Sul-realismo das ondas sem crowd

Quando vejo matérias como a publicada neste site sobre o filme The Far Shore, bate uma melancolia e as lembranças do meu tempo de surfe no final da década de 70 até os anos 90 vêm à mente. Isto porque também vivenciei a essência e o espírito das verdadeiras surf adventures.

 

Eu e um grupo unido de amigos fomos desbravadores do surfe em Santa Catarina e também no Paraná. Desbravamos picos desconhecidos, realizamos surf trips e surfamos ondas mágicas.

 

No Paraná, surfamos o pico de Paralelas com suas direitas clássicas na Ilha do Mel e as

direitas de Matinhos. Em Santa Catarina, o pico da Petrobrás, em São Francisco do Sul, com suas direitas como canudos…

 

E entre as melhores lembranças, os molhes de Navegantes e Atalaia, quando acordávamos ainda de madrugada para cair na água logo que a aurora permitisse enxergar as ondas.

 

Em Atalaia, eram as esquerdas mais longas e perfeitas que um surfista pode imaginar – depois de Chicama! Os molhes de Laguna, com suas direitas perfeitas, e as ondas de Itapirubá, de Ibiraquera, do Farol de Santa Marta e da Cigana, também faziam parte deste “menu” alucinante…

 

Tempos em que saíamos da água no inverno de Laguna – com temperaturas beirando a zero grau – para correr direto para a pastelaria mais perto em busca do escaldante pastel de banana feito na hora…

 

Descobrimos com a Caravan que eu tinha picos como Palmas das Gaivotas e Ilhéus – em Governador Celso Ramos. As estradas eram todas de chão com muito barro e atoleiros.

 

Não esqueço da primeira vez em que chegamos a Palmas.

 

Depois de passarmos por um atoleiro desgraçado, quase chegando, avistamos um

pico com 1 metrão servido quebrando perfeito e tubular para os dois lados. Foi um delírio. Depois do surfe dava para ficar andando pelado pela praia deserta…

 

Para chegar em Ilhéus, ao lado de Palmas, era preciso enfrentar uma trilha no meio da floresta, mas o cenário recompensava. Um rio de águas límpidas percorria a mata para desaguar no pico. Mais ao lado, a cachoeira caindo nas pedras da praia… Um paraíso…

 

Em Floripa então, Campeche clássico, a Barra da Lagoa antes da construção dos molhes, a praia Brava somente acessível a pé e onde existia gado solto na praia! O Santinho e o Moçambique eram uma de nossas praias prediletas.

 

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Chegamos a acampar nos costões para acordar com o barulho das ondas. E quanto aos “secrets points” das ressacas…

 

Destes picos eu tenho fotos memoráveis que faço questão de manter apenas no meu álbum  pessoal do surfe, com ondas do sonho quebrando apenas em épocas e com swell especiais…

 

Tenho fotos de Canasvieiras quebrando meio metrão perfeito, além de outros picos raros. Tempo bom em que não havia crowd nem poluição. As festas particulares da raça do surfe  nas casas de madeira no meio do mato também eram uma curtição.

 

Tinha dias em que pegávamos onda de manhã bem cedo em Laguna e, à tarde, já estávamos surfando em São Francisco do Sul!

 

Já ia esquecendo de um dos melhores picos naquela época: Balneário Camboriú com suas ondas perfeitas, longas e altamente manobráveis. Um de nossos amigos, desde aqueles tempos até hoje, tem um apartamento bem em frente ao pico. Era acordar e descer as escadas direto para o paraíso.

 

Faltou falar que a minha primeira prancha foi uma Vickstick monoquilha, comprada diretamente do Victor Vasconcelos quando ele

shapeava na casa da familia Catão, em Imbituba, no final da década de 70.

 

Era um “chalezão” de madeira, rodeado por árvores sem folhas – a chuva ácida da indústria carboquímica acabou com as folhas das árvores da cidade – parecendo um cenário da família Adams.

 

A gente usava as roupas de mergulho da Cobra Sub. Depois, fomos a Garopaba encomendar roupas quando o próprio Morongo, da Mormaii, tirava as medidas. Eram quatro costureiras na garagem da própria casa dele em frente à praia de Garopaba. Ali nasceu a potência que é a Mormaii.

 

 

 

A praia da Joaquina era onde tudo acontecia: festas da adolescência e as ondas memoráveis, os primeiros campeonatos. A gente ficava vendo o pessoal mais velho babando pelas gatas.

 

Depois, chegou a vez de chegarmos à praia com nossas amigas e namoradas de colégio.

 

A Joaquina foi um dos maiores palcos de surfe da galera local, como é até hoje. A diferença é que  realmente todos se conheciam. E o que foi um surfari que eu, um amigo e duas gatas do Rio de Janeiro fizemos?

 

Pegamos altas ondas no molhe de Laguna e depois de ver a lua nascer toda amarelada no

mar, acabamos dormindo em um hotel da serra e tomando banho de cachoeira no dia seguinte… Tempo bom… 

 

Hoje em dia, para fugir da crowd, temos utilizado muito as “surfboattrips”. Pegamos a lancha e vamos direto para picos de difícil acesso e sem crowd no continente. Uma beleza! Das últimas vezes, pegamos altas ondas no paraíso…

 

É isso galera, mesmo chegando aos 40 anos de idade (1 de Julho de 2004) não vamos deixar a peteca cair. Viva o surfe na sua essência natural e boas ondas!

 

 

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