Silvia Nabuco bota pra baixo no Hawaii

A paulista Silvia Nabuco botou pra baixo na última temporada havaiana e estampou a capa do jornal mais importante do Hawaii, o Honolulu Advertiser, com um drop em uma onda de 20 pés em Waimea.

 

“Primeiro achei que era brincadeira, pois rolou  no segundo dia que tinha caído em Waimea, um pico tenso, com muita gente. Achei que era alguma outra garota. Para completar, quando  saí para comprar o jornal, deu um vento de 40 milhas e caíram 60 postes no North Shore”, conta ela.

 

“Depois de um tempo consegui chegar em um posto de gasolina. Quando vi o jornal, não acreditei. Comecei a pular de alegria e comprei 10 jornais”.

 

A curiosidade desta história é que Silvia, atualmente com 37 anos, começou a pegar onda há apenas três. Ela até já havia estado outras três vezes ao Hawaii, mas nunca para pegar onda. A surfista tem ainda dois filhos, de 12 e 9 anos, e nunca havia surfado fora do Brasil.

 

Silvia vem de uma família de esportistas. Seu pai foi campeão de pólo aquático, praticou vela oceânica e foi um dos primeiros triatletas no país. Já sua mãe, depois dos 50 anos, começou a nadar e chegou a ser campeã mundial em sua categoria.

 

A surfista seguiu o mesmo caminho e passou por várias outros esportes até chegar ao surfe, como windsurf, ciclismo, natação e triatlo, sempre figurando entre as melhores do Brasil. No triatlo, por exemplo, ficou entre as cinco melhores do país entre as profissionais e foi décima sexta colocada no Xterra, mundial off road no Hawaii.

 

“Já tinha ido ao Hawaii três vezes para ver meu pai e alguns amigos competindo no Iron Man. Disputei também o XTerra, mundial de triatlon off road, realizado em Maui”, explica a atleta.

 

Nestas três vezes, ela só teve contato com o surfe uma vez, pilhada pela também triatleta Fernanda Keller e resolverem deslizar nas ondas em Waikiki. “Mas, até aí, nada foi despertado”.

 

Do Hawaii, Silvia seguiu direto pra Austrália para disputar uma etapa do mundial de triatlo e ficou em Surfer’s Paradise por três meses. “Meu foco era o triatlo, mas lá tudo girava em torno do surfe”.

 

Novamente, incentivada por um amigo, ela resolveu cair na água para surfar. “Foi lindo, pois vários golfinhos apareceram. Mas, nada ainda de despertar a paixão pelo surfe. Para mim era uma brincadeira em que eu não tinha a menor concentração. Não queria nem remar muito para não estragar meu estilo na natação”.

 

Porém, na volta ao Brasil, ela estava no auge da performance como triatleta e disputaria diversos eventos para garantir vaga nas Olimpíadas de Sydney em 2000.

 

“Todas as competições que disputei durante estes seis meses, algo deu errado. Corri com febre em uma, fui derrubada em outra. Na principal etapa do mundial, o pedal da bicicleta caiu e mesmo assim terminei pedalando com apenas um pé. Numa etapa do brasileiro, a fivela do capacete quebrou e até arranjar outro, perdi o pelotão do ciclismo. Mas, em todas estas etapas finalizei as provas”.

 

Mesmo figurando entre as tops do Brasil na categoria profissional, acabou com uma estafa física e mental. E foi aí, que o surfe reapareceu em sua vida.

 

“Simplesmente abandonei as competições, pois precisava de um tempo para mim. Alugava uma casa na praia da Baleia e tinha alguns amigos que surfavam. Um dia, minha amiga Cris me emprestou seu funboard e adorei. Logo em seguida, mandei fazer uma Evolution 6’5. Quando peguei a prancha, me apeguei logo de cara. Fui para o mar e fiquei horas surfando. O engraçado era que eu não tinha mais a encanação do triatlo e, de repente, meu foco, minha válvula de escape, meu prazer maior era estar dentro d’água por horas e horas surfando”, conta ela.

