Soraia Rocha vai pra galera

#A bodyboarder catarinense Soraia Rocha (foto) participou no dia/04/2002 de um chat no Portal Terra.

Confira o chat clicando aqui.

Soraia está no auge de sua carreira como atleta profissional e em 2001 conquistou, em meio à disputas acirradas contra brasileiras e australianas, o bicampeonato mundial de bodyboard.

Ela começou a pegar onda com uma prancha de surf de seu irmão, em Laguna (SC), onde nasceu, mas quando se deparou com um bodyboard se encantou e nunca mais largou.

As competições surgiram na vida da atleta de uma maneira natural. No começo da carreira, ela nem se importava em ganhar campeonatos. “Quando percebi, minha dedicação estava me levando a conquistar meus sonhos e os meus sonhos estavam se tornando objetivos de vida”.

Primeiro, venceu eventos em sua cidade, depois partiu para campeonatos estaduais. Em 90, disputou o circuito nacional, sagrando-se campeã amadora em 92. Daí para o Circuito Mundial foi um pulo. A atleta se profissionalizou em 93, foi campeã brasileira em 95 e começou a galgar posições entre as melhores do mundo, até a conquista do primeiro título mundial em 2000.

#Segundo ela, no bodyboard as mulheres geralmente são mais cautelosas e possuem um estilo mais clássico. Já os homens são mais agressivos, pois usam a força do corpo para fazer manobras radicais. As mulheres, ao contrário, utilizam a energia da onda para executar as manobras.

No último dia 30 de março, Soraia enfrentou mais um desafio em sua vida. Ela se casou com o surfista profissional Leonel Brizola. A cerimônia foi realizada em um veleiro de 66 pés, com a presença de mais de quatro mil pessoas em sia cidade natal, Laguna (SC).

Este ano a atleta se prepara para receber seu primeiro filho e já está no quarto mês de gestação. Confira abaixo entrevista exclusiva com a bodyboarder.

Quando e como você começou a pegar onda?
Comecei com uma prancha de surf do meu irmão Joni, em 86, mas no ano seguinte, quando vi uma prancha de bodyboard pela primeira vez, não pensei duas vezes e pedi emprestada. Foi paixão à primeira vista e não teve mais volta. Comecei brincando e quando vi já estava participando de um campeonato, em julho de 88. Não pensava em títulos e nem no esporte como profissão. Para falar a verdade, nem prancha tinha, ficava esperando alguém sair do mar para pedir o bodyboard emprestado. Quando percebi, minha dedicação estava me levando a conquistar os meus sonhos, e os meus sonhos estavam se tornando objetivos de vida.
Como é o apoio que você recebe da sua cidade natal, Laguna (SC), onde você é considerada praticamente uma estrela?
Quando cheguei em Florianópolis, após ter conquistado meu primeiro título mundial no Hawaii, foi uma loucura. No aeroporto estavam centenas de pessoas me esperando. Foram três ônibus me buscar, sem contar os amigos, familiares e fãs que moram ali. Foi uma emoção muito grande ver todos. Posteriormente, fui para Laguna na maior festa e, chegando na cidade, houve queimas de fogos e desfile no carro de bombeiros com carreata. Não sabia que era tão amada e querida pelo povo lagunense. Simplesmente não tinha uma casa com a porta fechada, estavam todos ali me recepcionando, com casas enfeitadas de balões, papéis picados e fogos durante todo o percurso até chegar no calçadão da praia do Mar Grosso. Rolaram dois shows e fui nomeada embaixatriz de Laguna pelo Prefeito Adílcio Cadorin. Somente ali senti o verdadeiro sabor da vitória. Foi uma emoção que nunca havia sentido antes.

Quais são os melhores resultados da sua carreira?
Sou bicampeã mundial (2000 e 2001), fui campeã brasileira profissional em 95, campeã brasileira amadora em 92, sétima colocada no circuito mundial em 95, sexta colocada em 96, quinta colocada em 97, quarta colocada em 98 e 99, vice-campeã brasileira profissional em 2000 e 2001, vice-campeã Sul Brasileira em 91, hexacampeã catarinense entre 92 e 98, bicampeã paranaense em 91 e 92 e campeã gaúcha em 90.
Como foi sua carreira como competidora no Circuito Amador?
Não tive mordomias como atleta amadora. Meu patrocinador principal não pagava todas as viagens, então, tinha que pegar meu currículo e bater de porta em porta pedindo dinheiro para as trips. Quando não conseguia nada, vendia pranchas que ganhava nas premiações ou economizava tudo que podia para poder viajar. Nestas viagens, posso dizer que já cheguei até a passar fome. Mas, com a graça de Deus e toda dedicação e treinamento, consegui obter vitórias progressivamente até chegar ao título de campeã brasileira amadora em 92. Depois disso me profissionalizei.

