Soul Surf

Surf, Surf, Surf – Parte I

 

Pegar um tubo perfeito, maior momento do surf, numa onda como Pipeline, é quase um orgasmo. Felipe Cesarano que o diga. Foto: Divulgação.

Ponderemos, caros internautas do Waves: esse site possui um número respeitabilíssimo de acessos/dia, está no “éter” – como diriam os antigos radialistas – desde tempos desmemoriados, renova suas matérias diariamente com furiosa aceleração, conta com cinco colunistas fixos e diversos outros esporrádicos, três fotógrafos residentes com IPTU e muito mais que contribuem com freqüência cardíaca de atleta, enfim, um time extenso e profundo no conhecimento da matéria.

 

Durante sua história visitou praticamente todos os países e planetas onde existem ondas – como nômade romântico, quero acreditar que nem todas as fronteiras foram desvirginadas. Todas essas mentes e corações concentram-se em discernir sobre um único foco: o surf. Alguns colegas meus, lá vão algumas décadas, da faculdade de jornalismo da USP, surpreendiam-se com o fato de eu ser surfista, e não imaginavam que alguém poderia ter algo a dizer sobre um assunto que eles consideravam não só irrelevante como auto-explicável. Fazemos isso durante décadas, diariamente, e, permitam-me dizer, nem sempre com redundância.

      

Pois bem, o usuário mais atento pode argumentar: “Mas como?!: não só o surf, mas todos os assuntos são inesgotáveis, todos os esportes têm substância para análise!” – haja vista as eternas mesas-redondas de futebol! Mas como me disse um cara que reconheci como bem sensível e inteligente, o astrólogo da Folha de São Paulo, Quiroga, depois da minha empolgação tentando o impossível, explicar a magia do surf: “Mas o surf é, então, a loira?”.

 

Em minha opinião, a morena também, muitas vezes a ruiva, a cafuza, a mulata e até a japonesa (o Brasil é o único país do mundo onde japonesa tem bunda – nada como uma irrelevância para apimentar o texto).

 

Mas, o mais importante: O surf é uma entidade misteriosa – possível e desejavelmente feminina, e que tampouco conseguimos apreender. Os mais esotéricos levariam ainda mais longe a dúvida de um valor exclusivo: Deus está em tudo o tempo todo. Tudo é passível de contemplação infinita. Será?

 

Sem querer hierarquizar o surf frente a outras atividades (falaremos sobre as castas nos próximos capítulos), mas olhando friamente para o calor e a luz que as atividades humanas produzem – muito calor é igual a pouca luz -, numa dissertação bem limitada, o surf dá, com relativa certeza, mais pano para a bermuda que a maioria. Por quê? Vou tentar resumir com perguntas em forma de afirmação, a fim de evitar décadas de busca e desnecessários googles:

 

1)  Porque é de uma beleza sobrenatural.

 

2)  Porque, ao contrário dos outros esportes, é maior que nós.

 

3)  Porque é uma das atividades humanas que se amálgama mais profundamente à natureza. É a própria natureza.

 

4)  Porque diz ao espírito humano de uma forma sincrônica e harmoniosa, senão não estaria aí, dessa forma, com esse volume, com esse vigor, com essa continuidade, com essa abrangência, com essa onda.

 

5)  Porque, se não substitui o orgasmo, pelo menos o complementa – se é que não é um orgasmo de outra natureza-, ao mesmo tempo em que evita os conflitos de relacionamento.

 

6)  Porque, se a coceira é o limiar mais baixo da dor, e a risada é o limiar mais baixo do orgasmo, o surf é o limiar mais baixo do samádhy (estado de graça divino).

 

7)  Porque, mesmo num mar com lixo boiando, como é cada vez mais comum, ainda há espaço para o devaneio crístico, para que possamos transcender, nem que seja por um milionésimo de segundo, tornando-nos finalmente quem realmente somos.

 

8)  Porque o surfista é visionário, é o precursor da consciência ecológica, considerando que a ecologia é o seu habitat não só físico como espiritual. Numa trajetória migratória previsível, que vem se repetindo, e que deveria ser mais bem estudada pelos antropólogos: os surfistas encontram os lugares remotos, as mulheres mais lindas os seguem, atrás delas vem os playboys, atrás desses as putas e os traficantes, aí vem o vendedor de mate, logo surgem as mulheres feias, um cara que conserta pranchas, em seguida outro vendedor de mate, depois a polícia, os condomínios, a vovó, o vovô, os netinhos, as babás, as favelas, mais um vendedor de mate, e, em seguida, o McDonald´s, o Kentucky Fried Chicken e o Pizza Hut. Está fechado o ciclo da vida.

 

(continua)

 

Sidão Tenucci é escritor e surfista há 42 anos, viajou por 50 países. É diretor de marketing da OP Ocean Pacific. Percebeu que a amplitude da paisagem interior dá de 10, mas que há de receber o suporte de uma dieta balanceada e de um mate eventual.

 

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