Soul surf

Surfista Peregrino – Maldivas Parte III

Acordei no meio da noite assustado. Senti que algo de pesado estava acontecendo ao Peregrino. Mas o que poderia ser? O cara é independente, desconectado do mundo prático em que eu vivo. Se fosse somente a morte a medula do meu pressentimento, com certeza ele seria o último a se preocupar.

 

Mas não foi algo tão simples como ?A Velha Senhora? que eu senti. Foi algo pior. Não havia nada que eu pudesse fazer. Desencanei. O Peregrino é um monge andarilho, um oculista do terceiro olho. Ele sabe o que faz.

 

Andar sobre a Terra dos vivos ou andar sobre as águas da Escuridão é uma mera mudança de cenário. O personagem principal é sempre a alma. E estar sintonizado com ela determina o grau de plenitude nesta vida, e nas outras.

 

O que quer que pudesse acontecer com ele ou poderia ser o fim do corpo material, ou mais um aprendizado. Nada além disso. Nenhum sol forte demais, pensei, nenhuma onda muito grande, nenhum coração excessivamente profundo. Tudo se realiza em todos nós, Homens/Deus. E nós espelhamos este universo.

           

Foi sem surpresa que na manhã seguinte descobri uma nova carta do Peregrino na caixa do correio.

 

?Há três dias surfei a ilha de Thaburudoo. Poema em azul maior. Na verdade, cavalguei ininterruptamente durante sete dias as ONDAS

ao lado da ilha. Um número cabalístico que previsivelmente resultou numa relação profunda com o lugar.

 

Cada novo tubo sedimentava umbilicalmente eu com a ilha e a ilha em mim. Agora não importa para onde eu vá, jamais seremos novamente entidades separadas.

 

É interessante constatar que ao surfar uma onda, qualquer onda, em qualquer lugar, de qualquer tamanho, estou participando de toda a sua existência.

 

Serei seu único companheiro na sua jornada mágica. Uma relação verdadeira, completa. Enquanto ela existir, do seu nascimento até a sua morte.

 

A vida daquela onda começa comigo e termina comigo. Embora nosso amor tenha um fim, durante aqueles momentos fomos eternos. Nós dois, uma só expressão divina. Única na sua forma e na sua essência. Para sempre.

 

Já estava havia dois dias flutuando pelo mar azul turquesa, que permanecia em tons mais escuros já que o céu continuava totalmente encoberto. Quase à deriva. Sem ondas.

 

Hoje não acordei bem. Uma sensação de desconforto ronda minha mente (em Nápoli, certa noite perdida, uma menina de olhos verdes e cabelos negros me disse que a mente era o passado, o corpo o presente, e a alma o futuro).

 

O tipo de calor que eu sinto também é inédito, mesmo pelos padrões de um vagabundo dos trópicos. O meu capitão de confiança, o Imnti, aproximou o barco do que parecia uma plataforma de corais submersa uns três metros.

 

Ao lado dela, me explicou através do nosso código de sinais já bem desenvolvido, havia um paredão que se alongava até profundezas abissais.

 

Lar de peixes-luz com seus olhos destacados do corpo, um apêndice constituído de uma fantástica combinação de periscópio e farol. Morada da vida ou da morte, dependendo da realidade que você quer criar para você.

 

Olhe para a sua vida: é a sua criação, pensei. Você pode ser arquiteto do próprio Inferno, medo sobre medo, formando a pirâmide do Pânico; ou construir com esmero a sua Mansão de Luz.

 

Pensava assim quando o Imnti sugeriu que mergulhássemos. Tirou dois tanques de oxigênio de um compartimento de madeira e detalhou as instruções várias vezes.

 

Apesar dos meus protestos tentando explicar que sou um anfíbio de superfície, ele me convenceu que seria divertido e até complementar para a minha vida aquática e para as minhas guelras, submergir. Meio relutante coloquei o trambolho nas costas, calcei os pés de pato me sentindo ridiculamente inadequado na postura e nos movimentos.

 

Adaptei-me à máscara, pressionando-a contra o meu rosto. Tudo vai melhorar quando eu cair na água, pensei. Toda esta tralha foi feita para nos sentirmos à vontade num ambiente específico: embaixo da água.

 

Nos segundos que antecederam o mergulho senti falta da leveza de estar só de calção remando sobre a minha prancha. Subindo na borda do barco, o Imnti deu um passo à frente e caiu na água.

 

Com dificuldade, tentei imitar os seus gestos ao mesmo tempo em que tentava controlar o medo com pensamentos positivos e alegres, tipo a cara do Pato Donald brigando com os sobrinhos, um som de uma risada infantil ou um sentimento de felicidade por estar livre pelo mundo.

 

A estranha sensação permaneceu enquanto eu afundava atrás do Imnti. As sombras das nuvens que passavam pelo céu e lambiam o paredão lá do alto, além de colocarem um véu fugaz e pouco confiável no ambiente, fustigavam tenebrosamente os corais luminosos e seus peixes.

 

Esse clima não ajudava em nada a minha já combalida confiança. Quinze metros. O equipamento me arrastava para baixo conforme eu ia esvaziando o colete salva-vidas.

