
Muito mais legal do que eu imaginava! Certa vez vi uma foto, mas não me interessei. Mas, assim que pude fiz uma tandemboard – prancha pra duas pessoas.
Só descobri o prazer do stand up quando ela ficou pronta. Até então, só queria surfar com minha namorada, descobrir novas leituras de onda, dar aulas e remar nos dias de flat.
O experiente shaper e longboarder Neco Carbone, de Guarujá (SP), desenhou a curva e me ajudou a definir medidas do que seria, em breve, o maior shape já feito por ele.
O material foi encomendado na Keahana, fornecedor de kits de resina epóxi e bloco de poliestireno expandido (isopor) para produção de dezenas de paddleboards (pranchas para remada) pelo Brasil.
A laminação foi da Silver Surf, de vasta experiência no manuseio dos kits e produção de paddleboards.
Quando o bloco ficou pronto, teve que ser shapeado lá, pois não cabia na sala de Neco. Foram precisos ainda dois laminadores pra dar conta da seis camadas de tecido 6 onças, três de cada lado, mais as bordas.
Exceto Carbone, todos achavam que ficaria muito pesada. Mas, pra mim tudo bem.
Se os antigos havaianos divertiam-se com tábuas de mais de 50 quilos, porque minha prancha de somente 25 não ficaria boa?
Pra mim, o peso é a própria raiz do estilo, uma variável que pode dar mais velocidade e fluidez por causa da inércia. Para o que eu esperava, uma 13 pés precisaria de no mínimo 20 quilos.
Quando a prancha ficou pronta, havia sido publicada no Waves.Terra uma entrevista com o big rider Haroldo Ambrósio praticando stand up em Guarujá. Então, os amigos começaram a incentivar.
Na minha terceira caída com ela as condições estavam ideais pra experimentar: menos de meio metro, gordo, liso e com sol. Carregar era a pior parte, pois fora d?água a inércia trabalha contra. Já na água, com o mar lisinho, não foi tão difícil ficar em pé, manter-se era o problema.
Nos primeiros minutos as pernas cansaram e não dava mais pra equilibrar. Remava sentado ou deitado e só ficava em pé pra entrar nas ondas.
Com uma certa dificuldade fui entendendo o remo mais uma solução pra manobrar do que um problema. E quando me dei conta, havia ficado mais de quatro horas na água.
Clique aqui para ver a galeria de fotos de Herbert Passos Neto no Quebra-Mar, Santos (SP)
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No dia seguinte quase fiquei de cama, mas valeu. Além das sensações de fazer uma verdadeira navegação na onda, o surf em pé, com menos curvas, calculado com antecedência, não exigia muito do meu joelho, que se recuperava de uma lesão no menisco. Mas isso já não importava.
Depois de cinco meses afastado, surfar novamente era uma dádiva, pois ainda faltavam cinco meses pra pegar de pranchinha.
Fora o condicionamento adquirirido nos ombros, costas, pernas, abdome e região lombar, além do equilíbrio e isometria (contração sem movimento da articulação) para pernas, necessário para a minha fisioterapia.
Na semana seguinte, a Porta do Sol, pico clássico de São Vicente (SP), tinha ondas de até 2 metros abrindo para os dois lados, com canal.
Ali, o stand up deixaria de ser solução enquanto me recuperava pra ser tornar tão ou mais importante quanto surfar de longboard ou de pranchinha, dependendo das condições.
Seria a primeira experiência com leash. E estava com medo do arrastado no caldo. Recitava mantras e orações o tempo todo, ora verbal, ora mentalmente, pra controlar a adrenalina e manter a mente focada.
Concentrado em não errar, posicionava-me o mais outside possível pra não tomar série na cabeça. Mas assim só pegaria as maiores.
Surpreendentemente foi o melhor surf do ano. O remo ajudava a conectar todas as bancadas, percorrendo mais de 300 metros em algumas ondas.
Depois da décima onda sem cometer algum erro comprometedor, decidi parar e sair por cima. Eufórico, como um bom aficionado, já sabia todas as medidas do próximo foguete, ou melhor, da barca.
Desde então, não peguei a Porta tão boa assim outra vez, mas o Quebra-Mar tem sido um ótimo local para praticar, tanto pelas ondas quanto pelo canal.
Assim que der, pretendo fazer uma mais apropriada. Mas fico feliz da minha funcionar. Ampliou a diversão, horizontes e a minha relação com o mar.
E parece que a mania está se espalhando. Outro dia, um aluno de Picuruta Salazar entrava na onda em pé no longboard, remando com uma madeira.
Na Escola de Surf ASVS/PMSV, de São Vicente, alguns também dão suas primeiras remadas em pé, com um remo que eu dei pra galera.
Mesmo liberado pra surfar de longboard, muitas vezes prefiro o stand up.
É uma leitura de onda que pode acrescentar muito à vivência dos amantes do oceano. Além de ser uma divertida e criativa opção de surf. Quem puder, experimente.
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Herbert Passos Neto é jornalista e diretor de maketig da Associação Santos de Surf