
Esta temporada havaiana está sendo uma das melhores que já vi desde que vim ao Hawaii pela primeira vez em fevereiro de 1994. A última temporada que vi tantas ondas grandes foi em 97 / 98, quando o El Nino trouxe 15 swells acima de 5 metros! Este também foi o ano que quebrou aquele swell gigantesco conhecido como “Big Wednesday”, no dia 28 de janeiro de 1998, quando Ken Bradshaw surfou uma onda em Log Cabins estimada em 13 metros!
Como esta temporada também está sendo afetada pelo fenômeno El Nino, as ondas não param de quebrar desde setembro. Já foram três swells de 8 metros! O primeiro swell monstro foi um dia antes do Eddie Aikau, 7 de dezembro. O segundo foi no dia do Eddie Aikau de tarde, e o terceiro, no dia de Natal.
O dia 7 de dezembro amanheceu nublado e chuvoso, com ondas mexidas e gigantes. No decorrer do dia o sol apareceu, e as ondas foram aumentando e ficando mais perfeitas. Tive a oportunidade de surfar na baía de Waimea das 4 as 5:30 horas da tarde, o qual foi o maior mar que surfei remando. A última vez que tinha surfado um Waimea enorme foi no dia 1º de janeiro de 1999, quando o Rodrigo Resende ganhou o primeiro prêmio da Big Trip por surfar uma onda de 7,5 metros!
Porém, no dia 7 de dezembro as ondas estavam ainda maiores e mais perfeitas. Elas estavam tão grandes que a baía de Waimea fechava de 10 em 10 minutos, o que dificultava atravessar a arrebentação. Geralmente até 6,5 metros, existe um canal que fica sempre aberto, onde não quebra ondas.
Quando as ondas passam dos 6,5 metros, as maiores da série costumam ser fechadeiras enormes que quebram do canto esquerdo ao canto direito da praia. Vale lembrar que a praia de Waimea é bem pequena, com apenas 500 metros de extensão.
O único lugar para entrar no mar é no canto direito da praia, perto da igreja. No resto da praia quebra o famoso “shorebreak” ou quebra-coco, que dá medo só de olhar. Do meio da praia ao canto esquerdo, mais ao fundo, quebram esquerdas gigantes que puxam o surfista para cima do costão de pedras.
Se você entrar na hora errada, ou seja, na hora que fechar a baia, provavelmente voce será arrastado pela correnteza e em 5 minutos poderá estar se debatendo no temível “shorebreak”, ou tomando na cabeça as terríveis esquerdas.
Neste dia, fiquei esperando na praia um tempão para entrar. Quando o havaiano Noah Johnson (vencedor do Eddie Aikau de 1999) chegou, ele saiu remando e eu fui atrás dele. Para nossa infelicidade a baía fechou na nossa frente e fomos jogados nas esquerdas. Depois de muita remada chegamos ao fundo ilesos.
Das 14 pessoas que estavam surfando de tarde, metade delas saíram rebocados pelo jet-ski do experiente salva-vidas Mark Dombroski. O salva-vidas entrou no mar pois vários surfistas tinham tomado uma série fechando a baia lá no fundo, e foram puxados pela correnteza para o canto esquerdo da praia, ficando quase na frente do costão de pedras.
O salva-vidas brasileiro Vitor Marçal estava trabalhando de tenente neste dia, e comandou toda a operação de salvamento. Para minha sorte, das três ondas intermediárias que eu peguei nesta tarde, surfei minha última onda até a areia.
Quando pensava que estes dois swells no início de dezembro fossem os últimos da temporada, o El Nino atacou novamente no dia de Natal e trouxe ondas um pouco menores, porém ainda grandes. As ondas tinham 7 metros, com séries maiores, e no meio da tarde entrou uma série de mais de 10 metros!!
Quando cheguei na praia às 9 da manhã, a baía tinha acabado de fechar. Depois de 30 minutos esperando a hora certa de entrar, um arco-íris apareceu juntamente com uma bela calmaria. Não pensei duas vezes e saí remando a milhão.
O que me dá um pouco de segurança é que quando Waimea passa dos 6,5 metros eu sempre entro no mar com um par de pé-de-patos amarrados na cintura com um cinturão de mergulho. Caso perca a prancha, fica um pouco mais fácil nadar contra a corrente até a praia.
Quando cheguei lá fora, para minha alegria, tinha somente 17 surfistas! Geralmente o crowd de Waimea é sempre intenso, com mais de 60 surfistas, ou seja, mais de 60 pranchas com mais de 3 metros de comprimento competindo num único pico! Porém neste dia, muitos estavam passando o Natal com suas famílias.
