Sob o rolo compressor

Acordei às 5 horas da manhã pensando nas ondas que quebrariam nas bancadas de Sunset Beach, praticamente o quintal da minha casa nos seis anos que passei no Hawaii.

 

Mas eu sabia que a ondulação de Oeste com o vento Leste praticamente liquidava a ondulação de Norte, tornando as condições difíceis e me dando a certeza que tomaria alguns caldos.

 

Chegando em Sunset, vi séries enormes fechando o canal a todo momento, e aquela conhecida vontade de ir ao banheiro novamente apareceu. Era hora de me preparar psicologicamente para mais um difícil dia de trabalho.

 

Quando vi o excelente cinegrafista aquático Larry Haynes partindo para o mar, fiquei atento observando o posicionamento dele. Em meia hora Haynes já estava de volta na areia, comprovando que a situação realmente não estava fácil.

 

Único brasileiro na competição, Yuri Sodré chegou na praia com um quiver de três pranchas: 7,0, 7’4 e 7’6. Ele sentou ao meu lado e conversamos um pouco sobre qual seria a prancha ideal para as condições. Fiquei com ele observando as pranchas usadas pelos competidores mais experientes em Sunset.

 

Como precisava entrevistar alguns surfistas, resolvi ir direto ao Andy Irons, que tinha acabado de sair da bateria, e aproveitei para sondar qual prancha ele estava usando.

Andy usava uma 7,2 e perguntei a ele qual a vantagem de surfar em condições extremas como aquela com uma prancha relativamente pequena.

 

Ele respondeu que era realmente difícil entrar na onda, disse que com uma prancha maior talvez pegasse mais ondas, mas não conseguiria executar as manobras mais ousadas. Já uma prancha menor, é possível executar manobras mais radicais.

 

Gravei a mensagem e passei a informação imediatamente para o Yuri, que optou por uma 7 pés e me pediu para acompanhá-lo com uma 7’4 até o canal, caso precisasse de outra prancha para aquelas condições.

 

Pulamos na água e partimos para o outside, que tinha correnteza extremamente forte com ondas vindo de todas as direções. De repente tudo estava branco com o horizonte fechado pelo tamanho das ondas. Tive que ficar mais embaixo do pico atento a qualquer necessidade do Yuri.

 

As ondas fechavam o canal a toda hora quando eu, Derek Ho, Fred Patacchia e Mike Parsons tomamos uma série enorme. Ainda bem que estava usando pés-de-pato e fui o primeiro a subir. Levantei e vi o Derek e o Fred emergindo, os dois começaram a rir, e realmente não entendia porquê, então percebi como esses caras são malucos.

 

Passaram-se 10 minutos e nada do Yuri pegar onda. Na verdade eu não conseguia enxergá-lo, apenas o que via eram espumas enormes para todo lado. Kainoa McGee teve sua prancha quebrada em dois pedaços e escutei o salva-vidas sentado em seu confortável jet-ski avisando ao havaiano Kala Alexander, “caddie” dele, que teve que sair nadando.

 

Dois minutos depois vi o Yuri eu sua primeira atuação, uma onda intermediária que ele veio costurando até perto de mim. Percebi que realmente a prancha estava pequena para aquelas condições. Não hesitei, cheguei mais perto e trocamos a prancha, agora Yuri estava com a 7’4.

 

Logo em seguida Yuri veio em uma morra, fazendo um drop bem extenso e rasgando o lip com vontade. Nessa onda Yuri marcou um 8,5 e conquistou a primeira colocação da bateria, garantindo vaga nas quartas-de-final.

 

Saí da água contente pela atuação dele. Agora é torcer para termos outro brasileiro no alto do pódio, a exemplo do paraibano Fábio Gouveia, campeão da etapa em Sunset em 91.

 

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