Fuad Mansur, 51 anos, à vontade em V-land, Hawaii. Foto: Bruno Lemos / Lemosimages.com.

Dono de um dos mais belos estilos do longboard, Fuad Mansur, 51 anos de idade e 40 de surf, foi um dos primeiros surfistas brasileiros a vir para Hawaii no fim da na década de 70.

 

Clique aqui para ver as fotos

 

De volta ao arquipélago, 20 anos depois, ele conta um pouco de sua história.

 

Quando e como você começou a surfar?

 

Foi no verão de 1966 para 67, em Santos, no canal 3. Tinha uns 10 anos e a galera surfava com umas pranchas chamadas “caixa d’água”.

 

O lendário santista foi um dos primeiros brazucas a surfar no arquipélago havaiano. Foto: Arquivo pessoal.

Elas vieram depois da madeirite e essas pranchas também eram conhecidas como “caixa de fósforo”,  pois não tinha borda nem envergadura.

 

A quilha era chamada de bolina. Só podíamos surfar por uma hora pois entrava água. Então, tínhamos que sair na areia para abrir uma rolha que havia na rabeta da prancha para sair a água de dentro.
 
Como o surf era visto naquela época? Quais as principais dificuldades que você enfrentou?
 
Na década de 60, Santos era como a Califórnia hoje em dia. Havia muitos jovens americanos lá, pois os Estados Unidos estavam em guerra com o Vietnã. Cubatão também era um grande pólo industrial.

 

Então, muitos americanos moravam no Brasil com suas famílias e filhos para não irem para a guerra. Havia muitos surfistas entre eles e essas pessoas trouxeram a Santos o ‘aid back style’, uma expressão americana que significa em primeiro lugar a lei da consciência tranqüila, a lei da inércia, da preguiça e do menor esforço.

 

No surf esse era também o estilo ?laid back? vindo do Sul da Califórnia, usado também por Gerry Lopez e Bill Hamilton, Sam Hawk, entre outros que surfam fazendo aquele famoso “soul arch”.

 

Nessa época, éramos vistos exatamente como preguiçosos e vagabundos de praia. Nós só queríamos viver a vida da melhor maneira possível, surfar e relaxar. Como vim de uma família estrangeira de intelectuais, minha mãe tinha medo da ditadura militar que ocorria na época.

 

Então, ela preferia que eu ficasse na praia sem fazer nada do que me envolver com a União Nacional dos Estudantes (UNE), alvo dos militares. Por isso, abandonei a escola na segunda série do ginásio com total apoio da família.

 

Foi nessa época que fui morar no Rio de Janeiro onde montei uma loja na galeria Arpoador, junto com meu irmão Wadir Mansur, a Mansurf, em 72. Tivemos o privilégio de viver toda aquela época do Píer de Ipanema.

 

A única dificuldade que passamos foi bem nessa época, pois a loja não vendeu nada durante um ano inteiro, pois o surf não era moda. Mas, em 74 o surf explodiu no Rio de Janeiro e as coisas melhoraram.

 

##

 

Mansur à vontade no North Shore. Foto: Bruno Lemos / Lemosimages.com.

Quando e por que você decidiu vir ao Hawaii pela primeira vez?

 

Sempre tive muita vontade de ir ao Hawaii. No final dos anos 70, provavelmente em 79, consegui ir e fiquei por dois anos com minha primeira esposa. Tinha acabado de casar em Londres e decidimos ir para o Hawaii.
 
Como era o North Shore naquela época. Muito diferente de hoje?

 

Naquela época o surf estava passando por uma mudança, pois os surfistas apenas deslizavam nas ondas com um belo  estilo. Não rolava muita manobra, pois o estilo era o mais

Ao lado do amigo André da Montanha. Foto: Arquivo pessoal.

importante.

 

Mas, bem na época que cheguei veio também um pessoal da Austrália e da África do Sul que praticamente revolucionou o esporte, abolindo o estilo e introduzindo a agressividade de manobras no ponto crítico da onda.
    
Fora d’agua os gringos não tinham muita liberdade. A pressão local era muito forte, bem mais do que hoje em dia. Tinha um tal de Timmy Carvalho que aterrorizava todo mundo e botava moral na área.
 
Quais surfistas arrebentavam? Você lembra de algum fato marcante?

 

Me lembro de ter surfado um mar em Sunset muito grande, tinha talvez uns 18 pés. Tinha um australiano nesse dia que surfou a maior onda do dia, de backside a onda explodiu nas costas dele. Depois disso não o vi mais. Foi assustador.

E entre os brasileiros?

 

Sem dúvida o que mais me impressionou foi o Renan Pitanguy. Me lembro de ter surfado uma onda junto dele em um Pipeline gigante. Achei que estava no pico e quando olhei para trás ele estava dentro do buraco, muito deep.

 

Aí já era tarde demais para eu sair da onda e os dois beijaram o coral. Depois disso ele quis brigar comigo, ficou uma semana inteira me chamando para briga e olha que nos éramos bons amigos. Imagina se não fosse, mas graças ao  Broca, do Rio de Janeiro, não rolou nada pois ele amenizou a situação.
 
Como está sendo esta temporada?

 

Vim para abrir  uma sede da minha fábrica de parafina Fu Wax, aqui no Hawaii. Faço parafina no Brasil desde 73 e agora montei uma sociedade com uma americana chamada Monique Fairfax e o grande amigo André da Montanha.

 

Esse é meu principal foco, mas estou conseguindo surfar quase todos os dias em vários picos diferentes. A primavera aqui no Hawaii e sem dúvidas muito boa de onda e a água se parece com uma esmeralda líquida. O Sol nesta época do ano fica um pouco atrás das ondas dando uma coloração incrível. Só posso agradecer a Deus por estar aqui.
 
Como você vê o surf hoje em dia? É muito diferente da época em que começou a pegar onda?

 

O surf, sem dúvidas, parece ser até outro esporte, pois envolve muitas competições, muita gente surfando, manobras ultra-radicais etc.

 

Mas, está muito legal também. Quando comecei o meu pai não surfava, meu avô não surfava. Hoje em dia temos famílias inteiras que surfam, com avós, pais, filhos e netos. São várias gerações na água e isso é muito legal. O surf antigamente era alternativo, underground. Hoje é uma atividade familiar, um esporte reconhecido e não mais descriminado. 
 
Deixe uma mensagem para a nova geração que vem por aí.

 

Saúde é o maior bem que temos. Então, temos que cuidar muito dela. Nós somos o que comemos e a alimentação é muito importante. Devemos comer muitas frutas, verduras, vegetais, fribas. Isso é muito importante para quem surfa.

 

Outra coisa é o pulmão e a apnéia. O ideal é tentar desenvolver o pulmão antes dos 15 anos e não usar drogas, pois o caminho é o pior possível. Não tem nada a ver e é muito prejudicial à saúde.
 

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)