
Me dirigi à porta de casa na noite do dia 9 de novembro. Demorei para colocar a chave porque não conseguia parar de olhar o fantástico eclipse da lua. Parecia um véu âmbar no sorriso da superfície brilhante. A nossa sombra, a sombra da Terra, confirmava a existência do nosso planeta de uma maneira poética e ao mesmo tempo determinante. Nunca havia visto nada igual. O céu aparecia claro e aquela noite se revelaria ainda mais especial, a partir do momento que percebi mais uma carta do Peregrino colocada por baixo da pilha de “junk mail” da minha correspondência volumosa e inútil. Como a réstia de luz que ainda persistia na lua encoberta, ela transparecia e reluzia no meio da sombra de cartas. Abri.
“Já era quase noite quando eu e o Imnti, o meu agora amigo e capitão do barco, passamos perto de uma ilha já quase indiscernível pela escuridão. Com sua força o swell grande e violento lavava da minha memória as calmas imagens das ilhas verdes rodeadas de lagunas transparentes e plácidas. Estar só e ao mesmo tempo integrado no universo é um espécie de dom, pensei. Perceber isso é um privilégio. Ao nos distanciarmos da bancada, já em águas profundas, repentinamente e há menos de 50 metros, uma única onda de pelo menos 12 pés surgiu do nada e atirou sua crista majestosamente para o alto. Ficamos de boca aberta presenciando aquela entidade da noite cumprir seu destino. No centro do seu vórtice, ainda visível, podia se observar um olho negro concentrando toda a energia.

Aquela onda tinha parentesco com uma erupção. Impunha respeito e medo. O barco oscilou perigosamente e quase virou. Solitária e imponente no meio do mar, esta onda manifestava sua curta existência de forma dramática. Conseguimos estabilizar a nossa frágil embarcação e fomos passando lenta e cuidadosamente ao largo. Não havia explicação racional possível para aquela única massa d’água explodir daquele tamanho naquela profundidade. Confirmei o inusitado do ocorrido ao observar que em volta a água permanecia de um azul escuro e denso. O impacto da sua existência transcendia razões, portanto, desistimos de procurá-las. Concentrados e em silêncio, apenas agradecemos a sua presença. Quando tudo terminou e as últimas levas de espuma batiam no costado, abaixamos as nossas cabeças levemente, reverenciando o seu poder e a sua condescendente permissão para que a jornada continuasse.
Seguimos em frente mais duas noites e dois dias à procura de um lugar propício para surfar. As noites são longas, no bom sentido, para quem percebe com clareza a própria respiração. Os sentidos se aguçam. Tudo demora mais quando você pressente com vívida nitidez seus próprios contornos, o sutil movimento dos seus poros respirando e até a dimensão e formato dos seus órgãos internos. A minha vida automática e inconsciente tornara-se, por alguns minutos, consciente.

