Seguindo a linha de nosso caro colunista Marcos Credie, entendo que a percepção e idéia do que de fato faz um surfista ser assim taxado e reconhecido num dado meio social, varia de pessoa pra pessoa, de espírito para espírito.
O tema inclusive é objeto constante de auto-reflexões que fazemos sempre buscando na verdade compreender algo a respeito de nós mesmos e da relação deste estilo de vida e esporte com a personalidade e identidade de quem possui uma atração e amor inexplicável pelo surfe.
Assim, é claro que a surpresa de nosso colunista com o fato de uma revista leiga taxar o incomparável Rico de Souza como ?ex-surfista?, não se justifica. Ora, é fácil compreender que uma idéia inadequada sobre determinado esporte é na verdade impossível de se evitar quando quem a fundamenta é alguém que não vive e não sente a grandiosidade do surfe. Vamos perdoá-los… e o Rico, com certeza perdoará.
Enfim, o que importa para definirmos o que de fato faz um surfista (se é que isso seria possível) é na verdade nossa opinião. Eu, você, Kelly Slater, Mick Fanning, ou o iniciante que sequer parou pra refletir sobre essa novidade que descobriu na sua vida e só pensa em voltar lá na espuma e deslizar mais uma vez numa ondinha tentando ficar um pouquinho mais tempo sobre a prancha do que a última vez.
Existe um sentimento que não se expressa por palavras e que definem eu, você, o Slater, o Tom Curren e os iniciantes que já se apaixonaram pelo esporte. Este sentimento, nós surfistas, não descrevemos, não escrevemos, não falamos… Nós vamos lá fora e surfamos e, qualquer um com sensibilidade, que parar para observar essa energia, de mente aberta e sem preconceitos compreenderá bem do que se trata.
Surfista é quem… surfa! Esse sentimento de amor e atração irresistível que nos faz enxergar puro e sublime prazer quando leigos só vêem frio e água gelada por exemplo.
Esse sentimento une a mim, a você e repito, ao Slater, ao Fanning e os iniciantes já apaixonados. Sou capixaba, moro em Vitória no Espírito Santo e tenho sido surfista já há metade do meu tempo de vida.
Acompanhei bem a evolução do esporte no nosso estado e tive a oportunidade de viajar por outras localidades do planeta ainda criança e pude assimilar algumas coisas. A evolução do surfe aqui no ES pode ser retratada através da quantidade de pequenos garotos que hoje estão ai pelo Brasil e pelo mundo expressando-se sobre as ondas em competições. Isso, há cinco anos atrás era raro por aqui.
Essa gama de garotos talentosos na verdade, não é quem merece obter os méritos pelo desenvolvimento do esporte em nosso estado e em qualquer outro lugar do mundo. Eles são frutos e produtos deste desenvolvimento.
A evolução do surfe, tanto aqui quanto em qualquer lugar do mundo se deve por esse sentimento que surge no espírito do enorme contingente de apaixonados pelo surfe que vêm diariamente, semanalmente ou mensalmente às nossas praias, gastando gasolina, equipamentos, alimentos e tudo o mais com um objetivo muito simples: Surfar e evoluir o seu próprio surfe e suas próprias habilidades.
A estas pessoas deve ser creditada a evolução do nosso esporte. Neles é mais fácil compreender este sentimento que na verdade identifica e define ?O Surfista?. Eles não são pagos para estar lá, eles pagam caro para estar lá.
E assim mesmo vão sempre que podem, com o que podem, surfando sobre o que podem. Não fazem isto para juízes ou gatinhas na areia (talvez sim). Fazem por si próprios. Para evoluir e talvez também, mostrar para aquele brother que está sempre junto a nova manobra que está aplicando das marolinhas, o que vai forçar este mesmo brother a evoluir também. A competição e a evolução são internas. É coisa deste sentimento que identifica nós surfistas.
Assim, para identificar e definir o surfista de nada valem olhar o estilo de roupas que ele usa, as tatuagens que tem pelo corpo, se está sempre bronzeado ou não, se fala gírias da praia ou não e muito menos se é pago ou não para surfar.
Já participei de algumas competições, já viajei por alguns lugares, já surfei ondas que me dão mais orgulho hoje do que conquistas profissionais ou do meu diploma na faculdade. Entretanto, não sou o Slater, não sou o Fanning, o Andy ou o Mineirinho.
Não ganho para surfar… isso virou um sonho distante que hoje compreendo… jamais terei oito títulos mundiais de surfe na bagagem. Mas apesar disso tudo, existe algo que me faz sentir nem um pouquinho menos surfista que o Slater, o Fanning, o Rico ou o iniciante que acaba de se apaixonar pelo esporte.
Não sabemos o que o dia de amanhã reserva a mim, a você, ao iniciante, ao Slater e outros mais. Uns podem atingir este sonho de viver do esporte como estes nomes que citei atingiram. Outros, como eu deverão correr atrás da vida de outra forma para fazer o seu de cada dia.
Uma certeza nisso tudo é que, aquele que realmente ama o esporte e sente esta energia inexplicável dentro de si, não importa o que ocorra, jamais deixará de ser surfista.
Talvez muitos destes talentos capixabas não cheguem lá como o Fabinho Gouveia ou o Mineirinho chegaram, por exemplo. Se isto ocorrer, tenho certeza de que os verdadeiros surfistas, haja o que houver, estarão sempre de prontidão correndo para aquela merreca mais próxima de casa tentando aproveitar os últimos raios de luz do horário de verão pra dropar uma ou duas ondinhas no meio do crowd, e fazer seu dia de trabalho se transformar em mais um presente de Deus.
Slater uma vez respondeu que se não fosse surfista profissional seria um surfista de fins de semana. Ou seja, se eu tivesse chegado lá, estaria feliz da vida como ele. Se ele não tivesse chegado lá, sem dúvidas estaria surfando suas ondinhas evoluindo consigo mesmo, feliz da vida como eu, você e o iniciante. Nós somos surfistas e isso não se explica.