Espêice Fia

Surf camp em Floripa

No fim do mês de julho, Santa Catarina receberia um grande swell em meio a uma considerável frente fria. No mesmo período, estava marcada uma “clínica” de surfe em que eu participaria. O convite havia vindo do The Search House, um sofisticado “hostel” localizado na Barra da Lagoa, em Florianópolis.

Durante uns dois meses divulgamos o evento, e antes da data marcada o grupo já estava formado, com surfistas vindo de diversas partes do Brasil. Durante as apresentações, ressaltei o ineditismo da minha participação, afinal aquela seria a minha primeira empreitada em uma ação assim.

Em uma manhã de terça-feira que começava a esfriar, havia muita expectativa por parte de todos, e mesmo as condições quase mínimas para a prática do surfe não desanimaram a galera. Com o pico da  Barra da Lagoa totalmente flat, partimos pro norte da Ilha, passando pela praia do Moçambique, que se encontrava com a bancada um pouco cheia para marolas e séries na altura do joelho e bem demoradas.

A opção acabou sendo o canto esquerdo da Praia do Santinho, onde com o banco de areia mais raso proporcionava uma condição mínima pra galera tirar o ranço da viagem e começar nossa “alegria”.

O nível dos participantes ficava entre iniciante e médio avançado, mas, por ser o primeiro dia, até a turma que surfava melhor estava no clima de estreia. Surfamos por cerca de duas horas naquelas marolinhas, e nesse meio termo me desdobrava pra assistir a turma e também surfar algumas ondas. Ora estava no outside, ora ficava mais ao inside vendo algumas ondas da galera, afinal, como parte da nossa “clínica”, todas as noites seriam reservadas para uma foto e video análise de todos.

Para isso, um esquema foi montado em parceria com a turma do Shot Spot, um grupo de fotógrafos e videomakers criado há algum tempo e que vem crescendo e agregando ótimos profissionais. Guto Penteado, Cadu Fagundes, Magnum Gonçalo e Igor Zanin ficavam em diferentes ângulos e atentos a todos os momentos, fazendo uma parceria perfeita pra que nada fosse perdido.

Meu compromisso com a turma eram às manhãs, durante o surfe, e à noite, durante as fotos e vídeo análises. No período da tarde, os participantes ficavam livres, mas sempre com apoio do pessoal da The Search House. Os que queriam dar outra queda, davam, os que queriam passear pra conhecer as belezas de Floripa, faziam o ilha tur, e ainda tinha os que gostavam do “carrinho”, pois nas dependências do hostel havia uma divertida mini ramp. Para aqueles que queriam relaxar e soltar a carcaça, aos fins de tarde rolava aquela prática de Yoga com a instrutora Thais.

A primeira noite de vídeo análise foi interessante, pois estávamos ainda nos entrosando e a turma estava muitíssima atenta. As marolas naquela manhã na praia do Santinho estavam bem fracas, mas já dava pra ir analisando e absorvendo os toques, não só meus, mas também da turma do Shot Spot, que também conhece bastante de surfe.

Listando os participantes, havia dois grommets – Yuri e João Vitor, ambos com 13 anos de idade e acompanhados de seus pais, Ana Cáudia, que não surfava, e Francisco, que pegava umas ondas, mas estava com problemas na lombar e preferiu ficar fora d’agua acompanhando atentamente ao filho. Os moleques almejam o surfe profissional no futuro e foi legal ver o estímulo de seus pais em trazê-los para a “clínica”, que, ao meu ver, foi mais um “surf camp”, digamos assim.

Yuri me pareceu mais focado no desenvolvimento profissional naquele momento e achando a pegada de João Vitor da mesma forma, no entanto, um pouco mais tranquila, relax. Mas um acabava incentivando o outro, puxando o limite, e a evolução já partia dali. A única menina do grupo era Luisa, de 24 anos e recém-formada em Arquitetura. Simpática e antenada no surfe, trouxe um excelente book com sua conclusão de curso, intitulada “Da Mata ao Mar, conexões humanas e alinhamentos com a natureza através do surfe”.

Achei o projeto muitíssimo interessante, então olhe aí um belo de um intercâmbio rolando! Luisa veio acompanhada de seu pai, Alberto, que pegava suas ondas em um longboard em total relax. Tem uma galera no Cerrado que respira surfe, e de Brasília veio Rafael, que acabou recebendo carinhosamente o apelido de Calango. O cara toca um projeto chamado “Surfe do Cerrado” e veio em busca de se aperfeiçoar para repassar aprendizagem aos seus alunos quando voltasse ao Lago Paranoá e adjacências. Extrovertido, estávamos sempre dando boas risadas com ele. Aliás, o que mais fazíamos era dar risadas, e nessa também tínhamos o Bruno, que, também amigo de faculdade de Luisa, trajava uma vasta cabeleira e era cheio de estileira quando subia na “tabla”.

