“Não basta ter o que contar, é preciso ter aquele perverso impulso de querer contar”. Mantra jornalístico atribuído a Demonicos Escrithorus – entidade maligna que possuía alguns seres escolhidos aleatoriamente através da configuração das cinzas de ossos humanos jogados numa fogueira aromatizada com romãs. Os membros da tribo nômade acreditavam que os crimes cometidos contra seus valores e costumes em vidas passadas deveriam ser expurgados a fim de abrir os caminhos e prover colheitas e marés abençoadas com cardumes – segundo depoimentos orais pouco confiáveis. Mesopotâmia, séc XII A.C.”.
Encontrei o Rory Russell, um dos reis de Pipeline da década de 70, semana passada, na festa da Lightning Bolt. Contei a ele que, ao botar para baixo numa onda de 8 pés em Pipe, em 1975, ouvi um grito vindo de trás do pico. Rory vinha a milhão. Não deu para tirar. Acabamos surfando juntos aquela massa d´água até o final.
Ele aceitou as minhas desculpas tardias – não lembrava de nada – e, rindo muito, disse “no problem, you were a wildcard!”. Pelo menos foi o que eu entendi no meio da barulheira das vozes e do som alto! Wishfull thinking, Marcelo L.? Claro que, na época, o clima não foi tão ameno, mas o que importa? Algumas décadas = alguns segundos = alguns milênios, e logo seremos todos pó de estrelas.
O que mais me impressionou na festa, além da felicidade de encontrar literalmente dezenas de amigos que não via, respectivamente, há dois dias, três meses, quatro anos, doze anos, vinte e trinta anos, foi o mantra recorrente cantado por vários, de que “o mercado não tem mais aquela essência, é só business”.
Que saudades quando se fazia com o coração e ainda se ganhava dinheiro, certo, companheiros? O equivalente mercadológico a se fazer sexo com amor. Quando não havia separação entre as partes do ser humano – corpo, mente, espírito e bolso. Entre o ser e o humano. Esse é apenas um reflexo do atual estilhaçamento das psiques, do Homem esquartejado.
A violência, as drogas, o desrespeito em relação aos outros e a si mesmo é a ponta do iceberg social tornado vulcão? Um cidadão desesperançado não vê saída para o caos espiritual em que nos metemos. Era bom quando o material era a óbvia consequência do espiritual, não? Essa equação invertida não funciona ou é apenas menos óbvia? É algo escrito nos logaritmos das constelações?
Quem cria as coisas novas e os mercados é a casta dos “guerreiros”, quem administra a sua continuidade é a casta dos “comerciantes” (ver definição das quatro castas e seus atributos, segundo a astrologia védica, no próximo capítulo). Do ponto de vista da astrologia védica, a mais antiga do mundo, esse estado de coisas faz o maior sentido. E, claro, nada acontece que não deva acontecer. Senão, vejamos:
A casta dos guerreiros tem a missão de lutar, de desbravar e de defender o espírito. A casta dos comerciantes tem a missão de ganhar. As duas estão certas. Julgamento de valor é mais um filho bastardo e ingrato do mito cultural. As missões são complementares. Nenhum membro pode ir contra à sua índole, contra o destino para o qual foi encaminhado.
Não é prioridade para o guerreiro a manutenção da conquista, mas simplesmente a conquista, o desbravamento de caminhos, físicos e espirituais. No rastro, sempre segundo a astrologia védica, vêem os comerciantes, que têm o dom de fazer germinar bens materiais dessa abertura, dessa luta empreendida anteriormente, gerando recursos para a sociedade.
São os administradores do legado. Não é prioridade para o comerciante reconhecer ou compactuar com qualquer espécie de luta que não vise ganho material. Se não existe uma possibilidade de ganho ele não entra. Não desperdiça seu esforço com algo que não diz respeito aos seus objetivos, à sua natureza. Seu caráter inato clama pela plenitude que o caminho a que foi destinado promete.
O contrário não teria sentido, seria o mesmo que um surfista treinar para ser campeão de bocha. O guerreiro entra numa empreitada pelo ganho ético. O guerreiro cria, o comerciante materializa os ganhos. Claro, é frustrante para os guerreiros ver sua criação sendo “deturpada”, mas é o caminho natural das coisas.
Na verdade, não houve deturpação, houve o cumprimento de um dos ciclos da vida, como o do nascimento-vida-morte. Embora, eu, pessoalmente, não seja fã desse estado “excessivamente” – o que é excessivo, afinal? – comercial, reconheço que é inevitável, uma espécie de lei cósmica. Existem mais duas castas: a dos operários, e a dos brâmanes, ou sacerdotes / intelectuais, que não vem ao caso – preguiça e espaço -, nesse momento, explanar com mais profundidade.
O médico inglês, Dr. Watkins, que cuidava dos pilotos da Formula 1, na década de 1990, muito amigo de Ayrton Senna, depois da morte do piloto austríaco Roland Ratzenberger, disse para Senna: “Vamos parar com isso, vamos pescar”. Senna respondeu: “Eu não posso parar”. Exatamente. O guerreiro não pode ir contra o seu destino, mesmo que ele seja fatal. Seja na curva Tamburello, seja nos corais de Pipeline, seja na planície arenosa de Maratona.
A morte é um componente fluído e aceito na trajetória de muitos guerreiros. “A morte faz parte da minha vida”, como diria Senna. Andy Irons morreu. Kelly sobreviveu e venceu. Quatro dias de diferença entre a morte e a glória eterna. Qual a diferença entre as duas essências? Existe diferença do ponto de vista de valor entre as duas experiências? Se cada um cumpriu o seu destino, certo está. “O certo é fácil”.
Qual a mensagem embutida? Teria sido um destino pior para esses guerreiros uma velhice sem novos desafios? Porque viver até os noventa é melhor que morrer aos trinta e quatro? O fim não é necessáriamente triste. A tristeza diante da morte é um axioma cultural. É aceito sem provas. Em Bali os caras fazem cremações e festas. É uma celebração. Felicidade. O Homem encarnado transcendeu a sua condição corpórea e voou para a outra dimensão. O que tem de triste nisso?
(continua)
Sidão Tenucci é escritor e surfista há 42 anos, viajou por 50 países. É diretor de marketing da OP – Ocean Pacific. Mesmo tendo consciência da efemeridade de tudo, continua.