Surf x política em Saquarema

Clique aqui e confira um vídeo com os talentos da nova geração de Saquarema Gustavo Fernandes, Leandro Bastos e Eduardo Rosenval, no último dia 15/04, na praia da Vila. (Por Rosenval Rolins)

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Comandar uma associação de surf não é exatamente um mar de rosas. Que o diga o presidente da Associação de Surf de Saquarema (RJ), Luis Antônio Santos Silva, e seu diretor financeiro, Marcelo ?Parceria? Vieira de Morais. Há um ano e meio nos respectivos cargos, os dois vêm conseguindo resultados expressivos, mas não tendo sido fácil.

?Nossa maior dificuldade é que sempre dependemos muito do dinheiro público, o qual nem sempre obedece aos prazos estabelecidos. Quando buscamos apoio nas pousadas e no comércio local para os eventos, muitas vezes temos de dar garantias do nosso próprio bolso porque o dinheiro da Prefeitura não é liberado no prazo previsto?, conta Marcelo Parceria, responsável pelo departamento financeiro da entidade.

Apesar de ser considerada a capital do surf brasileiro, ironicamente a comunidade local de Saquarema nem sempre apoiou esse status. Isso fica fácil de compreender se levarmos em conta que a maioria dos líderes da cidade não têm envolvimento com o esporte, considerado um invasor pelos mesmos.

Quando você olha para as lideranças políticas do local, você não vê o esporte representado na mesma proporção que ele o faz pela cidade. Por muitos anos não houve, por exemplo, um representante do surf na Secretaria dos Esportes.

Luís Antônio, ?Múmia? para os íntimos e ?Parafuso? para os colegas de trabalho nas plataformas de mergulho onde é supervisor, conta que dos últimos 10 anos, esse é o momento de maior entrosamento entre a Prefeitura e a comunidade do surf. Segundo ele, o atual prefeito Antônio Carlos Perez ?comprou? a idéia de que o surf é fundamental para o desenvolvimento da cidade.

Vale lembrar que ele ganhou um empurrãozinho bem grande depois de ler um relatório da Flumitur, entidade que coordena o turismo na região fluminense, sobre o potencial turístico da Região dos Lagos. Esse relatório afirmava que a única opção de crescimento dessa cidade, de mais de 300 anos de idade, seria explorar ao máximo seu potencial ?surfístico?.

#Apesar de parecer algo óbvio, a relação entre as lideranças locais e o surf sempre foi muito frágil. Para se ter uma idéia, há um ano um jornal local defendia a tese de que o ?título de capital do surf? era prejudicial para a cidade e que ela deveria partir para outras potencialidades, só não dizia quais (ok, a cidade tem várias outras opções de ecoturismo, mas desprezar o surf seria no mínimo um desperdício).

Para entender melhor Saquarema, o visitante deve lembrar que toda aquela região norte fluminense sempre foi marcada por oligarquias, por formas de gestão publica onde, a exemplo de centenas de outras cidades no Brasil, a Prefeitura é vista como cabide de empregos de muita gente, em um local onde há poucas ofertas de trabalho na iniciativa privada.

Folhas de pagamento inchadas acabam absorvendo a maior parte da verba do orçamento, apenas para garantir o salário dos funcionários que lotam as dependências da Prefeitura e que acabam tornando lento o andamento de processos importantes.

Isso acontece pelo Brasil afora e em Saquarema não é diferente. E ai do prefeito que se meter a mexer nesse vespeiro… Afinal, quem não se lembra daquele conselho antigo: ?Filho, vire funcionário público, garanta seu emprego e fique tranqüilo para o resto da vida.?

Por mais que o atual prefeito de Saquarema apoie o surf e entenda seu potencial, os processos de liberação de verba não podem escapar dos trâmites padrões dentro da prefeitura, e é aí que a coisa pega. Afinal, a verba que irá para a associação de surf é para honrar compromissos com empresas, compromissos esses que tem data certa para serem pagos.

É nessa hora que muitas vezes nossos heróicos comandantes da associação de surf local têm que ?botar o deles na reta? e lançar mão de garantias pessoais para que as coisas funcionem e os campeonatos aconteçam.

?Muitas vezes percebo que a confiança do empresário que vai patrocinar o evento está nas pessoas que dirigem a entidade e não na entidade em si. Se essa pessoa amanhã vai embora, o apoio do empresário vai junto?, testemunha Luís Antônio, que tem colhido vitórias em seu trabalho.

A excelente parceria com a rede regional de televisão Alto Litoral, transmissora local da Rede Globo, tem trazido um grande impulso ao circuito local. A Copa Alto Litoral, realizada recentemente, foi um grande sucesso e produziu um fato inédito em Saquarema: 80 competidores ficaram de fora do total de 177 vagas disponíveis.
Talentos de todas as regiões próximas vieram participar do evento, que teve grande cobertura de mídia. As pousadas lotaram e, como sempre, gerou-se receita para a cidade.

É verdade que a parceria com a TV Alto Litoral aumentou em muito a capacidade de trabalho da associação, principalmente no que depende de mídia e telecomunicações. Essa empresa tem se mostrado uma excelente parceira, apoiando inclusive diversos talentos locais. A cidade conta também com um jornal local, o Imprensa Livre, que enxergou o óbvio e passou a apoiar abertamente o esporte, tendo criado um caderno especial de surf intitulado ?Marola?.

A chegada da etapa do WCT à Saquarema representa uma vitória em diversos sentidos. A primeira, e talvez maior, é a de credibilidade. ?Estamos nos preparando para receber mais de 700 pessoas na cidade entre competidores e mídia, sem contar com o público que virá assistir?, diz animado Luís Antônio.

?Estamos muito honrados com esse voto de confiança, pois sabemos que a cidade tinha uma fama meio negativa quanto à organização, porém, com o apoio que temos recebido da Prefeitura temos tudo para realizar um evento histórico?, garante Marcelo Parceria.

#Ainda sobre o WCT, Luís Antônio complementa: ?Temos feito um trabalho de conscientização com todos os empresários da região e estamos montando a infra-estrutura de logística, através da Prefeitura, necessária para um evento desse porte?.

Vários campeonatos vêm por aí este ano, como o Super Surf, o circuito da FESERJ, entre outros. Cabe observar que toda essa atividade dos dois dirigentes é, na maior parte das vezes, não remunerada e o que entra acaba sendo usado para quitar as dívidas para que tudo funcione a contento.

A terra do surf já nos revelou o talento de Raoni Monteiro e poderá trazer outros, como Lucas Vasconcellos, de 18 anos, integrante da equipe carioca que disputa o circuito brasileiro, e Yan Guimarães, que aos 11 anos deu um show de Tow-in em Kon Tiki, no Peru, puxado pelos respeitadíssimos locais peruanos Luis Fernando, o Luisfer, e seu irmão, que ficaram impressionados com o talento do moleque.

A proposta de trabalho da associação agora é construir parcerias com a iniciativa privada, a exemplo do que acontece no futebol, fechando contratos de maior duração e ligação entre atleta e marca. ?Temos um projeto de médio à longo prazo e estamos à procura de empresários comprometidos com o esporte que queiram nos apoiar?, explica Luiz Antônio. Alguém se candidata?

Para mais informações mande mensagem para a Associação de Surf de Saquarema no e-mail: [email protected] .

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