
Se ainda existia alguma dúvida sobre a tradição do mês de maio de abrir a temporada de ondas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, ela foi definitivamente levada pela força dos ciclones que invadiram a costa durante praticamente todo o mês de maio deste ano.
Foram pelo menos quatro ciclones, praticamente um por semana, que trouxeram ondas com mais de 3 metros com uma freqüência nunca vista antes. Até agora é comum ouvir dos moradores do litoral destas regiões que há mais de mês as ondas simplesmente não abaixam para menos de 1 metro, o que nem sempre é garantido, mesmo nessa época do ano.

Inclusive várias competições foram presenteadas com ondas clássicas, como foram os casos do circuito paulista amador e do SuperSurf, ambos na praia de Maresias, litoral norte de São Paulo, e recentemente do Oakley Junior Challenge, no Rio de Janeiro, entre outros.
“O efeito ciclone deu ondas de 3 metros com séries maiores no Rio e em algumas praias paulistas. Para a nossa sorte, a chuva e o mau tempo que maltrataram a costa sul, principalmente o litoral gaúcho, chegaram bem mais fracos por aqui. A temperatura fria trouxe sol e céu azul. Em alguns dias, com a combinação certa das variáveis swell/vento, picos como Itaúna (RJ), Maresias (SP),

Guaiúba (SP) e praia da Vila (SC) tiveram seus dias de Hawaii. Disposição e equipamentos são fundamentais para quem quer aproveitar estes ciclones”, analisa Taiu Bueno, consagrado big rider e atento observador das condições do mar no Guarujá, onde mora.
Tudo começou no final de março com a chegada do “Catarina”, o primeiro ciclone extra-tropical desta seqüência, que acabou causando muita destruição e até mortes nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O ciclone se formou a cerca de mil quilômetros da costa e foi classificado pelo Centro Nacional de Furacões dos EUA como “furacão categoria 1” (o mais fraco deles), na escala Safir Simpson (ventos entre 120 e 150 km/h).

Segundo informações de especialistas, desde o século XV, data dos primeiros registros da navegação no oceano Atlântico, jamais se registrou um fenômeno dessa magnitude no Atlântico Sul. A baixa temperatura da superfície do mar e existência de ventos desfavoráveis nos níveis atmosféricos mais altos explica a ausência de furacões ou ciclones tropicais no local. Porém, já é consenso entre os especialistas que nos Estados de Santa Catarina e Paraná, há uma região denominada de “ciclogênese” (berço de ciclones).
De acordo com estudos sobre o fenômeno, o calor liberado na condensação do vapor em águas com temperatura acima de 26ºC é que cria e alimenta os ciclones. Assim, a

explicação mais provável para o aumento na incidência de ciclones na região é justamente o aumento da temperatura das águas causada pelo já popular “efeito estufa”, que provoca o aquecimento global dos oceanos.
A boa notícia para os surfistas é que, mesmo com o fim de maio, tudo indica que o fenômeno irá voltar a acontecer com mais freqüência no Atlântico Sul. Segundo Luis Felipe Azevedo, responsável pela interpretação e análise dos mapas de swell no Wavescheck, um novo e potente ciclone de sul-sudoeste deve varrer a costa a partir do final da semana, trazendo alterações significativas para as condições de mar e clima.
Ventos acentuados, chuvas e muitas ondas deverão começar a bombar a partir da tarde desta sexta-feira, para alegria dos novos “caçadores de ciclones” de plantão. Para abrir o apetite, clique aqui e veja galeria de fotos especial com imagens dos principais picos do Sul e Sudeste do Brasil durante o último mês de maio.