Muitas águas

Surf na terra de… Fidel Castro?!

Para continuar com nossa proposta de oferecer aos leitores do Waves uma página recheada de colunistas de primeira, falando sobre os mais variados assuntos, temos o prazer de apresentar o mais novo integrante deste time, o fotógrafo paulista Motaury Porto.

 

Com vários anos de estrada, tendo percorrido o mundo atrás das melhores ondas, Motaury mostrou, através das lentes de suas câmeras, uma realidade diferente e sedutora do mundo dos esportes, em especial o surf, da moda e da natureza em geral.

 

Entre os veículos para os quais trabalhou e colaborou estão as revistas Fluir, Hardcore, Inside, Boards, Alma Surf, Line-up, Trip, Aloha, 

Editora Abril, entre outras, além de ter feito diversos editoriais de moda e anúncios publicitários para diferentes marcas.

 

Segundo ele, seu envolvimento com a fotografia começou em 72, quando tinha apenas 8 anos de idade, mexendo nos equipamentos da mãe dele.

 

Com o passar dos anos, sua paixão pela fotografia só aumentou, e a primeira exposição, sobre o Pantanal Mato-grossense, recebeu prêmio e teve uma imagem exposta na “I Bienal da Fotografia de Natureza Brasileira”, tudo isso aos 15 anos de idade.

 

Em sua primeira participação no site Waves, Motaury recorda uma das grandes aventuras de sua carreira, em busca de ondas desconhecidas na Ilha de Cuba, um dos últimos redutos comunistas do mundo.

 

Para conhecer mais sobre o trabalho e a vida do fotógrafo, acesse o site do Motaury.

 

Parece que histórias de vida são como vinhos, as mais antigas são as melhores. E não poderia ser diferente com algumas de minhas aventuras mundo afora. Esta é da “safra” de 1987. Vamos lá…

 

Surfar e viajar são verbos que se conjugam em uníssono, e naquele verão parti com meu amigo Mike, fabricante das pranchas Summer Birds, para uma longa viagem cujos destinos incluíam Califórnia, México, Costa Rica, Panamá, Porto Rico e… Cuba. Cuba? Pois é…

 

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Na minha fissura de descobrir novos horizontes cismei que poderia ter chances de dar onda, e assim eu teria um furo jornalístico fazendo uma matéria inédita, uma vez que Cuba nunca havia sido retratada em uma revista de surf (e creio que ainda não foi).

 

Cheguei a passar nas redações das revistas norte-americanas Surfer e Surfing, onde peguei alguns filmes de slide (Kodakchrome), e deixei os editores de fotografia de ambas, Jeff Divine e Flame, respectivamente, empolgados com nossa missão, já que os americanos não podiam pisar em território Cubano. Mas as coisas não seriam tão fáceis assim.

 

Após embarcarmos da cidade do México, finalmente chegamos em Havana, capital da terra de Fidel Castro. Já pelas condições da aeronave podíamos imaginar o que viria pela frente.

 

Imaginem que na época o turismo era raríssimo em Cuba e as suspeitas de esquerda rondavam qualquer turista que estivesse fora de algum grupo fechado. Quem dirá dois camaradas cabeludos, com pranchas e vários equipamentos…?

 

A primeira decepção foi quando nos disseram que não poderíamos permanecer na Ilha e nem mesmo sair do aeroporto. Não adiantou nada dizer que éramos surfistas atrás de ondas em Cuba e que não molestaríamos o país de Fidel.

 

Aliás, surfistas em Cuba? Seria isso uma piada? As águas tranqüilas e azuis da Ilha são o paraíso para mergulhadores, e não para surfistas. Decidiram por nós que iríamos embora no primeiro vôo. Para nossa sorte era sábado e apenas na segunda teria o tal vôo.

 

Mas, teríamos que passar o final de semana dormindo no aeroporto mesmo. Após um milagre, resolveram nos dar 24 horas de permanência e aí fomos descobrir um pouco daquilo que Caetano cantava em verso e prosa.

 

Na verdade, dizer que Cuba seja aqui, conforme Veloso pregava, foi algo que eu e o Mike concluímos ser a mais infeliz das opiniões.

 

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Realmente Cuba teve seus méritos em algumas áreas sociais, mas aquilo que mais notamos foi a total manipulação do Estado na vida das pessoas, intervindo deliberadamente na liberdade das mesmas – condição que todo ser humano anseia em seu espírito.

 

Assim que botamos o pé para fora do aeroporto, alguns motoristas de táxi quase nos “devoraram” com taxas altíssimas em dólares. A saída? Acabamos por alugar um Lada (lembram dele?) na Havanautos por, acreditem, US$ 100  a diária!

 

Mike, a esta altura, estava com uma tremenda febre e, caso achássemos as ondas, quem surfaria? Saímos em direção a Havana e parecia que estávamos na Europa de décadas atrás, em tempos de segunda guerra, com aquelas scooters, motos com assento lateral para o passageiro.

 

Não sabendo direito qual direção tomar e vendo que nossas chances eram praticamente nulas para fazer uma matéria, tocamos para Varadero, um balneário com alguns recém-instalados hotéis. Íamos olhando pela costa em busca de ondas.

 

Chegamos a ver algumas bancadas, mas com ondas minúsculas. Nisso, o dia já ia alto e a fome apertava. Mike ainda ardia em febre e acabamos indo atrás de um almoço.

 

Acabamos rodando o dia todo de carro e observando a organização da sociedade em Cuba. Conversamos com várias pessoas, e em seus semblantes se via tristeza e falta de esperança. Falar mal de Fidel? Poucos ousavam, mas era notório que o tempo mostrava que nem tudo era como eles esperavam que fosse.

 

Acabamos voltando para dormir em Havana, afinal de contas nossas 24 horas já se esgotavam. Na capital Cubana vimos muita pobreza, além de drogas e prostituição em plena luz do dia.

 

Na hora de ir embora, como estávamos com excesso de bagagens, o funcionário da companhia me falou: “Olha, eu te libero os quilos, mas pega este dinheiro aqui e compra uma camisa do meu time de futebol americano naquela tenda (free-shop)”.

 

Quando você estiver dentro da aeronave eu apareço e você diz que está me dando um presente. Ele estava tenso, pois estava fazendo algo “ilegal” e “perigoso”: comprar uma camisa do time que gostava.

 

Assim que ajeitávamos as coisas no avião, ele entrou e falei: “Olá amigo, tengo um regalo (presente) para usted”. Devolvi o dinheiro dele dentro da camisa. Da janela do avião meu mais recente e último amigo cubano acenava para mim.

 

Fiquei pensando durante todo o vôo sobre nossa aventura. De fato, não havíamos feito a matéria em Cuba, mas nas 24 horas que passamos ali conhecemos um povo esperançoso, em busca de felicidade, de liberdade, tal qual um surfista busca quando desliza sobre as ondas…

 

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