O brasileiro Ricardo Taveira me disse que quando entrou no mar um pouco mais cedo, a baia fechou em sua frente, e que foi jogado nas terríveis esquerdas de Waimea. Depois de remar muito forte, e tomar algumas na cabeça, ele conseguiu atravessar a arrebentação e chegou no fundo quase vomitando de tanto stress!
O Ozzy, brasileiro radicado no Hawaii, também teve a mesma experiência e chegou no fundo com uma dor muito grande em seu pescoço.
No decorrer da manhã, o crowd aumentou um pouco, tendo uns 35 surfistas lá fora. De brasileiros havia o Igor e Jairo Lumertz, Felipe Cesarano, Ian Guimarães, Nando, Fabinho Gouveia, Alessandro do Nordeste, Silvia Nabuco (única mulher no pico), Mariano do Guarujá, Beto, Junior Faria, Kalani e Kiron Jabour e outros.
De gringos, Clyde Aikau (vencedor do Eddie Aikau de 1986), Brock Little, Dennis Pang, Andrew Marr, Clark Abey e outros. O legal é que o clima estava super tranquilo, sem ninguém gritando. Foi show também ver os surfistas mais experientes pegando altas: Clyde Aikau, 60 anos e Dennis Pang, 59 anos!
Os surfistas brasileiros que me impressionaram foram os irmãos metralha Igor e Jairo Lumertz, Felipe Cesarano e Ian Guimarães. Estes pegaram várias ondas gigantes. O Igor sentou lá foras e só esperava as maiores ondas. Também vi o Felipe Cesarano despencar de uma onda enorme e ser esmagado pelo lip tubular de Waimea.
Ele demorou tanto para subir à superficie que vários surfistas remaram em sua direção. Ele saiu ileso porém com sua prancha quebrada. O Ian também remou nas ondas mais cascas que vi no dia. Detalhe: dropou de backside atrás do pico, algo que é dificílimo fazer em Waimea.
O havaiano Clark Abey veio me perguntar se o Ian era o chileno Ramon Navarro que foi destaque no Eddie Aikau deste ano. Muitos outros brasileiros também pegaram altas, incluindo o Mariano e Ricardo Taveira que droparam ondas sozinhos!
Eu também consegui pegar várias ondas. Numa delas, eu resolvi sentar ao lado do Igor Lumertz, pois queria pegar uma grande com ele. Quando ela veio, nós remamos bem forte. Porém, um outro surfista estava em minha frente, o que fez com que eu posicionasse minha prancha para o lado do canal caso contrário eu passaria por cima dele.
Como a onda estava bem cavada, minha prancha descolou da parede e eu acabei voando lá de cima enquanto o Igor dropou a onda numa boa. Quando subi a superfície, achando que o pior tinha passado, eu acabei virando com o lip da onda. Foi como cair de cima de uma cachoeira. Após ser jogado para todos os lados embaixo d’água, eu consegui subir e remar para o canal.
Quando saí do mar por volta das 1:40 da tarde, tive a sorte de pegar uma onda até a areia. Quando cheguei na praia e olhei para o fundo, não pude acreditar no que vi. Uma série gigante, até maior do que as que entraram nos dias 7 e 8 de dezembro.
Foram duas ondas enormes. Segundo o Clyde Aikau que tomou esta onda na cabeça, a segunda tinha uns 30 pés (10 metros). O Clyde disse que essa onda quebrou há uns 60 metros mais longe do que qualquer outra onda que tinha quebrado neste dia, pegando todos de surpresa.
Segundo o Keone Downing, famoso big rider havaiano e vencedor do Eddie Aikau de 1989, esta onda quebrou no outer-reef de Waimea, ou seja, na segunda bancada de Waimea. A Silvia Nabuco que foi pega no inside por esta série, disse que quando as ondas passaram, o mar parecia um campo de batalha, com muitas pranchas quebradas e alguns surfistas machucados.
Esta onda que varreu o crowd inteiro é conhecida como uma onda “rogue” ou “freak”, ou em outras palavras, uma aberração da natureza. O que aconteceu provavelmente foi a união de duas ondulações no meio do mar, criando esta onda gigante e inesperada. Porém, todos sobreviveram.
Confesso que no dia 7 de dezembro a tarde, quando estava passando a arrebentação, cheguei a pensar que aquele seria meu último Waimea gigante. Eu realmente pensei “O que eu estou fazendo aqui??? Este mar é para loucos”. Porém quando o mar abaixou, a vontade de surfar outro mar daquele voltou com força total! Espero ter a saúde e vontade do Clyde Aikau e Dennis Pang para poder surfar estas ondas por mais 25 anos! Haja coração!!!