Cassio, natural de Criciúma, mas que reside em Camboriú, onde cursa faculdade, veio em busca de evolução e com uma boa prancha, mas em alguns momentos lhe faltava remada. Aliás, esse era um quesito que acabamos evoluindo no surf camp, ou seja, escolha de material adequado para cada condição. Lucas, mineiro residente na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, chegou ao grupo e logo deu pra observar que tinha uma boa base em seu backside, no entanto, sua pisada era um pouco avançada, o que era bom pra correr no trilho, mas que dificultava um pouco nas manobras.

Tirando os grommets, mais três surfistas tinham um nível mais avançado: Maurício Vaquero, de São Paulo, Juliano, de Curitiba (lojista), e Leandro, de Porto Alegre, que é médico. Esses caras já tinham uma boa base e um nível mais avançado. Mostraram isso quando as ondas iam ficando maiores, assim como Roberto, catarinense que ingressou no surf camp disponibilizando também nosso transporte, já que era proprietário de empresa de locação de vans, e de quebra recebemos a companhia do nosso “motóra” Goy, que acabou ganhando o apelido de Kahuna. Uma figura e muito atencioso! Aos seus cuidados, “Kahuna” nos levou ao litoral sul catarinense em duas oportunidades, uma para a praia da Ferrugem e  outra para a praia do Rosa (canto sul).

A logística para preparar toda essa galera era acordar de madrugada no hostel e sair da ilha antes do famoso trânsito local, que, pra nossa sorte, era de contra fluxo em sua grande maioria. O surfe na Ferrugem foi de marolas, com mar subindo levemente. Visual paradisíaco e a turma ia se empolgando nas valas. Surfamos ali por umas duas, três horas, e na hora da saída boas séries já se apresentavam. De cabeça feita, bate-volta pra Floripa e na manhã seguinte já estávamos aportando no Rosa com direito a espetáculo de golfinhos surfando e dando aéreos nas ondas. Quase ninguém na água no momento em que chegamos, mas cogitando um outro possível pico melhor, lá estávamos todos na van perdendo tempo nas estradas das redondezas. Mas ali, já logo de cara, aprendemos a lição, pois o outro pico checado não estava bom, e ao voltarmos ao Rosa, uma galera considerável já se encontrava na água. Mas valeu o passeio pra turma conhecer, afinal tudo ali era novidade e fazia parte do surf camp.

No Rosa, sob a superfície lida proveniente da boa situação geográfica da praia em relação ao vento sul, ondas bem divertidas iam subindo, dando sinais do big swell que chegava aos poucos ao estado. À excessão do mister Alberto, que acabou congelando um pouco, todos pegaram boas ondas e era alegria pura. Durante as análises das imagens, era possível ver as ondas de todos, e a cada manobra completada as palmas e incentivos eram muitos. As vacas ou vacilos também eram comemorados na mesma intensidade, afinal, depois de três dias de convívio, a turma já estava à vontade, como se fosse uma grande família. E nessas alturas, todos já eram analistas em surfe, como também auto críticos eficientes. O surf camp começava a tomar corpo.

No nosso quarto, dia o swell pipocou! Uma grande ondulação encostou forte no litoral catarinense. Era a hora de tentarmos surfar em frente às instalações da The Search House, na Barra da Lagoa. Manhã ensolarada e o mau tempo que estava nos amedrontando deu lugar a um dia espetacular e ensolarado. Nesse dia, ganhamos mais um reforço na captação de imagens com a chegada do drone da FCfia. Felipe era o nome do comandante da aeronave não tripulada. Também ganhamos a companhia de Julio Terres, hot surfista profissional do estado que trouxe um surfe potente e acrobático pra inspirar a molecada e deixar os marmanjos abismados com suas destrezas também nos tubos.

E por falar em tubos, esse foi o dia. Com ondas entre 3 e 6 pés de face, os mais experientes tiveram um dia de treino digno de surfista profissional. O mar, que achávamos estar menor e mais fraco na hora em que checamos, na verdade mostrou-se de difícil penetração para parte do grupo. Os que não conseguiram varar a arrebentação foram surfar no molhe da Barra, onde uma onda menor vinha lambendo as pedras e facilitando o surfe dos aprendizes e iniciantes. Já a turma que entrou mais ao meio da praia começou a ter parada dura. Logo de cara, os moleques tomaram canseira e alguns caldos os deixaram em alerta. Já os marmanjos, depois das primeiras dificuldades, começaram a se divertir, principalmente com a chegada dos videomakers / fotógrafos aquáticos Guto Penteado e Magnum Gonçalo.

