Em três anos consecutivos, o australiano Darren Handley conquistou cinco títulos mundiais como shaper.
Em 2007, Stephanie Gilmore e Mick Fanning fizeram dobradinha. Em 2008, Stephanie ganhou novamente e em 2009 a dobradinha voltou a acontecer.
Nesta entrevista, o shaper da DHD fala sobre o sucesso da dupla e comenta o trabalho desenvolvido internacionalmente.
Mais um ano de sucesso e vitórias para você e sua equipe. Como está se sentindo?
A vitória sempre é muito bem-vinda. Toda a minha equipe teve um ano incrível, apesar de 2009 ter parecido tão longo pra todos nós.
Ver Mick Fanning e Stephanie Gilmore levarem o caneco no Hawaii, sendo o último evento do ano, sem contar toda a pressão em torno deles, foi sensacional. Como shaper, ter dois títulos do mundo duas vezes no mesmo ano, como também foi em 2007 com a dobradinha de Mick e Steph, posso sem dúvida me considerar uma pessoa muito feliz e realizada profissionalmente.
Você hoje tem dois surfistas de ponta na sua equipe. Ambos venceram cinco dos seis últimos títulos mundiais. Você acha que conseguiu atingir seus objetivos no design das pranchas ou tem mais novidades por vir?
Sem dúvida tem muita novidade por vir. Eu ainda me sinto muito jovem pra dizer que acertei na fórmula de um shape e daí não aperfeiçoar ou criar novidades.
Com toda essa nova geração de novos talentos chegando junto para brigar pelos títulos mundiais junto com Mick e Steph, o nível sempre continuará evoluindo em todos os sentidos, do atleta até sua prancha. Eu amo estar com a cara suja de trabalho, coberta da poeira branca do bloco. Isso mantém minha mente fresca e jovem, isso que me mantém de pé.
Você vem trabalhado com Mick e Steph desde o início da carreira da dupla. O que você destacaria como incrível nessa jornada de trabalho?
Ver Mick se desenvolvendo desde menino até adolescente e hoje em dia um homem maduro, com sucesso, é algo muito legal e gratificante. Viajar pelo mundo com Steph e Mick, sentar com eles, vê-los competir, falar sobre as pranchas e discutir sobre os seus objetivos é uma grande experiência para todos nós. Tenho muitas lembranças e ótimos momentos que serão guardados e relembrados entre nós. Mas confesso me sentir muito orgulhoso quando os vejo no palanque colecionando seus troféus, ganhando competições e títulos. É uma sensação fora de série.
Parko (Joel Parkinson) era da sua equipe de surfistas de ponta junto com Mick. Como foi vê-los frente a frente nessa disputa pelo título mundial 2009?
De uma maneira ou de outra o final tinha um lado bom, pois sabia que o título do mundo estava voltando pra Austrália. Mas tenho que confessar que estava muito nervoso vendo os dois ali com grandes chances de pegar esse título. Claro que eu queria ver Mick vencer, pois ele é o meu atleta número 1 e nos dedicamos anos e anos para alcançar tudo isso. Eu gosto de Joel como pessoa e do seu surf, mas Mick é o meu garoto de ouro. Essa disputa entre os dois, sem dúvida, deixou a última etapa em Pipeline ainda mais emocionante do que já é.
Depois da conquista dos títulos mundiais, o que você, Mick e Steph pretendem neste ano?
Faremos o mesmo. Vamos contabilizar logo as pranchas. Começamos fazendo as pranchas em outubro e testamos todas depois da temporada havaiana, assim que retornam aqui pra Austrália. Fazemos os ajustes e testes dentro d água. Isso se repete várias vezes até no máximo duas semanas antes da primeira competição do ano, até nos certificarmos de que está tudo pronto pra próxima temporada. Depois do Tahiti sentamos de novo para ver se existe necessidade de mais algum ajuste. Isso funcionou muito bem no ano passado com Mick. Fizemos uma 5’11 que acabou se tornando a “prancha mágica”. Foi o divisor de águas na sua retomada e avanço rumo à conquista do título.
Ao longo de todos esses anos de trabalho e desenvolvimento das pranchas, quais foram as alterações no design que você percebeu fazer uma enorme diferença ou melhora no desempenho de Mick e Steph?
Não tivemos mudanças radicais ao longo desses anos. Apenas um desenvolvimento gradual com pequenos ajustes nas pranchas, como acontece todo ano. Nós temos o design, o desenho do shape, os rockers, o volume do rail, os bottoms (fundos), materiais e sabemos o mais importante, “como finalizar a prancha”. Isso mantêm a alta performance constante. Mas a maior mudança não foi no design e sim em outro fator: no peso e resistência das pranchas. Hoje em dia elas estão muito mais leves do que eram anos atrás.
Mick tem muita influência nos designs de suas pranchas. Quantas vezes vocês discutem sobre o equipamento e as alterações que pretendem fazer?
No início do ano sempre conversamos muito, quase todos os dias. A partir dessa conversa produzo e entrego todo o quiver pra ele. Quando Mick recomeça o treinamento e testes, nos falamos umas duas vezes por semana no mínimo. Sempre depois de qualquer competição conversamos muito, principalmente quando ele vence uma etapa.
