Na primeira em vez que pisei meus pés no território havaiano, percebi alguns fatos que, por conta das diferenças culturais e tradições, chamaram muito a minha atenção.

Passei por Waimea, o lugar mais desejado por mim, e, como o vôo chegava no fim da tarde, só consegui ver, do fundo da track do meu amigo Lapo, que foi nos buscar no aeroporto, a penumbra da bonita baía, emoldurada pelas montanhas, e seu contorno de pedras.

Para mim, eram importantes a tradição e a majestade daquele lugar incrivelmente belo, naquela época o anfiteatro supremo do big surf mundial.

Até então, não havia aparecido para a mídia nenhum outro pico de ondas grandes, com exceção de Makaha e os outsides reefs do North Shore e Kaena Point, que acima dos 30 pés eram insurfáveis aquela época, ou o Unridden Realm.

Outro fator muito importante era o respeito pelo mar e pelas ondas. Se o cara desse mole dentro dágua e fosse ?queixão?, como a gente falava na época, apanhava mesmo. Era a máxima: respeite para ser respeitado.

Além disso, certa vez estava em Sunset Beach e o mar estava subindo muito rápido. Naquela época não havia internet, o dia tinha amanhecido com meio metrinho de onda, mas já tínhamos de 3 a 4 metros de onda sólidos.

A maior parte da galera estava indo para a cidade e vi chegar um coroa que devia ter naquela época por volta de 55 anos. Ele tirou a sua prancha enorme, sem cordinha, de dentro do carro e, apesar de a essa altura o mar estar enorme, beirando os 5 a 6 metros, ele se atirou na água e foi direto ao outside.

O nome dele: Peter Cole, que até hoje, aos 76 anos, surfa em Sunset com 3 a 4 metros sólidos com a sua prancha grande, sem cordinha, e sua velha T-shirt. Nesse mesmo mar de 5 a 6 metros, em Sunset, vi Phylis Dameron, uma bodyboarder francesa que, assim como Peter Cole, surfava Waimea e botava pra baixo.

Ano passado, em Waimea e Sunset, vi coroas na faixa dos 50 anos com gunzeiras de 10 pés; garotas, inclusive japonesas kamikazes, saindo do mar com pranchas partidas ao meio só para fazer uma foto, e garotos, também novos, com pranchas pequenas e já dentro dágua no maior gás.

Eu que, quando nos meus 20 e poucos anos achava que aos 30 não estaria mais surfando, quebrei todos os meus paradigmas e aos 53 continuo na ativa, correndo campeonatos inclusive com a mesma gana, e sonhando em ir de novo e todo ano ao Hawaii.

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No Brasil, temos o Sr. Afonso Freitas, pai do longboarder Marcelo Freitas, com 85 anos, e uma geração, na faixa dos 50 e poucos aos 60, do Morongo, Rico, Daniel Friedman Otavio Pacheco, John Wolthers, João Leite, Pedroca, Roberto Teixeira, Dadinho, Chico Paioli, Zé Paioli, Ângelo Giló, Carlão Moraes, Dimitrios Levendakos, Carlos Mudinho, Fredão, Paulo Sefton, Kadu Moliterno, Cly Lolie, estes dois últimos de pranchinha, além de outros. Todos com muito gás e quebrando as ondas.

Os havaianos Clide Aikau e Titus Kinimaka, ambos acima dos 50 anos, ainda são convidados ao Eddie Aikau e se jogam. Eles também foram convidados para correr o mundial de tow in.

Até quando vamos ter o Burle e o Eraldo ? dois dos maiores big riders do planeta – em ação, pegando as grandes? Com certeza por muitos anos. Com toda a saúde e disposição que eles têm, podem facilmente chegar aos 80 anos surfando.

Então, qual será o limite? Ele não existe. Está em nossas mentes. Woody Brown, aquele mesmo que estava com Dickie Cross quando Sunset começou a fechar e eles resolveram sair por Waimea três quilômetros praia abaixo, culminando com a morte de Dickie Cross em 1943, continuou surfando até os 92 anos de idade.

E qual o segredo? Diz o patriarca do clã Paskowitz o Mr. Dorian Paskowitz que ele não sabe ao certo, mas que, para variar, todos os longevos no surf têm uma vida regrada: Peter Cole, Woody Brown, Ken Bradshaw etc. No caso especifico dele, diz que nunca gostou de bebedeiras, drogas, remédios, farras, etc, e que a partir dos 50 eliminou açúcar e manteiga.

Aí, perguntaram a ele qual a graça de viver desse jeito? Ele respondeu de bate pronto e com muita sabedoria: ?Muito surf e muito sexo, pois sempre fui muito bem casado, graças a Deus, e com a saúde que tenho compareço quase todos os dias?.

Detalhe, ele respondeu a essa entrevista aos 85 anos, enquanto se preparava para uma corrida de canoas havaianas em Waikiki, no Hawaii. Em minha modesta opinião, e vou aqui acrescentar: o surf ajuda muito também a manter-nos saudáveis e jovens, tanto física quanto espiritualmente. Então, viva o surf! Espero ir até os 90, como Mr. Woody Brown, Mr. Dorian Paskowitz e Mr. Afonso Freitas no Brasil.

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