O surfe profissional não é mais o mesmo. Os ecos dos gritos de é campeão das areias de Pipeline, no Havaí, ainda perturbam as nações dominantes da história do surfe. Os gritos de um povo expansivo e emocionado, que pouco se importa onde está e quem está a sua volta, impulsionam as ambições do time brasileiro do world tour e causam inquietude, e até admiração, aos colonos britânicos que terão de se adaptar à nova maneira de pontuar alto. A mesma paixão que lota estádios e empurra times de futebol às vitórias, agora invade as praias de todo o mundo, independente da distância do país de origem, e cria desigualdade quando brasileiros surfam contra estrangeiros.
A tempestade brasileira ganhou força de tufão e ninguém sabe como parar. A rivalidade entre os membros brasileiros da elite mundial, durante toda sua trajetória nas competições desde os tempos de grommets, os levou a uma combinação de elevados níveis técnicos e de competitividade que são quase uma afronta aos visivelmente incomodados ozzies, americanos e havaianos. Nossos adversários farão de tudo para destruir essa escalada, dentro e fora da água, como fizeram com as palavras de Medina no desabafo da polêmica interferência na Gold Coast. Qualquer deslize será motivo para tentarem desestabilizar a inercia da vitória que circunda os brasileiros do tour.
Não há mais espaço para a resistência em aceitar a inovação, ou melhor, a revolução dos aéreos rodando. Há 5 anos, Jadson chocou a ASP em Imbituba (SC). Medina fez o mesmo em um Prime na mesma praia com manobras muito acima do lip. Mas aos poucos as manobras pararam de ser valorizadas e nossos pupilos revolucionários ficaram estigmatizados por não saberem surfar com a borda ou por serem surfistas de uma manobra só. De cabeça erguida e com o surfe no pé, nossos talentosos guerreiros aprenderam a mensagem e deram um nó na resistência dos anglo-saxões à nova tormenta que se formava. Jordy Smith, Julian Wilson e John John mostraram aos donos das regras que os aéreos também podiam valer pontos que eles garantiriam a continuidade da hegemonia loira. Mas, paralelamente, os periféricos sul-americanos melhoraram suas linhas, cravaram as bordas na água e aumentaram a altura dos aéreos para impedir que novas “manobras” os tirassem do pódio. Ganhamos inclusive o importante apoio do mercado, que viu um produto de marketing nascer nas areias e na água salgada de um país de 200 milhões de consumidores.
Finalmente somos o país a ser batido. Transformamos um esporte individual em um coletivo. Forçamos a mudança das regras, mudamos os conceitos, quebramos paradigmas. Nossos atletas competem apoiados por uma verdadeira multidão nas areias e com as famílias nos camarotes em todos os eventos. Causamos incômodo e desconforto à estabilidade de décadas e continuaremos assim. O capitão Mineiro e sua Tempestade de Elite têm sangue nos olhos e lutarão até o fim de suas baterias para manter o caneco em casa. Na frente dos computadores ou nas areias das praias de todo o mundo acompanharemos e torceremos. À moda brasileira, com muito barulho e emoção.