vez, Yep desvendou as praias da Tunísia, país localizado ao Norte da África, onde faz fronteira com a Argélia e a Líbia, na parte Sudoeste do Mediterrâneo ? oceano que ocupa a maior área fechada de água salgada do mundo, com 2,5 milhões de quilômetros quadrados.

 

De acordo com Colas, a primeira aparição do surf no Leste europeu aconteceu no começo dos anos 60 em Israel, graças a norte-

americanos expatriados que viviam no litoral de Tel Aviv e começaram a pegar ondas consistentes em frente ao hotel Hilton.

 

Depois, nos anos 70 começaram a aparecer bons surfistas na costa do Mediterrâneo em países como França e Itália. Ilhas como a Córsega francesa e a Sicília e Sardenha na Itália se tornaram o foco do surf europeu.

 

Atualmente, a Sardenha é considerada uma espécie de Hawaii do Mediterrâneo, com mais de 80 picos onde quebram ondas de até 8 a 10 pés em ondulações ocasionais que atingem a região de Cappo Manu e praias do centro-oeste.

 

Lentamente a Grécia também vem conquistando terreno e já conta com alguns picos consistentes como Epirus e Kastro, além de grupos de surfistas gregos se aventurando em picos como as ilhas Mentawai, entre outros.

 

Yep destaca que o conturbado Oriente Médio também produz bons surfistas e boas ondas já foram surfadas e fotografadas no Líbano, Síria e em Alexandria, no Egito.

 

?Enquanto a maioria dos turistas europeus viaja para o Sul da ilha de Djerba ou lotam os hotéis de Hammamet, minha idéia era conferir a costa Norte da Tunísia. Embora rolem apenas 120 dias de ventos Mistral (o terral na região), decidi esperar pelas melhores condições para voar pra lá?, conta o francês.

 

Depois de esperar por algumas semanas, ele finalmente ligou para três amigos avisando que partiriam nas próximas 24 horas. Nas palavras de Yep, um experiente viajante, ?sair em uma trip relâmpago significa pouca organização, mas a recompensa é alta se as previsões se concretizam?.

 

Em seis dias, o grupo desfrutou de cinco dias de ondas boas a excelentes. ?Não vi sequer uma alma nos picos e ainda descobri uma esquerda de tirar o fôlego, que segundo Samir, um pescador local, nunca tinha sido surfada até então?, revela Colas, que batizou o pico com o nome de Cap Mérou.

 

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As tempestades que levam ventos e ondas também trazem o frio. Em janeiro o Norte da África chega a ser tão frio quanto o Sul da Europa. Não chega a nevar, mas a temperatura raramente passa dos 15 graus e as chuvas não são raras.

 

?Nosso pico principal acabou sendo uma longa esquerda que rolava numa baía protegida dos fortes ventos. No outside quebravam ondas maiores que 6 pés, porém mexidas pelo vento. Mas o inside, mais protegido, tinha ondas de até 4 pés com paredes que se estendiam por até 100 metros e com muita consistência, típicas de um swell de vento. No entanto, esses swells não duram mais do que 36 horas?, explica.

 

Localizada numa ?esquina?, a Tunísia recebe basicamente três diferentes massas d?água. Enquanto a bacia Oeste do Mediterrâneo é o maior provedor de swells, cortesia do Mistral, o ?Tyrrhenean Sea?, em direção à Itália, permite que ventos do quadrante Norte alcancem até 600 km de distância.

 

A terceira massa d?água é o Ionian Sea, que ocasionalmente recebe ventos do quadrante Sudeste que podem percorrer até 800 km em direção à costa da Líbia. Depois de dois curtos swells de Noroeste, o grupo teve a oportunidade de surfar dois dias um swell de Norte e ondas com de 10-12 pés no oceano.

 

?Depois de dirigirmos bastante, avistamos duas direitas em uma pequena baía embaixo de um grande penhasco. O vento estava maral, mas quando a chuva parou o mar ficou perfeito. Remar entre os pequenos barcos de pesca direto para a bancada coberta por algas, onde linhas longas e perfeitas quebravam, nos fez sentir como se surfássemos em algum pico especial. De fato tinha algo especial ali: milhares de água-vivas congestionando o line-up?, diz Yep.

 

Enquanto dois surfistas saíram imediatamente da água, um dos dois surfistas que acompanhavam Yep, Erwan, permaneceu por mais três horas surfando sozinho e aproveitando as boas ondas, sem pensar na estranha sensação de ser queimado enquanto remava de volta ao outside.
 
?Depois de fotografar a sessão por um tempo, decidir cair na água, ciente de que águas-vivas, às vezes, podem ser parte do jogo. Pegamos boas ondas antes de escurecer. O dia seguinte ainda foi surfável, mas o vento maral nos motivou a ir atrás de outro pico. Levou dois dias para Erwan perceber as conseqüências de suas queimaduras: mãos vermelhas, inchadas e cobertas por bolhas. Nada que não faça parte de uma boa expedição?, completa.

 

Segundo ele, as pequenas medusas roxas pertencem à espécie ?Pelagica Noctiluca?, freqüentes nos invernos da costa da Tunísia. De acordo com pesquisas, esta espécie se torna muito numerosa a cada onze anos ? e quele parece ter sido o inverno escolhido.

 

O agradável point-break acabou batizado de Cap Méduse e, de acordo com um observador local, foi surfado apenas algumas vezes por franceses e italianos. Com isso, ficou claro que a Tunísia ainda abriga muitos picos virgens, esperando para serem desbravados.

 

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