
Estar distante dos grandes centros urbanos e da mídia concentrada no Sul seria o problema crucial dos surfistas do Nordeste.
Por isso, cearenses Heitor Alves, Pablo Paulino e Felipe Martins hoje estão no Rio e São Paulo. Felipe, de raízes migrantes, recentemente entrou para o time da Hawaiian Dreams, marca dirigida por um paulista descendente de imigrantes.
Heitor Alves é patrocinado por outra marca brasileira, a Freesurf, para quem já deu um título fluminense – erradamente atribuído de carioca.
E Pablo Paulino ingressou na “aussie” Billabong com o status de campeão Pro Júnior das seletivas do Brasil, mantendo uma curiosa tradição de atletas do Nordeste, iniciada com o paraibano Fábio Gouveia nos anos 80: dar retorno logo no primeiro mês de contrato.
Algumas alternativas para diminuir essa distância dos grandes centros, como o famoso “bate-volta”, parecem cada dia mais “inviávei$” . Porém, o passado mostra que alguns, por apego, laços familiares, amigos e identidade cultural, permaneceram no Nordeste e foram campeões.
Joca Júnior, ex-número 1 do Brasil, por exemplo, ainda reside em Natal. Fábio Gouveia, que levou suas referências nordestinas (leia-se fazer fogueira na véspera do dia de São João) e a família para Florianópolis. Mas, ainda bem que demorou.
Afinal, se Gouveia, atual líder do SupesSurf, não estivesse na pernambucana Baía de Maracaípe anos atrás, o garoto Bernardo Pigmeu, indicado por Gouveia para o “paitrão” Álfio “Hang Loose” Lagnado, talvez não estivesse disputando a etapa do WCT em Fiji ao lado de Neco Padaratz, com quem já morou naquela que é a melhor opção para quem tem patrô: Santa Catarina.
Outro pernambucano, Bruno Rodrigues, atualmente sem patrocínio, também está em Santa Catarina. Mas sem pensar em abrir mão do sonho de vencer, tornado real muitas vezes por ele mesmo na Baia de Maracaípe, Porto de Galinhas, Pernambuco, de onde saiu e viu, em 2000, outro Fabinho, o Silva, vir do Ceará, para levantar um segundo título mundial amador em repeteco ao do Gouveia 12 anos antes, quando a galera de Porto Rico ficou “toda abestaiada”.
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Viajar é preciso, competir mais ainda, fortalecer o celeiro de talentos nordestino a partir da base e de eventos locais então, é imprescindível.
Resistir à tentação de achar que o “maior rio do mundo é o que corta minha cidade”, seja o paulista Tietê ou o nordestino São Francisco, reforça o nacionalismo e a garotada, quando vira Brasil, como nos mundiais amadores, fica longe de amarras bairristas, que o prove a linda imagem da menina Tininha, cercada de Brasil por todos os lados, na foto tirada depois de vencer confronto no Tahiti.
Exemplar é o Waves.Terra. Democraticamente, abre espaço para a boa notícia, a exemplo do circuito da Pororoca, que exemplarmente integra Sul e Norte através das referências Laus e Buguelo, pioneiros na modalidade reinada pelo top Adilton Mariano.
Ressaltar o surgimento de um talento como a cearense, que fazia final entre os meninos nas ondas de Paracuru, a hoje reconhecida Silvana Lima, campeã brasileira, futura mundial, ou mesmo pioneiramente divulgar uma garota de 12 que conquista o primeiro título paraibano e, anos depois, publicar que ela foi considerada uma das revelações do Mundial Júnior, com foto publicada da prancha exibindo o mesmo patrocínio Roxy da campeã mundial Sofia Mulanovich, é acompanhar a história, sem faltar senso crítico e feeling.
Se pensássemos o Brasil como se fosse o nosso time e esquecêssemos as siglas ao lado da cidade de origem de cada um, talvez houvesse menos dificuldades nesta marcha rumo a algo que tem de ser construção coletiva: o sonhado título mundial.
A conquista do título mundial talvez possa vir de um talento como o paulista Adriano de Souza, cuja família, a exemplo da que tem o carioca Simão Romão, formada por migrantes nordestinos, com capacidade de superação e trabalho, certamente referências para os filhos campeões, atletas que têm patrôs das internacionais Oakley e MCD.
Nesse país plural, miscigenado e bonito, o talento pode vir de todos os lugares. E alguns lugares são pródigos, como Santos, terra de Picuruta e Robinho, aos quais o Nordeste, de Garrincha e Fabinho, bate palmas eternas.