Quando você sentiu que poderia conquistar o título de campeã mundial? Você fez algum tipo de preparação específica para tentar essa conquista?
Quem conhece minha história sabe que nunca eu tive nada de mão beijada. Lutei muito para chegar até aqui e acredito que este seja um traço forte da minha personalidade batalhadora. Por isso, vou continuar lutando para conquistar o tri, o tetracampeonato mundial e muito mais. Faço parte de um programa de treinamento realizado pelo Netão, chefe de equipe da Mormaii, direcionado só para os atletas. E ele faz questão que todos participem. Não é brincadeira, tem que ter muita disciplina, pois não sobra muito tempo. Este programa envolve vários profissionais, como preparador físico, psicólogo, nutricionista, médico, dentista, além de professores de Swasthya Yôga, natação e musculação. A programação e os horários são rígidos e para me beneficiar tenho que ter muita disciplina. A psicologia esportiva mudou minha forma de pensar e ver as competições. Até o final de 99, trabalhava apenas o preparo físico. Sabia da importância de trabalhar o emocional, pois sou formada em Psicologia desde 94, mas nunca tive a oportunidade de encontrar um profissional qualificado na área esportiva. Atualmente trabalho com a Dra. Daniela Szenészi. Com sua ajuda consegui trabalhar algo que faltava em mim, pois o meu corpo estava preparado para vencer, faltava apenas eu acreditar que poderia ser a melhor do mundo. Essa foi a partir desta simples e complicada afirmação que percebi a importância do psicólogo na minha preparação. Hoje em dia, entre as melhores atletas do mundo, todas têm boas chances e bom preparo físico para ganhar, mas a maioria habitualmente só trabalha o físico e deixa o psicológico de lado.

Fale sobre a conquista do bicampeonato mundial.
Para conseguir o bicampeonato já conhecia a fórmula. Fiz o mesmo preparo e treinamento que havia realizado em 2000. A diferença era que precisava trabalhar outros fatores com minha psicóloga, como a pressão e expectativa do público, mídia e patrocinadores em cima de mim. Afinal de contas, tinha um título para defender e tinha que mostrar para mim mesma que poderia ser campeã novamente.

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?
O momento mais marcante foi sem dúvida nenhuma no Hawaii, em 2000, onde obtive o título mundial por antecipação e venci pela primeira vez a etapa mais importante do circuito, em Pipeline. A felicidade foi comemorada duplamente. Imagina minha alegria, sonhei a minha vida toda com esse dia.
Qual o pico mais alucinante que você já surfou?
Os lugares que mais gosto de surfar são Indonésia, Ilhas Reunião, Fernando de Noronha e Hawaii.

Quais são as suas principais adversárias no Circuito Mundial e porquê?
Há um grande número de atletas boas que podem chegar ao título mundial. Mas, particularmente, nunca gostei de competir contra uma determinada atleta e sim contra mim mesma. Quando estou competindo contra mim mesma estou me superando e isto me faz vencer.

?As pessoas comentam que muita mulher reunida, geralmente rolam intrigas e situações desagradáveis. Como é a relação entre as bodyboarders que disputam o Circuito Mundial? E as brasileiras, elas aparentam serem unidas e amigas. É isso mesmo que acontece, ou é cada uma por si?

De uma forma em geral, posso dizer que há uma boa relação entre as brasileiras. Lógico que de vez em quando rolam algumas discussões. Mas, existe também muito companherismo e amizade entre as atletas. Tanto é que as minhas melhores amigas são minhas adversárias nas competições. Então, procuramos separar da seguinte forma: amigas fora d’água e adversárias dentro.

