
O dia amanhece e logo o sol se sobrepõe à Ilha do Campeche, na praia de mesmo nome, ao sul de Florianópolis e faz os raios iluminarem as redes de pesca dentro das canoas.
Na areia, pescadores atentos jogam cartas e preparam o tradicional “café cabeludo”.
Mais para o lado, ao final da Rua Pequeno Príncipe, alguns surfistas conferem as condições do mar, que não está grande.
As ondas quase chegam a 1 metro. Tem surfe, mas também pode ter tainhas, afinal, soprou vento sul a noite toda. E, com este tamanho, os pescadores conseguem transpor as ondas e cercar os cardumes.
Em outros tempos, estaria armado o impasse tradicional do período de pesca das tainhas no litoral catarinense – neste ano compreendido entre os dias 1 de maio e 15 de julho.
Esse impasse gerou ao longo dos anos inúmeros registros policiais, violência gratuita, além de rixa entre as classes, que somente agora começa a ser desfeita.

No ano passado, a Federação Catarinense de Surfe (Fecasurf) e a Federação dos Pescadores de Santa Catarina (Fepesc) assinaram termo de compromisso inédito para
conciliar a prática do surfe no período de captura dos peixes.
A idéia foi apoiada por associações locais de surfistas e de pescadores e, como rendeu bons resultados, continua valendo este ano.
O sistema é simples e utiliza um sistema de bandeiras coloridas (branca ou azul) para indicar, ou não, a entrada no mar.
Alexandre Fontes, presidente da Fecasurf, explica que quando houver ondas inferiores a 1 metro e presença de cardumes, a preferência é dos pescadores, pois nestas condições eles conseguem atravessar a arrebentação com suas embarcações para fazer o cerco.
Neste caso, hasteia-se uma bandeira branca.
A bandeira azul sobe quando houver agitação marítima que impossibilite navegação próxima à linha de impacto, liberando o mar para surfistas e demais desportistas
aquáticos, sobretudo quando as ondas ultrapassarem 1 metro e apresentam boa
consistência.
A responsabilidade de hastear e trocar bandeiras é dos pescadores de cada praia.

Desde a implantação, como conta Xande Fontes, o sistema ajudou a reduzir significativamente os incidentes entre surfistas e pescadores das praias de Florianópolis, onde a polêmica era muito forte em praias como Ingleses, Santinho, Pântano do Sul (Solidão e Açores) e, principalmente, o Campeche.
Ivo da Silva, presidente da Fepesc, confirma a diminuição dos conflitos e acrescenta que o objetivo a partir de agora é estender o termo de compromisso para os municípios onde ainda há rixas e relatos de violência, como Garopaba, no sul de Santa Catarina, e São Francisco do Sul, no extremo norte.
Enquanto isso não acontece, o presidente da Fecasurf sugere bom senso entre as partes durante o período.
“Hoje, sabemos que esses são os meses que em que os pescadores vivem de fato da
pesca. Nos demais períodos do ano, o surfe ajuda a sustentar as famílias de pescadores. Os surfistas compram nos botecos dos pescadores, alugam quartos nas casas dos
pescadores quando viajam pelo litoral ou pagam para acampar no quintal. Em Santa Catarina, o surfe fomenta renda, turismo e gera empregos. E todos sabemos que o
surfista não espanta as tainhas, mas devemos respeitar o período de pesca”, ressalvou Fontes, reconhecendo a lenda sobre a questão.
As tainhas deixam a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, para desovar em águas mais quentes, no norte. O surfe repórter catarinense, Máurio Borges, conta que na
década de 80 houve registro de cerco a estes peixes no litoral nordestino.
“Até em Pernambuco pegaram tainhas. Mas, a cada temporada, esse ciclo vem se tornando mais escasso e restrito à costa sul brasileira, especialmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul”, explica Borges, referindo-se à pesca indiscriminada da espécie.
Xande Fontes e Ivo da Silva revelam que o maior problema agora envolve justamente a questão dos barcos de pesca profissionais. Segundo eles, os proprietários dessas
embarcações não respeitam as portarias e resoluções dos órgãos ambientais e teimam em pescar em locais impróprios às suas categorias.
“Não há estudos que comprovem que o surfista espanta os cardumes. O que está
acabando com a tradição da pesca são estes barcos, com radares, sonares e todos os ‘ares’ possíveis”, reclama Fontes.
“Falta pessoal para fiscalizar”, completa Silva.
Enquanto isso, o presidente da Fepesc lembra que o ápice da pesca da tainha no litoral catarinense ocorre geralmente entre 25 de maio e 5 de junho. Mesmo com a manutenção do sistema de bandeiras, já conhecido pelos surfistas nativos de Florianópolis, o presidente da Fecasurf está ciente de que fatos isolados ainda podem
acontecer, especialmente com pessoas de fora.
“A pesca da tainha já é parte da cultura do nosso litoral. Muitas vezes, os surfistas de outros Estados não estão informados a respeito e entram no mar de qualquer jeito e os desentendimentos são inevitáveis”, afirma Fontes para orientar os “haoles”.
Confira as praias de Florianópolis monitoradas pelo sistema de bandeiras
Brava – 2 bandeiras. Uma frente ao Bar do Pirata e outra no canto sul da praia, junto aos ranchos de pesca.
Ingleses – 2 bandeiras. Uma no canto esquerdo, no final da Rua das Gaivotas, e outra no Centrinho do bairro.
Santinho – 2 bandeiras. Uma ficará no canto esquerdo, próxima ao estacionamento das dunas. A segunda estará no final do acesso principal à praia, junto ao posto de
salva-vidas.
Canto das Aranhas – Ano passado tinha uma bandeira junto ao final da rua. Mas parece que este ano está liberado. Mais informações com a associação de surfe do Moçamba.
Moçambique – liberada.
Camping da Barra – liberado.
Barra da Lagoa – maior reduto pesqueiro artesanal da Ilha de Santa Catarina. Nem precisa sinalização.
Galheta – Uma bandeira no caminho que dá acesso à praia, via canto esquerdo da Mole. Haverá placa indicando como funciona o sistema.
Mole – liberada.
Joaquina – Liberada desde a Careca, passando pelo meio da praia, até o Reefifi.
Campeche – 3 bandeiras. Uma no palanque dos surfistas, outra na saída da Rua
Pequeno Príncipe e uma terceira próxima à igrejinha.
Morro das Pedras e Caldeirão (Armação) – Ano passado havia uma bandeira colocada próxima do costão de cada praia, local preferido pelos surfistas. Mas estive no último final de semana nestas praias e não vi bandeiras muito menos pescadores na areia.
Pântano do Sul – Terá 3 bandeiras, distribuídas ao longo da praia, até o costão da Costa de Dentro. Uma delas ficará em frente ao salva-vidas do Balneário Açores.
Solidão – Uma bandeira será colocada na foz do Rio das Pacas.
Lagoinha do Leste e Naufragados – Ano passado estavam liberadas.