Sonhar é o remédio para a alma. Estar aqui, hoje, vivendo ao lado da natureza, da paz e da tranqüilidade, fez com que a vida, minha eterna busca depois da onda perfeita, é claro, tivesse mais sentido.
Sem o surf nada disso seria possível. O vazio foi e é preenchido por direitas e esquerdas, sem questionar suas qualidades.
Da mesma forma que o surf é evolução, o sonho também é; destemido, audacioso, focado e necessário. Nem que para isso, tenhamos que sonhar mais do que realizar.
Quando chego de uma trip ou um dia exaustivo de altas ondas, não tem como fugir da pergunta: por quê somos tão apaixonados por isso? Será que o prazer está só em um drop, uma rasgada ou um tubo? Sim e não.
O surf já nos completa por si só, mas o tempero de uma trip, uma aventura ou uma simples onda desconhecida, é o que nos dá aquele gostinho exclusivo, saboroso e especial, de uma legião de eternos apreciadores.
E é desse gostinho que me veio à cabeça escrever sobre esta vontade, que estava de lado e de repente chegou sem avisar, em um domingo pela manhã, depois de assistir “Nalu” – novo filme de Everaldo “Pato”.
Sair por aí mundo a fora, dentro de uma van, sem ligar pra nada. Celular na parede, preconceito no lixo e relógio no vaso, já seriam ingredientes suficientes para esta idéia ser colocada em prática. A certeza de realizar, neste caso, é muito maior do que a de sonhar. Este é o grande barato.
Cangurus, focas, chão batido, água gelada, chivito ou tequila, não importa, a sensação do desconhecido joga a adrenalina lá em cima, em níveis que, talvez, só um drop seja capaz de superar.
Uma boa música, uma ótima companhia e está feito, pé na estrada e mais um sonho riscado da lista. Antes disto acontecer – e nem vivo com a possibilidade contrária – continuo sonhando, sem esquecer da semente que deu origem a tudo isso: o surf.
Às 14:28 minha gata me chama. Vou almoçar, dar um banho na frente de casa e já volto. Agora são 19:20, voltei. Não teve pôr-do-sol de tirar o chápeu, mas tinham moleques que tiravam manobras da cartola.
Voltando ao nosso assunto, minhas três horas na água com séries demoradas, fizeram o outside virar – como quase sempre – um confessionário natural.
Aquela idéia da viagem mexeu com minha imaginação, trouxe de volta sonhos que estavam adormecidos e que, por algum motivo, resolveram acordar.
Brasil – Chile. Chile – Peru. Peru – Brasil. O roteiro perfeito. Mais do que isso, a trip que faz a vida valer a pena. A partir de hoje é nela que vou pensar e é por ela que quero viver.
Engraçado, sempre antes de partir, minha cabeça idealiza o roteiro, traça diversos caminhos e faz algumas previsões, mesmo quando eu nunca estive no pico.
É como Pipeline, onde qualquer fissurado por surf, já se imaginou descendo aquela esquerda inexplicável, entubando lá dentro, com aquele barulho ensurdecedor nos ouvidos e uma saída triufante, em pé, seco, antes de ser fuzilado por uma barrofada de causar arrepios. É mais ou menos esta a comparação, se é que diante de tanta diversidade, elas ainda existam.
Vou dormir, quero viajar antes de pensar em partir, provar desta liberdade que tanto me atrai e faz minha mente criar caminhos, sem atalhos e muito menos desvios, pois foram neles – os caminhos – que eu sempre confiei para chegar até aqui. E amar tanto o surf.
Aloha!