Eu permanecia de olhos fechados vendo tudo isso quando, na manhã do terceiro dia, o dhoni “Haapat”, o meu querido barco maldivense, foi se aproximando de uma ilha sem batismo no remoto Atoll de Haa Dhaal. O extremo norte do arquipélago é invisível para o mundo. Aquela potente ondulação, agora mais acertada, vinda de sul, ainda tinha força para quebrar naquelas ilhas, mesmo que com uma falsa amenidade. Sincera na sua expressão de energia quebrava com ruído nas costas da ilha, que parecia se curvar e estalar com o impacto. O sol ainda mal nascia, visão que fez o “capitão” Imnti soltar um gemido de prazer. Abri os olhos, efetuei cinco minutos de alongamento seguidos de alguns “ásanas” (posições depurativas da ashtanga yôga), joguei na água a prancha já parafinada na noite anterior e mergulhei atrás.
As formas ainda não estavam completamente visíveis, mas eu pressentia cada uma delas no detalhe. Era uma direita. Sem nome e sem fim. Começava junto da ilha e penetrava na escuridão ainda presente dos restos da noite, num lugar indiscernível. Breu puro. Num movimento sincrônico com a minha meditação de minutos antes, sem hesitação ou dificuldade, peguei logo uma das maiores da série. Na curva, minha espinha rangeu um pouco com a torção de backside, as costas viradas para a onda exigindo maior flexibilidade da cintura. Logo me habituei e nada mais senti, “escorado” pelos ásanas recém-efetuados. Fui rasgando a água com velocidade, aproximando-me cada vez mais da sombra da noite que relutava em se dissolver. Ao alcançá-la, penetrei no seu interior e nada mais vi. Os movimentos tiveram que ser instintivos e, ao perceber que meus olhos de nada serviam naquelas circunstâncias, fechei-os e continuei surfando, cego de luz externa, confiando na luz interior. Olhos fechados, alma aberta.
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Como uma continuação até previsível da minha meditação no barco, meu espírito sabia exatamente o que fazer em cada movimento de cada sessão. E era ele quem dirigia o corpo, um acessório indispensável confeccionado com alta tecnologia divina, porém monitorado magicamente por algo maior. Deixei que a fluidez me dirigisse para uma batida vertical, tão forte quanto previsível na sua trajetória. Na fração de segundo que durou a manobra, o tempo parou. De volta à parede da onda, respirei profundamente ainda de olhos fechados.
Seria extremamente arriscado interromper a minha viagem na onda ou tentar sair dela neste momento, já que não tinha noção de onde estava nem de onde poderiam estar as cabeças de coral. Quando a saída racional é inútil e o nosso pretenso controle dos acontecimentos de nada serve, só nos resta deixar tudo nas mãos de Deus. Onde sempre esteve. Mas por que temos que nos colocar numa situação-limite para só então abrir mão, confiar e deixar acontecer? O medo de perder o equilíbrio e cair de boca nos corais foi se desfazendo conforme eu permitia que a fé tomasse conta de mim. Eu estava em Unidade com o Deus Mar e nada poderia sair errado ou diferente do que o destino havia construído. Eu era o Presente esculpido em água e movimento. Parte do Todo. Um Homem em forma de Mar.

A água foi exalando um cheiro cada vez mais forte. Mais um segundo e percebi que na realidade era o meu olfato que tinha se apurado. O arrepio inicial de temor se converteu em tranqüila sensação de bem-estar. Rompi uma espécie de portal da ilusão do pânico para adentrar na verdadeira natureza do Ser. Da mesma maneira que tinha começado a onda terminou, pelo menos neste plano, pensei. Ela continuaria ainda e sempre em outras esferas, carregando aquele Eu que a tinha encontrado, com seu temor vencido e a sua Unidade reforçada. Quando finalmente superei a minha sombra e sentei na prancha, o dia, não tendo mais motivos para adiar a sua entrada, abriu com um clarão amarelo-púrpura. O barco derivava há uns trezentos metros com o Imnti deitado no convés, braços atrás da cabeça e a perna direita cruzada sobre a esquerda, esperando a vida continuar.
Passei a mão na água e percebi um peixe Imperador, com suas belas listras azuis e amarelas me observando logo abaixo da linha d’água. Eu era provavelmente o único ser humano que ele havia visto, senão não teria chegado tão perto. Alguns colegas seus menores e manchados de formas diferentes na parte de baixo da cabeça, mas ainda com o mesmo design, foram se aproximando. Pararam, esperando alguma reação minha ou algum tipo de movimento que pudesse diverti-los. Estranha e colorida platéia. Deitei na prancha e fui remando para me colocar novamente fora da linha de arrebentação à espera da próxima série. Eles me seguiram até o ponto em que se sentiram seguros e depois dispersaram, prevendo que a parte interessante do show já havia terminado. Olhei para o horizonte e pude ver muitas outras ilhas pontilhando o oceano em direção ao sul.

Suas “auras” azul-claro santificavam a paisagem e a perfeição do branco de suas areias ofuscava a vista, como a auréola de um anjo anfíbio. As sombras de corais, à distância, escureciam alguns trechos de suas extensões. Encontrei o limite que a cor azul pode atingir, pensei. Aí esta uma cena na qual eu acredito. Guardarei para sempre no estoque mental de imagens. A “minha” ilha, pude agora observar, tinha a forma de concha, e não era maior do que o quarteirão onde eu morava na cidade quando moleque. Mergulhei da prancha para refrescar a cabeça e o corpo enquanto a série não vinha. Fui até o fundo e rocei a mão nos corais para sentir a sua presença e me integrar melhor ao ambiente. Ao subir, vi uma crista se formando há poucos metros de onde eu me encontrava. Virei a prancha, dei duas remadas e dropei, desta vez com os olhos bem abertos”.