O futuro vem aí

Tá de sacanagem, Kelly?

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Kelly Slater. Foto: Reprodução.

 

Não sei se gostei de ver “a melhor onda artificial já construída”, que teve suas primeiras imagens divulgadas recentemente pela Kelly Slater Wave Company. Certamente fiquei impressionado, acho que como acontece com qualquer um que assiste ao vídeo pela primeira vez, boquiaberto mesmo, sem acreditar na perfeição absoluta daquele tubo marrom avançando pela tela em minha direção. 

Mas terminada a exibição do que a tecnologia é capaz de fazer, e de como o dono do brinquedo ficou feliz com seu teste inicial, tive a incomoda e estranha sensação de estar me sentindo ultrapassado, deslocado, desorientado num planeta que está girando rápido demais para minha capacidade de absorver as mudanças irreversíveis a cada nova volta. Tomar conhecimento daquela invenção deveria me deixar contente ou preocupado? O que Kelly Slater está fazendo sobre aquele corpo d’água em movimento é ou não é surf? Não estaríamos, sob a liderança de um genial guru careca, que na realidade não sabemos se é uma figura do bem ou do mal, nos afastando cada vez mais da natureza, correndo um enorme de risco de um dia esquecermos de onde viemos e quem somos?

Tenho plena consciência de que sem nem precisar me estender muito nos meus devaneios, já devo estar soando como um purista paranoico, um daqueles pregos retrógados que são contra a evolução do surf que está sendo proposta por ninguém menos que o melhor surfista de todos os tempos. É quase como discordar de Deus, ainda que a maior e unicamente indiscutível manifestação de Deus tenha sido a criação da natureza. Coube ao homem a transformação dessa natureza, interferindo na sua essência de maneira tão violenta que hoje a espécie que se considera dominante se encontra diante de um futuro duvidoso, em que sua própria sobrevivência pode estar comprometida.

Mas pera ai, qual pode ser a relação entre a engenhoca apresentada pela Kelly Slater Wave Co.  e o fim da espécie humana? Afinal de contas trata-se apenas de uma inofensiva piscina de surf, que pode até mesmo ser útil para aliviar as crescente superlotação dos principias picos de surf ao redor do mundo. Ah é, inofensiva??? Pode ter certeza que o marqueteiros dessa nova maravilha robótica gerada pela mente humana tentarão empurrar nossa goela abaixo exatamente esse argumento, como se houvesse até uma motivação filantrópica por trás do empreendimento. Mas não nos deixemos enganar, ao ligar a máquina de fazer ondas Kelly Slater estará de olho é nas verdinhas que ela irá direcionar para sua conta bancária.

É capitalismo puro, e eu só não digo que do tipo selvagem pois sua estrutura está solidamente fincada sobre alicerces de ferro e concreto. Imagino que os capitães da indústria do surfwear devam estar se regozijando no potencial de faturamento que os milhões de surfistas de piscina poderão proporcionar consumindo seus “produtos autênticos”, com raízes que remontam à época  em que o surf era praticado no oceano. Visualizo até os adesivos nos carros alinhados no estacionamento de uma gigantesca Surflândia perdida nos confins de Iowa ou Goiás com os dizeres “eu surfo no mar”. Claro que sim, ninguém está duvidando de que você seja um surfista de verdade, nem querendo pegar seu lugar na fila, você pagou e sua onda vai entrar às 12h15 em ponto, esteja preparado.

Olha, eu adoro andar de skate no asfalto, me divirto à beça simulando estar numa onda e é também um dos meus meios de locomoção preferidos. Se tivesse grana teria na garagem, ou numa marina, um ou mais jet-skis e certamente não resistiria a tentação de tirar o melhor proveito daquele dia fechando tudo no beach break aqui perto de casa, mesmo sabendo que minha pegada ecológica estaria ficando mais pesada a cada rebocada. Sou também um assíduo usuário dos recursos de previsão de ondas, que comprovadamente elevaram enormemente a porcentagem de acerto nas minhas viagens, ainda que sinta saudade daquelas conversas com os pescadores que, apenas observando a forma das nuvens no céu e sentindo a força e direção do vento, me garantiam que o mar iria virar de sul em determinado dia.

E não tenho pudor algum em surfar com pranchas shapeadas por máquinas com medidas fornecidas por avançados programas de computação, ainda que continue apreciando a maneira artística com que os mestres da plaina esculpem os nefastos blocos de petróleo branco que nos proporcionam tanto prazer. Em suma, viciado que sou naquela sensação única de deslizar sobre a água em movimento, não tenho a mínima dúvida de que poderia, à parte qualquer questionamento, obter minha dose calmante da fissura num dos futuros parques da KSWC.

Quem disse que o McDonald’s não mata a fome também? Tem muita gente que chega a adorar, preguiçosos vão pela facilidade, ignorantes por desconhecer a origem dos ingredientes e forma de preparo. Se não tiver nada num raio de 100 km e eu estiver na estrada a horas morrendo de fome, sou capaz até de pedir um McChicken e fazer descer com muito ketchup, o que só compromete ainda mais. Mas que fique bem claro, do que eu gosto mesmo é de chegar naquela ilha deserta, mergulhar em busca de um peixe fresco e algumas ostras enquanto a maré não atinge o ponto certo, para ai então surfar por horas, e só no braço, a dádiva divina que são as ondas de mar, e depois, à sombra de um chapéu de sol com os pés na areia, e não debaixo de um guarda sol de plástico atarrachado a um piso emborrachado, fatiar um sashimi delicioso para ser apreciado junto com uma água de coco fresquinha. Bom, quem não me entendeu até agora, acho que não vai entender mesmo.

Para completar, só mais algumas perguntinhas pro Kelly, ainda que eu tenha certeza absoluta de que, do alto do seu pedestal inatingível, elas lhe sejam totalmente inócuas. Precisava mesmo ter liberado o vídeo de sua incrível onda artificial apenas um dia após a conquista do título mundial pelo Mineirinho? Não dava para esperar um pouco mais? Tinha mesmo que roubar um pouco da luz que estava brilhando sobre ele, desviando a atenção do público ao redor do planeta para você?

Todos já sabemos que você é o máximo, surfa melhor que qualquer outro ser humano, já pegou a Pamela Anderson e a Gisele Bündchen, só come coisa saudável, tem uma marca de roupa que vai conduzir a humanidade a um conhecimento salvador, fábrica suas próprias pranchas que irão revolucionar os conceitos do design, e que se você quiser mesmo pode ainda levar pra casa o 12º título mundial e mais uma par de vitórias no Pipe Masters. Só não entendi por qual razão você não competiu no Peahi Challlenge em Jaws, e também porque não investe um pouco da sua imensa fortuna e sabedoria em algo que realmente vá beneficiar o surf, como uma máquina para coletar os resíduos plásticos que estão sufocando nossos oceanos. Tem um moleque da Holanda fazendo isso, e ele nem pega onda. Desabafo feito. Parabéns Adriano de Souza, você sim é meu herói. E Feliz 2016 para a comunidade do surf. Vamos em frente que atrás vem onda.

 

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