O Brasil sempre dominou o bodyboard feminino. Você acredita que isso continuará ou essa hegemonia já está ameaçada?
Do ano 2000 para cá as coisas começaram a ficar um pouco preocupantes para as brasileiras. Acredito que fatores como a falta de patrocínio reduziram o número de brasileiras no circuito e abriram espaço para as gringas. Além disso, tivemos excelentes atletas que sempre estiveram entre as Tops e saíram das competições porque engravidaram, como a Cláudia dos Santos e a Mariana Nogueira. Atualmente, eu e a Daniela Freitas também entramos nesta lista e já deu para perceber que faz diferença, porque a primeira do ranking mundial de 2002 é uma australiana, Kirra Lewellyn, que pela primeira vez na história do bodyboard feminino conseguiu quebrar a hegemonia das brasileiras. Mas, mesmo assim as brasileiras continuam sendo as melhores atletas do mundo.
Como você vê o destaque que o esporte tem na mídia em geral?
O bodyboard é um esporte novo e por causa disso estamos engatinhando ainda -comparado com outros esportes de elite em termos de mídia e patrocínio. Apesar de termos os melhores atletas do mundo, tanto na categoria Feminina quanto na Masculina, a mídia não dá o espaço que precisamos para crescer mais como esporte. Nem o surf, que já existe há muito mais tempo, tem seu merecido espaço. Existe milhões de adeptos do esporte, um investimento enorme no mercado financeiro no país e, conseqüentemente, milhares de pessoas interessadas em notícias. Mas, na minha opinião, ainda há pouco investimento da mídia nesta área.

Quais são os seus objetivos para o futuro?
Ano que vem volto com tudo para o circuito mundial.

Na sua opinião, qual é o melhor bodyboarder da atualidade? E entre as mulheres, qual você acha a mais completa?

Acredito que não existe a melhor bodyboard da atualidade, porque na verdade existe várias atletas com excelente condições de serem campeãs mundial. Acho complicado dizer que determinada atleta é a mais completa ou a mais perfeita, ainda mais se tratando de uma competição. Quando você está competindo, vários fatores influenciam seu desempenho, muitas vezes você surfa melhor do que seu adversário e mesmo assim nem sempre você consegue supera-lo.

Como foi receber a notícia da gravidez? Você acha que irá atrapalhar sua carreira?
Foi uma emoção muito grande, pois ganhar uma vida é muito diferente de vencer um campeonato. Eu não esperava por isso, mas Deus sabe a hora certa e, pensando bem, ele escolheu um bom momento. Estou no auge da minha carreira e assim será bem mais fácil voltar num ritmo forte às competições. Este ano vou me afastar totalmente dos campeonatos e me dedicar à vida materna. Mas ainda continuo ligado ao esporte. Estou escrevendo para a Revista Sport Series e sou conselheira editorial da Revista Ativa.

Até qual mês você acredita que conseguirá surfar sem problemas?
Estou com quatro meses de gravidez e acredito que vou surfar durante quase toda a gestação. Lógico que quando a barriga crescer muito, terei que ficar somente com as mãos na prancha, mas mesmo assim vai dar para deslizar nas ondas.
Como tem acontecido a evolução do esporte em termos de manobras de alguns anos para cá?
Surgiram várias manobras que embelezaram e deixaram o esporte no limite do radicalismo. Algumas envolvem três manobras diferentes em uma, como o ARS, uma mistura do el rollo, 360 e o aéreo. Além dessas, as mais praticadas são o back flip e o 360 aéreo invertido.

Na sua opinião, como está o julgamento no Circuito Mundial? E os locais das etapas?
Os melhores juízes do Circuito Mundial são os brasileiros Bruno Calheiros e o Chico Garritano, que já receberam dois títulos mundiais. Acredito que se você perguntar para qualquer atleta sobre o que eles acham do julgamento, a tendência é ouvir críticas, pois é difícil encontrar um competidor que não tenha passado por nenhuma injustiça. Quanto às etapas do circuito, acredito que o melhor atleta do mundo deve surfar num mar pequeno ou grande, liso ou mexido, em condições inadequadas e clássicas. Nosso circuito passa por picos que apresentam todas essas condições. Temos etapas no Japão, que é um lugar ruim de onda, no Brasil e Portugal os points são razoáveis e as Ilhas Reunião e Hawaii são lugares excelentes.

Fale um pouco sobre a vida de casada. Dá mais estabilidade na carreira ou a saudade atrapalha?
A vida de casada é conseqüência do amor e quando você ama fica em paz e com o coração descansado. Ficar longe do meu marido dá saudades, mas fico melhor numa competição sabendo que do outro lado do mundo tem alguém que me ama.

Como foi a cerimônia em Laguna? O Leonel Brizola apóia sua carreira?
O meu casamento foi um sonho tanto para mim quanto para o Leonel, pois nós casamos dentro do nosso estilo de vida. Foi no mar, num veleiro, os convidados assistiram à cerimônia da arquibancada e os meus amigos surfistas entraram na água. Sem falar na população lagunense, que esteve toda presente, com mais de quatro mil pessoas prestigiando a cerimônia. Toda a decoração foi inspirada no estilo havaiano, já que nos conhecemos no Hawaii, num luau em 99. O Leonel é surfista profissional e isso facilitou muito o meu entendimento com ele, pois falamos a mesma língua. Por tudo isso, não existe ninguém mais do que ele que me apoie e torça por mim na minha carreira. Ele é muito companheiro e se pudesse iria para todas as competições comigo.
Onde você mora atualmente?
No Arpoador, Rio de Janeiro.

