Opinião do internauta

Surf é educação

O aprendizado se aproxima em séries e quanto melhor a onda maior o risco. Foto: Aleko Stergiou.

Começo esse texto com um complemento à heptologia de Sidão Tenucci, que eu li na íntegra. A pergunta ?Surf é cultura?? é sempre proeminente.

 

Como também sou surfista, faço de suas palavras as minhas. Porém, eu consigo chegar a uma conclusão pessoal, criando assim, um novo subtítulo para meu texto: ?Surf é cultura? E também educação?.

Aqui pinto minhas próprias idéias, pode ser pelo momento que vivo ou pelos momentos que já vivi. Enfim, sem mais delongas, percebi que meus dias de surf não eram momentos para esquecer uma certa vida atribulada, e sim, para me mostrar o estilo de vida que devo conduzir.

Confuso né? Calma eu explico. Tudo começa com algumas fases que passei na vida, e olha que não foram tantas em duas décadas de vivência.

 

Toda vez que percebia uma nova fase recheada com um forte swell chegando, vinha aquela adrenalina, quem sabe até um medinho, coração ansioso para correr e molhar a cabeça na água salgada. Ah! Não pode ser tão fácil assim.

 

Surf é um esporte radical, gostamos de superar o insuperável, conquistar o inconquistável. É assim que começam nossos primeiros passos, passos árduos porém encharcados na vontade de conquistar aquele mar.

 

Não vou falar do passado, isso tende ao lirismo. Eu sei que ele merece, como o soul surf também, mas isto é outro contexto que não se adequa aqui. O contexto aqui é o dia-a-dia, ou seja, aqueles passos que citei nas frases anteriores, o de acordar cedo, se ajeitar antes do sol nascer, ir para o escritório, ligar o computador, checar o computador, pegar seu instrumento de trabalho, revisá-lo e sair à luta nas ruas da cidade, em busca do seu objetivo maior. Isso parece uma rotina de um homem de negócios, não?

 

Depende do seu ponto de vista. Imagine agora, acordar antes do sol raiar, ir até o computador e dar uma olhadinha no Wavescheck, conferir as ondas, buscar sua melhor amiga, a prancha, dar uma revisadinha na parafa e quilhas e sair pelas ruas da cidade em busca do mar, seu objetivo maior.

 

Eu sei que é uma visão simplista, talvez até irrelevante para alguns, mas de uma forma própria, eu consigo viver cada dia como se fosse mais um dia de surf.

Se você acha que terminou, está muito enganado. O surf é muito mais educação que isso. Para mim foi aqui que eu mais aprendi e ainda vou aprender. Depois de ler ?Dias de amor? do Jair Bortoleto nas colunas do Waves, alinhei meus pensamentos ao ponto de poder escrevê-los. Aí vai: ?Surf é amor?. Obrigado Jair.

 

Eu sei que minha interpretação é desviada da dele, na verdade acredito que no fim é tudo igual. Eu não falo diretamente do amor pelo mar, pelo estilo de vida surf ou pelo soul surf, e sim, do amor entre homem e mulher.

 

Existe coisa melhor que chegar em um lugar e de cara ser surpreendido em vê-lo. Uma cor refletida do sol, lisinho, a não ser por algumas ondas de formação perfeita, amedrontrador ao mesmo tempo que atraente.

 

Uma coisa dessas só poderia ter sido criada por Deus. Depis do contato visual é a hora de analisar, ver o crowd, a série, achar um canalzinho e se jogar de cabeça. Mais uma vez não pode ser tão fácil. Cadê a radicalidade? Quem conhece Teahupoo deve saber bem.

 

Quanto melhor a onda, maior o risco. Acho que é isso que nos faz surfistas. Depois de se jogar de cabeça, vem a fase mais dificil, mas também a mais viciante. Remar é uma fase em que se vê o bom surfista. A remada é a conquista em si.

 

Remada exige paciência e calma, temos que saber a hora de dar gás total e a hora de recuar. Fácil? Nada, não adianta. Mesmo sendo um exímio remador, altas ondas quebrarão sobre sua cabeça, mas esse é o preço, a batalha.

 

Pelo menos depois de toda essa arrebentação vem a tranqüilidade? Que nada. Agora é o momento decisivo. É a hora de movimentos certos, precisos, corajosos e ousados, a arte de dropar a onda. Se você remar muito ou rápido demais, vai tomar uma vaca e dependendo da vaca a bancada de coral é rasa, o que pode ser fatal.

 

Se remar de menos, a onda passa e você fica para trás. Se o posicionamento for errado, vem outro, pega sua onda e você fica com cara de haole. Se você remou certo, entrou na onda mas não levantou, a onda irá te jogar do lip.

 

Então a conquista é impossível, palavra certa para um surfista radical. Mas como alguns conseguem? Antes de tudo, ressalto que só quem ama de verdade aceita correr esses riscos. Então, agora chegou a hora de interagir com o mar, tratá-lo como um parceiro, como a pessoa mais importante do mundo, por que é assim que ele te faz sentir: a pessoa mais feliz deste universo.

 

Aí que você entuba a melhor sensação do mundo e sente uma coisa única: a vontade de ter uma sensação igual pela segunda vez, pela terceira, quarta, quinta, etc.

Agora eu volto à frase do Jair ?Surf é amor?, volto também à do Tenucci ?Surf é cultura? e quem sabe até a minha eu coloque aqui – ?Surf é educação?. 

 

Assim eu aprendi como levar a minha vida de uma maneira surf. Como mamãe diz, aprendizado bom é o aprendizado da vida.

 

Pena que às vezes esse aprendizado venha tarde e embrulhado em vários erros. Mas a vontade de conquistar o inconquistável ainda está viva e agora mais uma fase de swell forte se aproxima, estou  preparado para novos passos e remadas.

 

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