
Como explicar um sentimento, uma paixão? Como descrever o simples movimento das ondas ou de umas pinceladas de tinta, o rabisco de uma prancha sobre as ondas ou de um simples lápis sobre o papel?
Assim como o surfista imagina e executa o desenho articulado sobre a água, o artista imagina, sonha e se realiza sobre uma tela, traçando o mesmo caminho do surfista, ou seja, o caminho das artes.
Ambos têm em comum o sentimento, algo contido em seus corações e que a única forma de expressar é sendo aquilo que eles são, justificando o ?ser artista? e o ?ser surfista?.
Passeando pelos salões montados na Bienal em São Paulo, na I Mostra Internacional da Arte e Cultura Surf, tive a oportunidade de sentir e viver esse sentimento bem de perto, admirando obras dos expositores e acredito que o sentimento de um artista observando o mar é o mesmo, afinal, como não ser surfista para olhar as ondas?
Júnior Bill, amigo e artista em projeção, capaz de em poucos meses pincelar verdadeiras obras que o colocaram no ilustre hall entre tantos já famosos e renomados artistas da ?arte surf? expostos nessa Bienal, está desenvolvendo o seu primeiro trabalho editado em livro com todas as suas obras, não só de surf, mas também de trabalhos como designer gráfico, que o colocou no caminho da “arte surf?.
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Acompanhando a história de cada quadro pronto, a cada detalhe que se mostrava diferente, observei sua desenvoltura, apesar de pouco entender de artes plásticas.
Percebi que havia um sentimento cada vez mais presente e o brilho nos seus olhos me levou a lembrar as minhas primeiras evoluções em cima de uma prancha. Só que o Bill rema com largas braçadas, tamanha naturalidade que flui com seu talento.
Contando um pouco de sua história, é fácil perceber que desde cedo havia algo de especial no cara. Dava para sentir a manifestação da arte em sua vida. Pelo seu jeito excêntrico de ser, a criatividade aflorava notoriamente da forma como se expressava.
Admirador do surf, aos 10 anos ainda nem sonhava em colocar as ondas em uma tela, pois em sua cabeça havia a convicção de que seria desenhista de quadrinhos. Mas foi na estamparia de camisas do pai de um amigo onde tudo começou: os primeiros traços, ou melhor, as ?primeiras braçadas?, compunham um projeto de vida.
Nessa entrevista, Bill fala de seu trabalho como designer e pintor, de como começou e como ele leva a vida, envolvido com o surf, apesar de não ser surfista.
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Você começou a explorar o seu talento como designer em uma empresa de surfwear, uma marca já conceituada no mercado no ramo em que atua. Foi por aí o seu primeiro contato com o ?mundo do surf??
Não, o surf entrou em minha vida por causa de amigos quando eu ainda tinha uns 10 anos, mas só como admirador. Naquela época eu achava que seria desenhista de quadrinhos, nunca tinha imaginado que seria desenhista de alguma marca surfwear.
Então, na sexta série tinha um amigo que o pai era dono de uma estamparia. Aí, a gente ficava desenhando umas estampas. Mas, eram muito feias.
E quando os desenhos começaram a ficar legais? Como surgiram os primeiros trabalhos? Como você se inspirava?
Meu primeiro emprego de desenhista com carteira assinada foi quando eu tinha 14 anos. Só a partir daí eu comecei a ter noção de que se ficasse copiando revistas de surf eu não chegaria a lugar algum. Daí em diante, comecei a criar meu próprio estilo.
De lá pra cá a moda surf ficou muito prostituída, tem muita marca de surf no mercado, todo o mundo copiando de todo o mundo, e nós como empregados temos que fazer o que vende, no caso de pintar quadros eu faço o que eu quero e se eu não tivesse começado a pintar quadros talvez já teria saído do ramo de desenhar surf.
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Como surgiu a vontade de colocar nas telas aquilo que você já fazia no computador como designer?
Um dia, percebi que fazia os desenhos já com o nome da marca. Depois, o desenho ficava guardado numa gaveta. Então, comecei a desenhar maior e sem o nome da marca. Mandei colocar moldura e virou um quadro. O nome da marca eu colocava depois no computador.
Descreva o que você sente. Você se imagina surfando as ondas desenhadas?
As ondas que eu desenho não chegam nem perto das ondas que Deus faz pra gente. Eu prefiro me imaginar nas ondas que o Senhor nos deu de presente.
Você se integra à arte?
Totalmente. Depois que eu termino uma tela, fico olhando quase um mês, admirando. Tem umas telas que eu nem acredito que fui eu mesmo quem fez. Mas, acho que ainda tenho muito para aprender como artista.
Daqui pra frente, gostaria de ter mais do que ondas em minha arte. Gostaria de passar mensagens. Mas isso é complicado porque eu odeio ser forçado. Um dia, sem eu perceber, vai ter uma mensagem em minha arte.
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Seria como um surfista se integrando ao mar?
Acho que sim. O surfista dorme pensando no mar, eu também. O surfista fica contando pra todo o mundo sobre a sua última session, eu também. Acho que arte e surf são muito parecidos, ambos são feitos com amor.
O que você sentiu ao ve suas obras na Mostra, pois começou em tão pouco tempo a pintar quadros e já estava com o seu trabalho exibido num evento internacional ao lado de feras como John Severson e vários outros?
Fiquei amarradão quando recebi a notícia de que eu tinha sido escolhido para expor. Na mesma hora liguei para minha mulher pra dar a noticia. Isso vai ficar na minha mente para sempre. O retorno de ter exposto na Mostra não pára de chegar. Foi muito bom para mim e deve ter sido muito bom para todos os artistas iniciantes que estiveram lá.
Como surgiu a idéia do livro?
Surgiu do nada. Mas esse projeto ainda está na metade. Quando esse livro sair quero impressionar e para isso tenho que trabalhar bastante, não posso fazer às pressas só por empolgação. Mas eu tive muito apoio de amigos, editores de revistas e sites de surf. Isso foi muito importante, por isso não posso decepcionar. Vou dar o melhor de mim.
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Como tem sido a repercussão de seu trabalho no Espírito Santo?
Aqui existem várias marcas de surfwear, mas poucas são surf de verdade. A maioria só explora, não dá retorno e nem dá importância para Mostra de surf em São Paulo.
Existem muitas pessoas do mercado surf aqui do Estado que estão me dando muito apoio. Se eu falar os nomes a lista vai ser grande. Mas aproveito para agradecer a todos que direta e indiretamente estão me apoiando.
Para encerrar, faça uma analogia entre surf e arte. E deixe seu recado para a galera que está começando.
Surf já é arte mesmo sem ninguém pintar. Toda vez que se fala de surf sempre vem uma imagem boa na cabeça. Surfar e pintar são momentos que tiramos para nós mesmos. É nessa hora que todos os problemas somem.
E pra quem está começando, vá fundo. Está na hora de nós, brasileiros, mostrarmos o nosso valor, colocarmos nossas raízes em nossos trabalhos, vender nosso peixe. Temos que parar de ser influenciados pelos outros.
Cada um faz a sua história. Então, comece a sua. Para fechar, agradeço de coração pela força, nem acredito que essa matéria vai para o Terra. Valeu mesmo Dudu, valeu Bissoli e brigadão Waves pela atenção e apoio. Abraço aos ?Artistas Surfistas? e aos ?Surfistas Artistas?.
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