
Os surfistas brasileiros têm reclamado muito do julgamento no circuito mundial, na maioria das vezes com razão. Só que eles não podem esquecer que o julgamento no surfe é além de difícil, subjetivo e carregado de referências, conceitos e modismos que, querendo ou não, estão na cabeça dos juízes muito antes de a bateria começar.
Reclamar na praia nunca alterou um resultado. O que resolve é trabalhar a imagem do surfista e tentar reduzir os erros de avaliação usando replay.
O julgamento de esportes como o surfe é complicado, as apresentações não obedecem a uma lógica e tampouco as ondas do mar. Tudo é muito subjetivo e passível de diversas interpretações. A distração e a tarefa quase impossível de analisar dois surfistas se apresentando simultaneamente pode ter um fim com a ajuda da tecnologia de vídeo e replay, atrasando um pouco mais a divulgação das notas.
Com isso o julgamento ficaria mais justo e preciso. Como a estrutura do WCT permite, deveriam ter câmeras para cada surfista, com uma mesa de edição que os head judge e os juizes pudessem ter acesso.
Com a transmissão do circuito mundial ao vivo pela Internet estamos podendo confirmar que para nossos surfistas é muito mais difícil conseguir notas altas, não que isso justifique a campanha de um ou de outro, mas é como se os brasileiros tivessem sempre que não deixar nenhuma margem de dúvida para que os juizes se sentissem seguros de soltar as notas.
Com o replay, os juizes teriam mais tempo para decidir e realmente acertar na pontuação, tirando menos margem de erro das notas e das justificativas.
Na etapa do WCT em Hossegor, nosso moleque Raoni Monteiro quase perdeu para o Taylor Knox na segunda fase por supervalorizarem as notas do americano. Depois, na bateria em que perdeu para o Andy Irons, ele teve uma nota baixa no final, que deu margem para o havaiano virar com um 7 numa onda em que ele surfou formalmente.
Quando alguém julga um surfista famoso contra um desconhecido e acontece uma situação de dúvida é mais confortável dar a nota para o favorito.
Como técnico, já tive muitos problemas com julgamento. São muitas histórias, títulos perdidos, discussões e nunca vi um resultado voltar. Hoje em dia, tento não reclamar na praia, ou melhor, tento colocar o head em situação incômoda, pedindo que confirme os critérios para que eu possa cobrar coerência.
Reclamo na mídia e penso e sugiro maneiras de reduzir os erros. Ser campeão de surfe não credencia nenhum juiz, e não sou daqueles que acha que o problema do julgamento está na falta de renovação do quadro de árbitros, até por que para ser um bom juiz é importante ter conhecimento e experiência.
Porém, mais importante é ter poder de análise e independência. Para mim, o problema está na falta de revezamento de punição para os mais desatentos e falta de atualização, além de alguns vícios.
Outro problema está na falta de educação das regras e dos critérios de julgamento. Em eventos juniores e mirins não há palestras técnicas, os garotos cometem interferência e ninguém explica a razão. A falta de sensibilidade também atrapalha.
Outro dia no Arpoador perfeito, só esquerda, vem o locutor e anuncia o critério de interferência adotado em beach break com múltiplos picos.
Aí, eu não agüentei e fui reclamar. Imagine… nunca tem condições de point break, e quando tem eles não usam. O pior é que o critério usado em mar com múltiplos picos é a maior bagunça, com neguinho se rabeando e fazendo de tudo para ganhar a onda. O mais burro neste critério é que ele diz que quem levanta primeiro tem a posse, mesmo indo para uma direção com menos potencial, só para não deixar o outro entrar. Quer dizer, isso é a oficialização do anti-jogo.
Temos que trabalhar junto às marcas internacionais para que surfistas brasileiros sejam patrocinados em igualdade de condições, para que sejam expostos pela mídia internacional, que fiquem conhecidos e virem ídolos mundiais e não só no Brasil.
Falo isso por saber que reclamar na praia nunca adiantou. A única coisa que adianta é não deixar a margem de dúvida. Para piorar, os gringos já têm toda mídia, os patrocinadores, e desde há muito tempo intimidam os juízes quando perdem para a gente, como se perder para nós fosse impossível, vide Sunny Garcia, Martin Potter, entre outros.
O Brasil tem um juiz no quadro, só que como é um dos cargos mais cobiçados da classe, a gente nunca sabe se eles vão simplesmente julgar, se vão defender os interesse da pátria ou se vão querer manter o emprego. O ideal é que houvesse um revezamento, de dois em dois anos um juiz novo.
O primeiro ano seria para o juiz pegar experiência e o segundo para fazer um trabalho independente, depois outro novo juiz, para não haver acomodação.Outro problema é que como o sistema de julgamento do surfe corta duas notas entre cinco para fazer a média, muitos juízes passaram a julgar pela média e não pelo que ele acha, só para não ser cortado.
Sinceramente, não acredito em má-fé, em roubo. Existe uma certa má-vontade com alguns surfistas. Ou melhor, em alguns casos não existe identificação que potencialize uma nota. Às vezes, determinado surfista vira o queridinho dos juízes e tudo que ele faz é hipervalorizado, parecem até táxi, já sobem na prancha em bandeira 2.
E como os brasileiros não estão nas revistas gringas, nos filmes e nos anúncios, as notas deles são sempre mais pesadas e difíceis de sair. Os surfistas têm de se conscientizar de que eles devem esquecer os juízes e se concentrar nas provas, em pegar bem, nas condições do mar e no equipamento, e nunca ficar no campo da subjetividade, pois na dúvida, nós perdemos sempre.
Boa sorte e não reclamem na praia.