 

Com cerca de dois meses de prática ficava em pé e caía em mares com ondas de 2 metros. “Não sabia nem que existiam diferentes tipos de cordinha. Até que um dia, já estava com uns nove meses de surfe, o mar tinha 3 metros e a arrebentação varria tudo. Queria muito passar cada onda e chegar ao outside. E consegui, dropei algumas grandes e, na volta de uma delas, a cordinha arrebentou quando varava a arrebentação”.

 

O que em alguns causaria pânico, ela encarou naturalmente. “Havia uns 10 caras na água, incluindo o Tinguinha (Lima). Foi aí que alguém questionou como eu sairia daquele mar. Um amigo respondeu dizendo que se fosse um cara, ele ficaria preocupado. Sai nadando de costas. A galera que assistia viu minha prancha chegando e depois eu saindo tranqüilamente. Isto marcou algumas pessoas que nem me conheciam e que depois de meses ainda falavam comigo sobre este dia”.

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Em maio do ano passado, Silvia começou a se dedicar mais ao surfe. “Comecei fazendo um bate-volta a cada 10 dias, depois passei a um por semana. Até que no Tombo, o Paulo Kid me convidou para correr o brasileiro Amador em Floripa e completou dizendo que a equipe sairia no dia seguinte”.

 

E lá foi Silvia, um pouco envergonhada, como ela mesma diz. Afinal, ela aos 36 anos iniciava numa competição ao lado de atletas, na  maioria, bem mais jovens. “Logo me entrosei e fazia bagunça. Também aprendi muito vendo o sufe radical dos meninos. Na etapa de Floripa, fiquei em quinto lugar”, conta.

 

Inicialmente, a surfista não imaginava voltar a competir, mesmo porque o surfe funcionava como uma válvula de escape, o momento de relax. “Realmente não imaginava competir novamente, mas aquilo voltou à minha vida. Só que com o prazer e a intenção de evoluir somente para mim. Ganhei o apoio da Gzero e da Evoke e meus amigos começaram a falar sobre viagens para Indonésia, Hawaii, México”.

 

Silvia mentalizou que no final do ano viajaria para o Hawaii e, mesmo com diversos problemas conspirando contra, conseguiu partir para a primeira temporada havaiana, caindo numa casa de big riders formada por Jorge Pacelli, Sylvio Mancusi, entre outros.

 

“Por um lado foi bom porque acabei não tendo uma fase de adaptação em picos com ondas menores. Cheguei surfando Sunset com 12 pés”, conta, destemida.

 

Silvia diz ainda não ter ficado com receio de surfar em mares dominado por homens, que ainda têm o agravante de serem os temidos black trunks. “Na verdade achei que encontraria mais mulheres dentro da água, garotas da África do Sul, dos Estados Unidos. Mas, a única que encontrava direto nos mares realmente grandes era a norte-americana Jamilah Star, que chegou a trocar idéia comigo dentro da água”, comenta.

 

Sobre o localismo nervoso, a receita era ficar tranqüila dentro da água. “Fui rabeada algumas vezes, mas ficava na minha e isso acaba invertendo a situação. Lógico, que os havaianos se sentem um pouco invadidos, mas se ficar na boa é tranqüilo”.

 

Uma das ondas em que foi rabeada, acabou superando um de seus receios. “Um dos meus medos era ficar lá dentro do tubo. Acabei rabeada por um local irado em uma onda de 4 metros e não tive alternativa a não ser ficar bem lá dentro”, conta.

 

De acordo com Silvia, o melhor que ela tirou do Hawaii foi a segurança de cair em um mar que não conhecia, não tinha idéia de como era. “Me senti completamente à vontade, tomei séries de 20 pés na cabeça, mas fiquei tranqüila. É como se tivesse conquistado um mar diferente, um mistério para mim. As pessoas geralmente comentam, mas sempre botando medo. No fundo esperava uma adaptação mais lenta”, confessa.

 

“Em Sunset, estava no mar com vários havaianos. Era só colocar no trilho e ir embora e tentar manter o total controle”.

 

Os planos da surfista para este ano inclui competições no Brasil e uma viagem para a Indonésia. “As pessoas agora me vêem como big rider, acabam rotulando muito. Sou uma surfista e tenho entre meus objetivos pegar ondas grandes, mas uma de minhas maiores vontades é surfar bem solta nas valinhas”.  

