
O surfe com o corpo, ou de peito, é um estado de arte, eternizado por sensações e sentimentos inesquecíveis, tanto para o autor da performance quanto para os espectadores. Refletindo nestes momentos preservados, gostaria de expor este pensamento e discutir o que é afinal o surfe de peito para cada um.
Não me imagino o único “maluco sentimental” que efemeriza tanto este desporto a ponto de me precipitar por chamá-lo de arte. Afinal, os registros históricos comprovam que o surfe com prancha surgiu há mais de 4 mil anos.
E nós, que nunca a usamos? Não creio que seja muito difícil para cada um de nós internalizarmos que o surfe de peito nasceu como uma brincadeira, uma observação, uma questão de sobrevivência e, por vezes, um ato de coragem.
Na década de 30, no Tahiti, os nativos usavam nadadeiras feitas de palha de palmeiras, trançadas artesanalmente, até que juntas tomassem a forma de uma barbatana. Owen Churchill, Iatista norte-americano, refugiou-se durante a II Guerra Mundial um tempo por lá, em 39.
Admirado com a “versatilidade” dos banhistas na arrebentação e, claro, com o espantoso trabalho manual das nadadeiras, resolveu levar esta idéia e desenvolveu a sua própria nadadeira – as Churchill. Todos nós a conhecemos bem. Eis uma questão: quem e como desenvolveram estas nadadeiras artesanais? E por quê?
Na cultura Maori, o “Maoritanga”, era e ainda é natural surfar com o corpo como um modo de manter a mente e o corpo sempre fortes. E nadando ou remando em canoas nas divisas litorâneas de cada tribo era uma forma de demonstrar as dimensões dos seus domínios.
No país que hoje se chama Nova Zelândia, era comum mergulhar fundo (apnéia) atrás das pérolas cinzas, de grande valor (espiritual) para eles e, lógico, para nós ($$$), brancos civilizados. Os ingleses e franceses exploraram ao máximo todas as riquezas destas ilhas e a natureza sempre lhes deu tudo de volta.
As novidades, quaisquer que sejam as práticas, enfim as novas tecnologias, há milhares de anos sempre ultrapassaram os limites de ilhas e até arquipélagos do pacífico do sul ao norte. Sejam tão somente lendo as estrelas e as marés, os novos hábitos foram as formas de comunicação oral entre as tribos e o meio de desencadearem-se os novos modos de vida.
Fosse para cura de uma doença, para a troca de mulheres ou homens (e estes levavam consigo a sua cultura) para a procriação, a fim de impedir a consagüinidade, para trocar produtos, serviços e matérias-primas, etc.
Nestas trocas, por vezes o mar virava e impedia o retorno das embarcações ao mar e os “estrangeiros” ficavam instalados por mais tempo, elevando a sua cultura, enobrecendo suas capacidades para “outros mares”.
Portanto, se um povo inventou uma forma interessante de passar o tempo e, num dado momento que não tinha muito o que fazer, entretinham-se surfando (a modalidade aqui, não importa) na arrebentação.
E como reagia quem estava na areia? Não seriam as mesmas reações dos transeuntes e banhistas leigos de hoje em dia? Ficavam boquiabertos, desnorteados com a agilidade do “estrangeiro” e até vibravam com o seu sucesso nas ondas.
Na Ilha da Páscoa, os tótens já existem há milhares de anos. No Peru, as canoas que hoje os bolivianos usam no Lago Titicaca são bem próximas das que os peruanos usavam nas arrebentações gélidas do Pacífico Sul. Será que estas práticas não eram conhecidas entre estes povos? Em algumas regiões por motivos sagrados e em outras, mais libertinas, profanas.
Quanto aos dispositivos flutuantes, que bom que inventaram algo mais prático! E descortinando-me sobre este tema, imagine-se num ecossistema insular de vastos recifes, onde tubarões ávidos são bastante presentes.
Usar um tipo de “bóia” de modo a retirar boa parte do corpo das mandíbulas dessas feras é bem mais que aconselhável. Ao cruzarem certas distâncias, estes dispositivos eram antes produzidos pessoalmente, ou seja, em caso fortuito, se alguém caísse no mar, tinham o que lhe jogar como alívio, além de boas vibrações, pois as embarcações eram empurradas pelo vento!
As “bóias” tornaram-se tecnologicamente melhores com o tempo. A informação ecoava aos quatro cantos até que da própria subsistência, potenciais consumidores vinham à procura de seus artesãos. Imagine quanto custava uma vida, será que hoje vale menos? Eram caras o bastante para se manterem para o resto da vida, de geração em geração.
E por falar em vidas, o Centro de recuperação de Afogados (CRA) deu origem, em 1917, ao Serviço de Salvamento do Rio de Janeiro. Atitude pioneira no Brasil, se iniciou na “Carreira” no (Posto 6 de Copacabana) onde hoje é o 1º Subgrupamento Marítimo do CBMERJ.
Como dizia Alfredo Rosa, um dos importantes Instrutores dos Guarda-Vidas da década de 80-90: “Salvamos vidas, com qualquer tempo, em qualquer hora e em qualquer mar”, adiciono mais um pensamento de outro Guarda-Vidas: “Mar não tem cabelo.” E ainda vou além, neste imaginário do Salvamento Aquático de que “toda pessoa deve saber nadar, todo nadador deve saber salvar.”
Se não fosse esta nobre atividade de salvar vidas, os surfistas de peito retardariam um pouco mais à coragem para entrar nas valas de Copacabana, que antes do aterro eram arrepiantes. Era necessário muita coragem, calma e preparo físico, como afirmaram Rossini “Maraca” Maranhão, Otávio Pacheco, Carlos “Alemão” Schmols entre outros.
Muitos não tinham dinheiro para comprar nadadeiras – e pensar que elas só chegaram por aqui na década de 50. Como era difícil surfar, nadar no mar ou mesmo salvar vidas neste intervalo desde 17 até as primeiras Swim Fins verdinhas chegarem.
O fato é que os surfistas, e agora importa a modalidade, usam o surfe com o corpo como forma de sair do mar, caso o mar os impeça de buscar sua prancha após um caldo brabo. Este elo entre o surfe com prancha e o surfe com o corpo nunca poderá ser desmantelado, nunca poderá ser esquecido.
Além de treino para as competições, é também uma demonstração de respeito ao mar! É a forma mais pura de estar no meio líquido, interferindo sobre as massas líquidas desiguais, interagindo novas formas, novos estilos de manobras e fluidez, exprimindo e mantendo um modo de vida através desta prática antiga, popular e lúdica, de excelente condição física e mental.
Mahalo! Aloha!
Obs: Não citei diretamente o Hawaii de propósito! Se não teria um “testamento”. Todos os comentários serão bem-vindos!
Para mais informações, fotos e vídeos da modalidade acesse o site www.surfedepeito.com.br . Informações sobre salvamento no www.salvamentoaquatico.com .
*Kleiber Fragoso é publicitário, radialista em TV, surfista de peito há mais de 20 anos e gerente de conteúdo do site Surfe de Peito.
Este texto faz parte da lista de discussão dos surfistas de peito, handboarders e guarda-vidas do Brasil.
Fontes: Ben Finley (antropólogo), Steve Chong (NZ), Michael Zerman (OZ) e Nadadeiras (História das Nadadeiras 1/2 – vide site).