Por George Noronha
Durante o período do feriado da Semana Santa, um grupo de surfistas, composto por dez adultos e uma criança, apaixonados por aventura, superação, desafio e adrenalina, foram conhecer de perto uma das forças da natureza – a onda da pororoca, fenômeno natural produzido pelo encontro das correntes fluviais com as águas oceânicas.
Aqui no Brasil, a pororoca acontece apenas em sete rios, sendo um no estado do Amazonas – na foz do rio Amazonas, três no estado do Pará, nos rios Guamá, Capim e Moju, dois no Amapá, os rios Araguari e Maiacaré e um no estado do Maranhão, o rio Mearim. O fenômeno da pororoca por si só já é um fenômeno lindo e forte, mas o grupo de aventureiros encontrou a natureza ainda mais bela, pois a combinação entre dois raros eventos da natureza: a pororoca durante um Eclipse Solar e um Eclipse Lunar em si, criaram o fenômeno conhecido como “pororoca da Lua Sangrenta”.
Desde que me tornei caçador de pororocas tive a oportunidade de conhecer lugares incríveis no Brasil e até no mundo. Contudo, no Brasil, a maioria dos lugares onde a “onda da mata” quebra são rios isolados no interior dos estados do Amapá e Pará. O que pouca gente sabe é que no Nordeste existe um rio considerado por especialistas um dos melhores do mundo para o surf na pororoca: o Rio Mearim. Localizado no município de Arari, distante 162km de São Luis, Capital do Maranhão, esse rio proporciona longas sessões de ondas que podem facilmente ultrapassar 15 minutos de surf contínuo.
Diante da notícia do Eclipse Lunar conhecido como Lua Sangrenta, exatamente na Semana Santa, convidei alguns amigos para juntos surfarmos essa pororoca. Como a logística para surfar nas ondas do Amapá e do Marajó-PA é muito complexa, pois, envolve fretamento de grandes barcos, navegação em rios, estocagem de água potável, comida, cozinheiros etc., optamos por surfar a pororoca de Arari, que além da excelente qualidade, fica localizada em uma área urbana que dispõe de ótima infraestrutura de pousadas e restaurantes.
A primeira ação foi entrar em contato com Vinícius Cabocão, meu parceiro no Maranhão, que iria nos alugar uma lancha com um piloto experiente capaz de nos lançar com segurança nas perigosas bancadas do Mearim. O segundo passo era montar uma equipe pequena e coesa que mesmo com pouquíssima experiência em ondas de maré, fosse capaz de trabalhar coordenada para evitar problemas.
O primeiro a aceitar o convite foi o atleta de SUP Laércio Clayton, que não perdeu tempo e garantiu logo seu lugar. O restante da equipe foi composta por uma dupla que veio de Maresias-SP e é acostumada a surfar ondas gigantes: Ueliton Simões e Leo Matos.
Depois de uma demorada e cansativa viagem entre o aeroporto de São Luis e o município de Arari a equipe estava reunida e pronta para encarar o fenômeno. Com exceção de mim, ninguém nunca havia surfado a pororoca e não podiam fazer ideia do que os esperavam.
Como de costume o primeiro dia da expedição, Sexta-Feira Santa, foi reservado ao reconhecimento e mapeamento das bancadas, pois, o rio muda muito e as sessões da onda também. Na primeira tentativa todos conseguiram surfar a onda. Menos eu. Sem problema. Estávamos de lancha o que nos garantia pelo menos mais duas tentativas. Na segunda tentativa novamente não consegui pegar a onda. A tensão já começou a tomar conta de mim. E pra completar também não consegui surfar na terceira bancada. Todos surfaram a pororoca, menos eu. Nossa! Foi deveras frustrante. Eu não podia me conformar com aquilo. Como diria meu amigo especialista em pororocas, eu marquei a “famosa touca na pororoca”.
E pororoca é assim, a onda só passa uma vez em cada bancada e depois que acaba, só no dia seguinte. Fiquei de mal-humor o restante do dia. Foi quando os meninos cogitaram:
“Dá pra surfar a noite?”. Respondi que sim, pois, já tinha o feito naquelas mesmas condições com o Marcelo Bibita há alguns anos. Era a minha chance de salvar aquele dia.