Algumas “réguas” marchavam em nossa direção, e depois de algumas fechadeiras, outras eram premiadas. A turma do Shot Spot incentivava mais que tudo a remada para os late take offs. “Rafael Calango, com uma pequenina prancha Xanadu 5’7”, entrou e fez de cara a foto da vida e da trip. Ao voltar ao fundo, estava em estado de êxtase. Juliano e Leandro começavam a se soltar e Lucas mostrava que sua base era eficiente para aqueles drops de ondas muito cavadas.

A toda hora ressaltávamos que o drop tinha que ser no intuito de um half pipe, ou seja, dropar jogando o peso pra baixo e pra lateral, afim de encaixar na curva da base e no trilho a seguir. Julio Terres achou alguns tubos secos e as imagens logo eram analisadas na própria caixa estanque, pra felicidade dele e do fotógrafo. Maurício Vaquero achou a onda mais aberta do dia e desferiu algumas rasgadas de backside. Na água, recebemos o reforço dos proprietários do The Search House – Rafael, Felipe, João Pedro e Faustin.

Rafael acabou quebrando sua prancha novinha em poucos minutos e os demais pegaram algumas fechadeiras com direito a late take offs e uns wipe outs, como Felipe, que despencou seco e levantou sorrindo. As fotos desse dia ficaram lindas. Durante as análises, todos estavam empolgados, e ao fim da resenha as “Coronas” na “faixa” que tínhamos anunciado deixaram a turma ainda mais solta. Que alegria!

A semana passou rápido, o swell estava presente com uma força demasiada, a ponto de termos que rodar pra escolher um lugar em que todos pudessem usufruir. A praia do Moçambique estava simplesmente gigante e ótimo para um tow in. Paredes de 6 a 8 pés marchavam abrindo, mas sem a mínima condição de varar na remada. Praia do Santinho também se mantinha grande, e depois de algum tempo checando resolvemos cair na praia dos Ingleses, com ondas cavadas de meio a 1 metro, ora fechando, ora com bons triângulos abrindo.

Toda a turma já estava solta e mostrando a evolução da semana. Foi o melhor surfe que vi de Luisa e dos moleques, pois estavam soltos na vala. Cassio, que mostrava certa dificuldade nos drops, já estava mais ágil, da mesma forma Bruno, que trouxe uma prancha com pouca flutuação para o seu biotipo, pegou um funboard e se divertiu.

Lucas “Luke Slater”… É, rapaz, o cara ganhou o sobrenome de Slater, e já com a base mais atrás, contornava melhor as ondas. O “calango” Rafael pegou uma boa direita com manobras rápidas, assim como  Vaquero em uma esquerda. Juliano, com sua “tabla” com design “ráiado”, tava amarradão, e até o doutor Leandro, que não havia gostado do mar à primeira vista, já tava na água se divertindo. Mister Alberto curtiu estar na água, mas se divertiu ao sair para curtir a evolução da filha Luiza, bem como Francisco e Ana Claudia com os flhos Jõao Pedro “John John” e Yuri.

Robertão, o dono da van e morador local, apareceu no pico depois do meio-dia, sorridente. Havia perdido a “session”, mas estava com a esposa e disse ter curtido a “night” passada. A galera só pôde dar mais risadas e partimos pro rango no restaurante “Moçamba”, no bairro do Red River (Rio Vermelho). Que rango!

Noite de despedida! Todo mundo alegre e amarradão. Durante a projeção das imagens, Robertão, que havia surfado pouco, mostrou onde estava no rip, pois havia ido junto com “Calango” fazer um wake surf. Manobras incríveis, incluindo loopings e escambau, com direito a aplausos de toda a turma.

Em clima de despedida, a camaradagem, que já era esplêndida, continuou com os abraços, fotos pra posteridade, mensagens e a ciência de que tínhamos passado uma semana maravilhosa. Na base do compromisso “descompromissado”, tal como havia relatado no início, por ser a primeira “clínica” e de que éramos cobaias, talvez essa tenha sido a melhor delas, pois tudo fluiu naturalmente e no mais puro alto astral.

Valeu, galera! Foi um prazer conhecer todos e ter feito esse intercâmbio maravilhoso, pois a troca de informacões e experiência foi mútua e muito mais que as linhas tecladas aqui. Até “mashx”, gurizões!

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.