Por quais locais você já viajou?
Hawaii, Tahiti, Indonésia, Texas, Califórnia, Portugal, Espanha, França, Ilhas Reunião, México, Guadalupe, Chile, Peru, Bolívia, Uruguai, Japão, Argentina, Fernando de Noronha, entre outros.

Como é viajar por diversos picos e ter que conviver com culturas, idiomas e hábitos alimentares diferentes aos que você está acostumada?
Com certeza esta e muitas outras viagens me deram muito aprendizado, passei a ver o mundo e as pessoas de outra forma, porque quando você viaja, conhece outros tipos de pessoas e costumes. Viajar me fez aprender muito, principalmente como me relacionar com as pessoas, saber dividir o seu espaço com o próximo, ceder em muitas coisas que você não quer fazer e acaba fazendo pelo outro. Enfim, ter respeito pelas pessoas. Além disso, aprendi muito com a parte cultural de outros países, costumes e hábitos, que nunca tinha presenciado no Brasil. Vivendo e aprendendo.

Quais são seus patrocinadores?
Meu principal patrocinador é a Mormaii. Tenho apoio das pranchas BSD e inclusive já existe um modelo assinado por mim disponível no mercado brasileiro e japonês.

Como é o design e quais são os principais diferenciais desse modelo de prancha que leva o seu nome?
A BSD (Ben Severson Designs) é uma marca havaiana desenvolvida pelo bodyboarder Ben Severson. Na minha opinião, é a melhor prancha que existe no mundo, pois proporciona mais velocidade, o que facilita muito a execução de manobras radicais, desde um ARS até um tubo profundo. O meu modelo é desenvolvido com minhas medidas e é vendido nas principais surf-shops do Brasil e do Japão.
Viajando pelo mundo, você deve viver situações curiosas e até mesmo as famosas roubadas. Teve alguma que marcou?
Minha primeira viagem internacional foi uma grande roubada, pelo menos a princípio. Estava indo para Biarritz, na França, com a Joselaine Amorim, e não sabíamos de praticamente nada. No próprio avião, conhecemos uma senhora de uns 65 anos que foi, na verdade, nosso anjo da guarda. Eu, com o pouco francês que sabia, e a Joselaine, com o pouco inglês, mal nos comunicávamos com ela. Mesmo assim foi o suficiente para entender que teríamos que pegar um trem até Biarritz. Ela nos deu hospedagem, comida, nos ajudou na compra dos tickets do trem e ainda nos levou para conhecer Paris. Foi um anjo da guarda mesmo. Como ela não tinha filhos, acho que nos adotou naquele encontro. Para abusar ainda mais da sorte, ela ainda tinha uma irmã em Biarritz, que nos recebeu na estação do trem e ainda ficamos na casa dela por alguns dias.

Você sempre contou com o apoio da sua família?
A família representa muito no desenvolvimento e desempenho de uma pessoa na sua vida ou na sua carreira profissional. É através dela que desenvolvemos a nossa personalidade. Por isso, sou muito agradecida aos meus pais pela educação que recebi, porque ser uma atleta profissional não é apenas ir à praia e pegar onda, você precisa se dedicar muito, ter responsabilidade, ser disciplinada.

Quais as principais qualidades que um atleta precisa reunir para se destacar no esporte?
Além do que citei anteriormente, que na minha opinião são os pontos mais importantes em termos de crescimento esportivo, acredito que o atleta também precise de pessoas que trabalhem com ele e exijam da sua capacidade. Outro fator importante é o atleta não só se preocupar com o condicionamento, mas também em fazer um acompanhamento psicológico.
O Nordeste, por exemplo, tem revelado diversos talentos. Qual é o local que tem revelado mais atletas na sua opinião e quais as principais diferenças entre a sua e a nova geração?
Acredito que na categoria Feminino as atletas da minha geração ainda continuam dominando os Circuito Brasileiro e Mundial. Mas, já existe uma inovação do bodyboard feminino, principalmente no Espírito Santo, onde temos grandes nomes se destacando e provavelmente essas atletas serão as futuras campeãs mundiais. Já na categoria Masculino, o domínio do Nordeste é total, a nova geração está arrebentando. É incrível ver os moleques surfando, fazem todas as manobras com radicalidade.

Qual foi a maior dificuldades que você enfrentou na carreira?
A falta de patrocínio.

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