 

##

 

A um sinal do meu instrutor improvisado estabilizei o corpo na marca dos vinte e cinco e, a partir daí, fomos descendo de ponta cabeça, suavemente, mas com dificuldade.

 

Eu não conseguia equalizar os ouvidos devidamente, o que causava uma dor e um incômodo constantes que me obrigavam a parar a cada dois ou três segundos para assoprar o ar pelas narinas tapadas. Eu tentava assim criar a pressão necessária para recolocar os tímpanos no lugar.

 

Uma estranha pressão foi tomando conta do meu peito. Pensei que ia sufocar. Neste instante, o mar, que sempre foi meu companheiro fraterno, tornou-se o pior inimigo.

 

Senti como se a sua imensidão fosse me esmagar impiedosamente. Que todos os perigos de todas os seus cantos longínquos e desconhecidos estivessem convergindo para aquele lugar, em minha direção: peixes, tubarões, correntes, tempestades, pressão de um bilhão de litros, o desconhecido por trás das profundezas que eu não conseguia discernir.

 

Pensei que o oxigênio iria parar de fluir do tanque a qualquer segundo, e que os meus órgãos internos iriam entrar em colapso, sem aviso, um a um. Olhei para cima e vi uma luz difusa por entre as penumbras translúcidas da água.

 

Perdi o controle e pressenti, com terror, o pânico tomar conta de mim inexoravelmente. Meu corpo esfriou repentinamente e penetrei velozmente por um labirinto escuro da minha própria mente.

 

Onde não havia saída. Queria subir à superfície mais que tudo que eu jamais quis. Puxei a perna do Imnti para avisa-lo de que estava subindo. Fiz o sinal de ?ar cortado? passando a mão em riste pela garganta, e o sinal de ?vou subir? com o polegar apontando para cima.

 

Minha pele toda formigava. Meu coração socava as paredes internas do meu peito como se quisesse pular para fora e subir sozinho. O Imnti percebeu o meu estado, agarrou meu colete com firmeza e com a mão direita fez sinal para eu respirar suavemente. Tentava dizer para que eu acalmasse e permanecesse ali.

 

Para que eu assumisse a minha posição naquele local e não arriscasse uma embolia pulmonar subindo apressadamente. Para que eu continuasse respirando. Olhou nos meus olhos e eu pude pressentir uma mistura de vontade, medo e raiva nos seus olhos.

 

Feche os olhos e respire, pensei. Feche os olhos e retome a sua alma, pensei. Tome posse de você mesmo, da sua coragem, da sua vida. Já! Ou tudo acabará. Da pior maneira possível.

 

Consegui respirar. Aos poucos fui adquirindo a confiança de que o oxigênio do tanque realmente fluía, de que os tubos não estavam entupidos.  De que o universo não conspirava contra mim, mas ao meu favor.

 

Senti a minha alma voltando ao meu corpo e se realinhando com o meu pensamento. Retomei aos poucos a consciência dos perímetros do meu próprio corpo. Estava novamente íntegro.

 

O Imnti me puxou suavemente pelo colete salva-vidas e fomos subindo devagar em direção à superfície e à luz comprometida de uma tarde nebulosa.

 

Fechei novamente os olhos enquanto batia os pés-de-pato vagarosamente, como num lamento, ajudando a ascensão. Estava voltando da trilha do Inferno que eu mesmo havia criado. Ou que eu teria descortinado inadvertidamente dentro de mim?

 

Conforme coloquei a cabeça fora da água, comecei a flutuar de barriga para cima por alguns minutos esperando que a cérebro parasse de latejar e abri os olhos para ver as nuvens e o céu. Para certificar-me de que ainda estava vivo. Nunca o mundo pareceu tão pleno e tão intenso quanto naquele momento.

 

Um passo depois da morte que não aconteceu. Uma batida de coração depois do pavor onipresente. Tudo aquilo deve ser pior que a morte, pensei.

 

O doloroso deslocamento do espírito do corpo do ser humano ainda vivo. A fragmentação do Eu. Morrer deve ser com certeza uma prática mais amena, sorri comigo mesmo enquanto o Imnti me arrastava lentamente para perto do dhoni.

 

Subi no convés com dificuldade, desatei os cinturão com os pesos de chumbo, o colete, e recoloquei o tanque no chão. Verifiquei no medidor do tanque que havia sugado em quinze minutos todo o oxigênio que normalmente duraria uma hora.

 

Fui caminhando para a proa e fiquei ali parado, de pé, olhando para um horizonte que eu jamais havia visto.

 

Sentindo a minha própria presença de uma maneira profunda e consciente de um jeito que eu não imaginava possível. Como se eu tivesse descoberto pela primeira vez um mundo que sempre esteve ali.

 

Talvez eu é que não estivesse. Estava feliz, mas não sorria. Sentia-me leve e eterno. Sabia que tinha passeado inadvertidamente pelo Vale das Sombras da Morte. E tinha temido. E tinha conhecido e reconhecido o Horror. Porque não tinha Fé de que Tu estavas comigo. Hoje eu sei.

 

Na manhã seguinte, o Imnti se surpreendeu ao me ver arrumando o equipamento. Em silêncio me seguiu. Antes de o sol começar a aparecer por entre as últimas nuvens da tempestade noturna, mergulhamos sem medo para o exato ponto onde havíamos estado no dia anterior.?

 

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