
O jornalista Romero Jucá realizou esta entrevista com o cearense Francisco José da Silva, mais conhecido como “Bichinho”, em que ele conta sua luta para superar dificuldades e viver bem na sua condição de deficiente físico.
Quando despontava no cenário das competições no Ceará, Bichinho sofreu um acidente que o deixou tetraplégico em 2000, acabando com seu sonho de se tornar surfista profissional.
De acordo com Antônio José, terapeuta ocupacional que idealizou o método de reabilitação em piscina com manobras de surf, Bichinho praticamente não se movimentava quando iniciou o tratamento.
Após dois anos e oito meses de terapia, Bichinho já consegue realizar alguns movimentos, como manter-se sentado sozinho e saiu do quadro de depressão em que se encontrava no início do tratamento.
“Procuramos fazer exercícios na piscina, conciliando-os com manobras do surf como cut backs, para estimulá-lo. Além disso, fazemos um trabalho para que ele supere as dificuldades que a vida lhe impôs e consiga viver bem dentro de suas limitações”, explica José.
Confira abaixo a entrevista com Bichinho.

Como foi o seu início no surf?
Iniciei no surf por volta de 1979, por intermédio de meus amigos e bons surfistas Grilo, Antônio Ivan e Kiko. Desde o início percebi o quanto esse esporte é fantástico, pois só de ficar em pé na espuma e descer reto já trazia muita motivação para ir além, em busca de uma onda maior e melhor. Daí fui evoluindo até realizar manobras mais ousadas e harmoniosas. Surfar é muito bom ! O surf faz parte da minha vida!
Fale sobre sua participação nos campeonatos?
Sempre estava nos pódios e procurava não dar mole para ninguém. O evento que mais me destaquei foi o Maresia Beach Park, em que fui a revelação conquistando a quinta colocação. Foi onde consegui também meu primeiro patrocinador, a Greenish.
Como aconteceu o acidente?
Foi no dia 5 de dezembro de 2000. Fui para uma festa de aniversário realizada num barco com destino à praia Mansa. A maré estava cheia e após muitos mergulhos, comida e bebida, subi na proa e acabei dormindo. Quando acordei resolvi dar outro mergulho e saltei… Só que a maré já estava seca e fraturei a C4 (quarta vértebra cervical). Recebi o diagnóstico do médico como tetraplégico. Isso aconteceu quando tinha 29 anos, e estava cheio de planos e com um bom futuro como atleta.

Como está a sua recuperação?
Há dois anos e oito meses comecei este trabalho de reabilitação. Os profissionais que trabalham comigo surpreendem-se com minha evolução e ficam motivados, pois percebem minha dedicação e empenho na realização das atividades. Percebem e valorizam minha evolução nos mínimos movimentos que realizo.
Sei que este tipo de lesão é muito séria, mas venho superando muitas dificuldades, conseguindo realizar movimentos que para meu nível de lesão são considerados impossíveis de serem feitos.
Preciso agradecer a Deus em primeiro lugar, depois ao empenho da minha família, profissionais da rede Sarah, ABCR, Terapia na Água, e em particular ao meu amigo, terapeuta e surfista Antônio José, que me acompanha desde que sofri a lesão e é, sem dúvida, uma das pessoas que mais me incentivam na minha reabilitação física, mental e profissional.
O que mudou na sua vida após o acidente?
Aprendi a valorizar mais as pequenas coisas e isso me deu outro significado para viver. O acidente também me fez perceber quem são meus verdadeiros amigos, muitos deles que eu nem sabia que teria hoje. Agora, sei o real valor de uma amizade. E o meu maior amigo é Deus, que me deu a oportunidade de estar aqui contando a minha história.

E o trabalho?
Sou aposentado pelo SUS, mas o meu maior sustento vem da Bichinho Surf Shop.
Atualmente, estou treinando para realizar palestras de medicina preventiva em escolas, universidades e órgãos públicos com o Antonio José. Nosso objetivo é despertar nas pessoas o interesse para melhor qualidade de vida, conscientizando-as sobre os fatores de risco que levam à doenças e acidentes, como o que eu sofri e que poderia ter sido evitado. Pretendemos também discutir a importância de se ter uma sociedade mais justa, onde o deficiente possa desempenhar melhor o seu papel de cidadão sem barreiras arquitetônicas, de relacionamento e outras discriminações.
Como é seu dia-a-dia ?
Logo que acordo procuro falar com Deus e, depois da higiene, tomo café para ir ao trabalho. Na verdade é a rotina de uma pessoa “normal”, só que para realizar essas atividades necessito de auxílio. Algumas, já consigo realizar sozinho.
Hoje, o mais importante é procurar manter a mente quieta e o coração tranqüilo. Vou

ao trabalho onde penso em tudo, desde o posicionamento das mercadorias, até em como tratar melhor meus funcionários para que possam atender melhor os clientes. Meu trabalho também é terapia. Em dias alternados, realizo tratamento na Terapia na Água, ABCR e rede Sarah.
O que o surf significa para você?
O surf faz parte da minha vida. Hoje, posso não ficar de pé nem me locomover, mas sei qual é a sensação de pegar um tubo ou dar um aerial etc. Isso me alimenta e faz com que eu tenha força para superar as dificuldades, cada vez mais.
Atualmente, desenvolvo o surf mental. Despertei para isso lendo o livro do Taiu (Octaviano Bueno), que também ficou tetraplégico. Fico na areia e me visualizo pegando a melhor onda, o melhor tubo e realizando a melhor manobra. Eu amo o surf!!
O que você espera do futuro?
Quero voltar aos estudos, concluir o segundo grau e fazer faculdade de Administração. Também quero ter uma equipe de surf para que eu possa expôr minha

experiência, divulgar minha loja e fazer palestras preventivas. Espero também que a ciência evolua em suas pesquisas e descubra um medicamento que possa devolver meus movimentos e, quem sabe um dia, eu volte a surfar como antes !
Um toque para finalizar:
Gostaria de deixar um recado para a nova geração: Procurem ser os melhores surfistas. Dentro do mar e fora d’água. O respeito deve existir, tanto pelos outros esportistas, como com as pessoas de um modo geral. E acima de tudo não esqueçam do respeito à Natureza, lembrando que as melhores ondas são frutos dela.
Para obter mais informações sobre o Bichinho e a terapia, entre em contato com Antônio José pelos telefones (0xx85) 265 3705 ou 9122 1350.