Por volta das seis da noite estávamos na margem do Mearim e quando nos preparávamos para adentrar rio abaixo no breu da noite o piloto da lancha informa que havia perdido a chave do motor. Depois de improvisar uma chave foi a vez do barco fazer água. Aquela situação estava deixando todos tensos e inseguros. Mas eu estava irredutível. Precisava surfar aquela onda, com ou sem luz.
Contornados os problemas o piloto perguntou quem ainda iria. A essa altura a turma já estava com a pulga atrás da orelha. Clayton disse logo que não ia mais, pois, estava inseguro com toda aquela situação:
“Pode ser um sinal. Hoje é Sexta-Feira Santa, dia sagrado. Tavez fosse melhor deixar mesmo pro dia seguinte”. Mas, eu estava irredutível e disse que iria nem que fosse sozinho. Ueliton e Leo acabaram me acompanhando.
Logo que o barco começou a adentrar no rio meu coração começou a bater muito forte. Apesar da lua está cheia, o céu estava encoberto por nuvens e quanto mais a lancha avançava, mais escuro o rio ficava. Da vez que surfei ali a noite com Bibita o céu estava limpo, mas agora não tinha mais jeito. “Ajoelhou, agora vai ter que rezar”. E por falar em rezar, foi o que mais fiz no trajeto até a bancada. Pra completar o piloto da lancha nos soltou no rio entregues à nossa própria sorte e foi embora dizendo que não iria nos resgatar e que teríamos de voltar sozinhos até o ponto onde todos estavam. Era muita adrenalina!
Optamos por nos posicionar na margem e esperar a pororoca chegar. Pra não correr o risco de sairmos do local onde o Osmar nos deixou dizendo ser o melhor lugar para pegar a onda. Em poucos minutos já dava pra ouvir o barulho da pororoca se aproximando, arrancando árvores e derrubando as margens. Tratamos de nos posicionar. Não dava pra ver um palmo à frente do nariz. O medo de galhos, troncos, piranhas, jacarés, candirus etc. tornava aquela situação ainda mais extrema. Quando a onda chegou todos conseguimos entrar nela, mas apenas eu consegui ficar de pé na onda. Foi como uma espécie de recompensa. Eu, que havia sido o único que não havia surfado de dia, fui o único que conseguiu surfar de noite. Aquilo me deixou muito feliz. Naquele momento eu tinha acabado de “entrado no jogo”.
No dia seguinte os ataques foram precisos e todos surfaram as mais longas ondas da vida, ao mesmo tempo em que o Eclipse da Lua Sangrenta acontecia do outro lado do planeta. Até mesmo os amigos do Ueliton, Jean e José Strobilus, que tinham vindo apenas para ver o fenômeno. Este último nunca havia surfado uma onda na vida e ficou por mais de dez minutos deslizando deitado, a pororoca da bancada conhecida como Retão do Testa. Situação que se repetira no domingo, último dia da operação.
O Clayton, que nunca havia surfado uma pororoca, surpreendeu desde a sua primeira onda, quando surfou uma onda de quase dez minutos, um recorde pessoal e uma marca respeitável, sobretudo para quem nunca havia surfado ondas de maré:
“Fiquei extasiado com a onda. Foi uma sensação diferente de tudo o que eu já havia experimentado. Já imaginava que iria viver uma experiência fantástica, mas surfar a pororoca é algo quase sobrenatural! Estou muito feliz e agradecido, pois, comecei a surfar já adulto e nunca havia imaginado viver algo assim”, declarou Clayton, que é Educador Físico do Colégio Antares.
A EXPEDIÇÃO POROROCA 2015, está sendo apresentada pela Assessoria Esportiva Clube Águas Abertas, com apoio do Colégio Antares Fundamental, e que contou com a parceria de mídia do Jornal Diário do Nordeste, Blog Manobra Radical e do site Sup Club Brasil.
Fonte: Diário do Nordeste / Manobra Radical