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Confira abaixo o relato da surfista sobre sua primeira temporada no Hawaii.

“Uma viagem ao Hawaii significa sonhos diferentes para cada pessoa. A maioria se imagina de férias em um belo hotel, tomando drinks na beira da piscina, assistindo a um show de hula-hula com música típica e o sol se pondo em belas cores e sumindo no mar.

 

 Para mim, o Hawaii era algo muito distante. Várias barreiras existiam entre mim e estas ondas. Tudo começou no reveillon do ano passado, quando mentalizei que no ano seguinte estaria no Hawaii. Havia coisas que pareciam impossíveis de se resolverem para que eu realizasse esta viagem, mas tudo foi se encaixando.

 

As portas se abriram e quando vi, estava com a passagem na mão. Embarquei no dia 23 de dezembro e me encontrei com uma turma de amigos, surfistas experientes, que já estavam lá.

 

Foi show, pois era acordar cedo, checar o mar, escolher a prancha e tchau. No começo, pegava emprestadas pranchas deles até minhas Pat Rawson ficarem prontas. Como eles já estavam descolados e gostavam de ondas grandes, não tive uma adaptação em ondas menores. No primeiro dia, cai num mar de 3 metros e ouvia instruções do tipo:

 

Olha para terra e não passa daquele pinheiro – o único – senão a corrente te leva. Depois de três dias quebrou Sunset com 12 pés. Recebi mais instruções sobre como funcionava o pico, que tinha que remar rápido para o outside quando a série aparecia. Me senti segura e dropei algumas das maiores. Tomei uma vaca, mas fiquei tranqüila esperando para subir. Percebi que o fato de estar bem psicologicamente, de manter a calma, aliado a um bom condicionamento, era tudo nestes momentos.

 

Cai em vários picos como Rock Point, Gas Chambers, Mali Point (onde quebrei minha 6’6), Rockpiles (sinistro, parece Paúba com pedras).

 

Deu duas semanas e a notícia de que Waimea quebraria começou a se espalhar. A galera do tow-in se mandou para Maui e, antes de ir, o Pacelli me emprestou uma prancha 9′ 6 ‘sunseteira”.

 

Nunca tinha usado uma prancha daquele tamanho. No dia meus amigos estavam adrenados, nem conversavam direito. E lá fui eu no vácuo deles. Em volta da baía estava um caos de carros parados na estrada, centenas de câmeras apontadas para aquele único pico, restrito e crowdeado.

 

A segurança é enorme. Ninguém pode pisar na areia se não for surfista. Mesmo assim, meu amigo salva-vidas Victor Marçal me explicou que eles tentam e conseguem vetar 50% dos que querem surfar lá.

 

As séries chegavam aos 20 pés. Eu olhava meus amigos e eles pareciam em transe olhando fixo as ondas e se preparando para o momento certo de entrar, pois tinha um quebra coco de 1 metrão. Então, tinha que esperar esse momento e sair correndo porque logo vinha outro. Corremos mar adentro e escutei um salva-vidas, que não era o Marçal, apitando para voltarmos.

 

Olhei de canto de olho e segui em frente. A remada até o outside é tranquila, mas quando se chega lá, se vê e o tamanho das séries, as pessoas emboladas, grudadas, tensas, lutando por um drop. Na hora me questionava como conseguiria dropar alguma se na maioria aparecem três, quatro, cinco caras em cada onda.

 

Fiquei no rabo do pico ensaiando uns 20 minutos, até que uma série se aproximou e um amigo gritou para eu ir. Não pensei em nada, só remei e fui.

 

Quando dropei, vi que havia tinha mais surfistas nela e fiquei, ao mesmo tempo, sentindo aquela velocidade enorme e tendo que manter na linha para não atrapalhar surfista que estava embaixo.

 

Foi uma das maiores adrenalinas que já senti. Não sabia que lá de longe, possantes lentes registravam tudo, e que aquela onda fora escolhida para estampar a matéria de capa do principal jornal do Hawaii, o Honolulu Advertiser.

 

Depois, fui me sentindo mais segura e ficando mais no crítico do pico, pois queria pegar as ondas sem ninguém atrás. Mas, sempre alguém dropava  rabeando, pois em Waimea é permitido porque quando se rema às vezes é perigoso puxar o bico.

