A história do surfista brasileiro Derek Rabelo, 20, virou um dos maiores exemplos de superação de vida por meio do esporte nos últimos anos.
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Deficiente visual, Derek provou que é possível surfar mesmo sem enxergar e recentemente encarou o temido pico de Pipeline, Hawaii.
Além de ser acolhido pelos principais surfistas do North Shore, Derek foi notícia em um dos principais telejornais do arquipélago, o Hawaii News Now.
A história do capixaba também será contada no cinema, em um filme dirigido pelo fotógrafo Bruno Lemos, correspondente do Waves no Hawaii.
O documentário marca a estreia de Lemos como diretor e ele terá o apoio do cineasta Luiz Werneck nesta empreitada. Na entrevista abaixo, Lemos conta mais detalhes sobre a produção.
Como você conheceu o Derek e sua história?
Foi por meio do bodyboarder Magno Oliveira. Eles apareceram no culto da igreja que frequento aqui em Haleiwa e fui apresentado ao Derek. Na hora pensei comigo mesmo: “poxa o cara está no Hawaii, um dos lugares mais bonitos do planeta, e não vai poder ver nada desta beleza, que pena!”.
Nesta época estava para dar onda em Jaws, então fui para Maui. Quando voltei, a equipe do Souls 4 Jesus Hawaii havia feito um vídeo com o Derek e eu não acreditei! Nem imaginava que o garoto surfava! Acho que nunca tinha ouvido falar de um deficiente visual que surfa.
Como surgiu a ideia de fazer o documentário?
Recentemente, no início do ano, havia tomado uma daquelas decisões de ano novo. Decidi que iria entrar no ramo de fazer documentários. Acho que de uma certa forma a minha mente já estava voltada para isso. Achei que a história do Derek tinha um bom potencial. A princípio, iria fazer um vídeo curto, com apenas 10 ou 15 minutos. Então convidei um amigo meu, Luiz Werneck, que possui bastante experiência na área para me ajudar a fazer este filme.
Quando começamos a captar as entrevistas vimos que era possível fazer algo um pouco mais longo. Werneck, assim como eu, também ficou muito empolgado com a história. Assim vimos ótimas condições para fazer um documentário. Recentemente demos entrada na papelada do Ministério da Cultura no Brasil para captar a verba e finalizar o documentário da melhor maneira possível.
Como foi a recepção dos surfistas do North Shore em relação ao Derek?
Foi uma das coisas mais incríveis! O sonho do Derek era surfar Pipeline. Ele ia surfar sempre acompanhado do Dell Gama e do Magno Oliveira, que são os caras que sempre o levam para surfar. Mas em Pipe estavam com algumas dificuldades em relação ao crowd e ao posicionamento no line-up.
Então apresentamos Derek ao Danilo Couto, que surfa muito bem em Pipe e conhece a galera local de lá. No dia seguinte, Danilo e Dell Gama entraram com ele em Pipe e o Derek pegou boas ondas.
Neste dia havia vários locais dentro da água. Eles não acreditaram no que viram. Da areia, tive a oportunidade de filmar um depoimento do Jason Shibata que, emocionado, falou o seguinte: “Pra mim é um prazer indescritível surfar com esse cara, algo surreal. É como se eu estivesse na água com Gerry Lopez, alguém que me inspira muito”. Nisso, o longboarder Joel Tudor estava entrando e parou ao nosso lado. Ele ficou “de cara” ao saber que o Derek havia surfado naquele mar. Até alguns turistas japoneses vieram tirar fotos (risos).
E como foi o encontro com o Derek Ho?
Alguns dias depois, ele conheceu o Derek. Na verdade isso é uma outra coisa incrível, o pai do Derek Rabelo colocou o nome de Derek em homenagem ao Derek Ho. Então, quando o “Mr. Pipeline” soube disso, fez questão de conhecer o Derek e trouxe um dos seus desenhos – assinado com dedicatória e tudo! Nós filmamos este encontro e sem dúvidas é um dos melhores momentos do documentário. O Derek Ho ficou muito emocionado, na mesma hora o Mike Stewart apareceu e fizemos a imagem deles três juntos.
Outro lance legal foi com o Eddie Rothman. Ele ouviu falar do Derek e pediu para conhecê-lo. A fotógrafa Lika Maia e nossa produtora executiva Raquel Rache levaram o Derek até a casa do “Fast Eddie”. Eles ficaram tão felizes com a vibe do Derek que o Makua deu uma prancha zerada para o menino e depois o levou para surfar em Pipe.
Eu e o Paulo Barcellos filmamos a queda e, a pedido do Makua, editei um vídeo que supostamente seria para sair no site da Transworld Surf. Mas ele foi pra Califórnia e acabou que o vídeo não entrou em lugar nenhum, ficou escondido no You Tube.
E o vídeo começou a bombar pelo You Tube?
Depois de dois dias vi que ele estava sendo compartilhado por muita gente no Facebook. No final da semana passada, quando estava assistindo ao principal telejornal do Hawaii, equivalente ao “Jornal Nacional” do Brasil, não acreditei. A manchete era sobre o vídeo mais incrível da semana. Eles fizeram uma matéria de quase três minutos com as nossas imagens e dando o maior levante no Derek. Ele literalmente virou uma celebridade aqui do dia para a noite. Ouvi dizer que no Walmart chegaram a pedir autógrafos e muita gente já o reconhece nas ruas. É incrível o carisma que ele tem!
Você acreditava que ele conseguiria surfar Pipe?
Assim como a grande maioria achei que era impossível, mas depois fui saber que o Derek já caía em mares pesados no seu estado e que gosta mesmo de onda buraco. Também percebi que ele tem uma técnica apurada, uma determinação e uma fé em Deus muito forte. Fora isso, tem o dom de segurar na borda no início da onda e na maioria das vezes consegue completar o drop.
Não sei até que tamanho ele consegue surfar em Pipe, mas deu varias quedas lá em dias diferentes e alguns deles com um bom tamanho. Inclusive teve um dia que um salva-vidas pediu para ele sair, pois o mar estava grande. Mal sabia ele que o Derek já havia caído em um mar muito maior do que aquele, e tinha pego boas ondas.
Como será o documentário?
Estamos ainda muito no início. Ainda nem decidimos o nome oficial do filme. Então nesta fase fica difícil saber exatamente como vai ser o produto final. No momento estamos analisando o material que temos em mão e captando algumas entrevistas que faltam. Ainda vamos captar alguma coisa dele em sua casa, no Espírito Santo, algumas sonoras com seus pais e também queremos que ele volte ao Hawaii em breve para filmar mais um pouco.
Deve ter entre 30 a 45 minutos. A intenção é fazer algo não somente para o público do surf. Queremos retratar a história do Derek em uma linguagem que chegue a vários tipos de espectadores. A ideia é passar um pouco de como ele enxerga o mundo, mostrando um pouco de sua determinação, fé em cristo e perseverança em conquistar as coisas que quer. Com certeza não vai ser um filme de surf apenas, vai ser fazer algo para motivar outras pessoas a serem mais felizes, independente das suas incapacidades e dificuldades.
A tarefa não é tão fácil como parece, principalmente pra mim. Apesar de já ter me envolvido com muitas outras produções, como câmera ou como diretor de fotografia, esta será minha primeira vez como diretor. Então espero fazer um bom trabalho e, se Deus permitir, será o primeiro de muitos filmes.
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