 

Tomei algumas vacas de cair sentada na onda tamanha velocidade que pegava. Em outras, remei e não entrei na onda. Quando virei, a série estava pronta para quebrar na minha cabeça. Soltei a prancha e afundei o máximo possível, abri os olhos e vi aquele cilindro negro, deixando tudo escuro por uns momentos e logo clareando. Era o momento de subir.

 

Às vezes vinham três destas, mas eu mantinha a calma e via por outro ângulo. E era linda aquela Uma coisa que me ajudou a me sentir segura e conhecer meus limites foi ter feito o curso de apnéia com a recordista mundial Caroline Meyer, na Surf & Beach Show do ano passado. Fiquei três minutos em apnéia e em outro exercício 30 segundos em apnéia, além de 50 metros nadando submersa na seqüência.

 

A Caroline queria que competisse nessa modalidade. Acho que todos os esportes que já pratiquei (atletismo, windsurf, natação, ciclismo, ski na neve e triatlon) me ajudaram a ter preparo físico, mental, reflexo, equilíbrio e intuição no surfe.

 

Esperava encontrar mais garotas nesses mares. Mas, logo vi que nesses mares maiores, além de mim, só estava na água a Jamilah Star, big rider profissional californiana. Quando ela me viu em Waimea, ela me disse que era muito legal encontrar outra menina dentro do mar.

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Meus amigos voltaram para o Brasil e eu me mudei pra casa apelidada de “Big Brother”. Éramos 12, todos surfistas. Estavam o Alex Godoy, Júnior Faria, Heitor Pereira, Emerson Piai, além de outros ‘just for fun’ e duas meninas, Ana e Themis.

 

Viramos uma família. Dividíamos os bons e maus momentos. Lá ia eu na vibe deles para me atirar em picos como Rock Point, Off the Wall, Backdoor. Menos em Pipe, porque o crowd é muito agressivo. Isso me motivava bastante.

 

Um dos melhores mares que caí foi em Sunset. Estava perfeito e eu fui logo para o outside onde só tinham cinco havaianos “black trunk”, daqueles que usam aqueles colares com símbolos de osso no pescoço. O resto da galera estava mais para dentro, mas eu pensei: Aqui é o melhor pico…e fiquei.

 

Na primeira onda eu tinha a preferência e dropei, com um deles me rabeando. Voltei quietinha e na segunda foi a mesma coisa, só que o cara pediu desculpas e disse que devia ter deixado eu ir sozinha. Eu respondi: Tudo bem… Este mar está lindo, não?

No final da tarde, eles já sabiam meu nome e gritavam: “Go Silvia!”.

 

Para mim o Hawaii foi uma conquista em vários sentidos, inclusive em ser rabeada e ter que ficar estática vendo o tubo por cima, coisa que sempre tive medo e acelerava.

Até por ter passado por situações bizarras, como ter levado biquínis para vender, coisa que nunca tinha feito antes, e ir parar na casa do Kala, com um pouco de receio pelas histórias que ouvi sobre ele.

 

No final, acabei vendendo 20 biquínis para ele. Também teve um dia que fui surfar em Haleiwa e do meu lado estava o Kelly Slater. Depois de um tempo começou a ventar e a maioria dos surfistas saiu da água e  fiquei conversando com um dos poucos que restou.

 

Depois de uma semana, estava lendo uma revista e vi a foto do Ben Harper e do Jack Johnson. Aí, me toquei que o cara que estava conversando era o Jack. Depois vimos ele tocar de surpresa num barzinho para um amigo dele que fazia aniversário no dia. Enfim, muitas coisas aconteceram. A única coisa ruim foi que roubaram nossas pranchas bem embaixo de nossos narizes enquanto checávamos o mar.

 

Percebi que todo paraíso tem ervas daninhas por causa de drogas. Não é só no Tombo, no Rio, ou em Floripa. É geral e tem que ficar esperto, pois às vezes nos desligamos e tem gente ligada em nossos bens materiais. Que levem os bens materiais, apesar da raiva, mas toda essa aventura e experiência ninguém rouba, pois ficará bem viva na minha memória”.

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