Você tem uma equipe muito grande no World Tour e WQS. Este trabalho que você faz com Mick e Steph você usa o resultado para desenhar as pranchas pra toda a sua equipe ou cada competidor tem o seu trabalho individual?
Mick tem uma enorme influência em muitos dos meus projetos, especialmente nos modelos profissionais. Todos esses designs são reflexos do trabalho com Mick, junto com todas as alterações e aperfeiçoamentos que fazemos juntos. Diversos competidores do WQS adotam o modelo de prancha D1, ao qual Mick não se enquadrou, não sei o porquê, mas ele não se encontrou com essa prancha. Quando estou trabalhando com outra equipe de competidores eu passo um pouco do que Mick está surfando e um pouco do que todos os demais surfistas também estão gostando, até encontrar o equilíbrio certo para cada surfista de forma individual.
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Como é que Mick escolhe as pranchas para competição e as pranchas de free surf?
Mick pega o seu quiver e surfa com todas elas, daí ele usa sua sensibilidade para perceber o que elas oferecem e em que onda se encaixará cada uma. Por exemplo, quando Mick encontra as pranchas que serão boas para Bell´s Beach ou para J-Bay, ele as separa logo para cada uma dessas etapas.
Mas sempre em um quiver você acaba encontrando umas duas pranchas que são consideradas “as pranchas mágicas”. O surfista sabe que são aquelas perfeitas, no pé, e se encaixam em todos os picos, como aconteceu no ano passado com Mick. As demais pranchas ficam como regra dois para os eventos e free surf.
Como shaper, o que passa pela cabeça assistir Mick e Steph com a sua prancha numa grande bateria ou na final do World Tour?
Eu fico nervoso em assisti-los, especialmente quando estou com a mãe do Mick. Mas no final eu sei que foi feito um ótimo trabalho na fabricação e desenho de suas pranchas e tenho total certeza de que elas os atenderão perfeitamente nas suas ondas. Mick e Steph sabem muito bem como surfar e escolher suas pranchas, eu não precisaria ficar nervoso nesses dias. Mas sabe como é. O mais engraçado é que todos os grandes campeões só melhoram e aumentam seu nível na competição conforme avançam, eles não ficam nervosos, eu realmente não sei como eles fazem isso, é incrível.
Você fala com Mick e Steph durante toda uma etapa ou você deixa para analisar o equipamento depois da competição?
Falamos antes, durante e depois. Eu sempre passo uma análise honesta, digo se a prancha me pareceu boa ou no pé para aquela etapa, se ela realmente não andou nada e ele fez uma péssima escolha. Muitas coisas acontecem nos bastidores de um evento do World Tour, até porque as condições do mar mudam muito, os atletas sempre querem pranchas que respondam bem para cada tipo de mar e acabam sempre vindo pedir conselhos. Infelizmente eu não posso fazer uma prancha nova a cada evento, mas converso muito com eles e acompanho todas as baterias. Quando estou perto, aí sim, ajustamos tudo o que precisam. Por isso que ter as duas primeiras etapas na Austrália acaba ajudando bastante. Eu posso estar assistindo e conversando com eles de perto, certificando se está tudo ok e dos satisfeitos com o resultado das pranchas. Acho que isso acaba sendo uma verdadeira vantagem competitiva para Mick e Steph.
Quando um surfista de nível médio (cliente) compra uma de suas pranchas eles também ajudam a formar novos designers da DHD, da mesma forma que Steph & Mick influenciam?
O cliente pode fazer o design dos modelos Mick Fanning Pro, D1, D2 ou um Monster Bobby. Todos eles são constantemente testados por mim e pela nossa equipe, seja o próprio Mick e Steph testando ou outro competidor da BaseSurfbords. Temos muitos surfistas de ponta para testar nossas pranchas nas melhores ondas do mundo e trazem suas opiniões e apontam onde devemos ajustar ou manter em cada design das pranchas da DHD.
Eu não sou aquele shaper que cria um modelo novo, dá um nome qualquer e sai vendendo por aí. Nós testamos muito, fazemos e refazemos até chegar ao produto final esperado e aprovado por todos. Somente quando temos a certeza que o modelo tem a reputação esperada de uma prancha da DHD ai sim lançamos para o consumidor final.
Mick, Steph e toda a equipe me ajudam muito na criação e aperfeiçoamento dos meus designs. Quando estou visitando os meus representantes de varejo, viajando ao redor do mundo e fazendo reunião com meus representantes em diversos países; procuro ouvir suas opiniões e o feedback fornecido pelos nossos clientes e seus atletas, para que eu possa trazer como pauta pra reunião e aperfeiçoar meus projetos.
Quero sempre saber o que está ou não funcionando dentro do esperado pela maioria dos surfistas quando usam uma DHD. É como colocar um motor de Ferrari em um Sedan familiar. O cliente pode não ter o melhor desempenho ou ter toda a habilidade para tal, mas em qualquer modelo da DHD, você sem dúvida vai apreciar cada detalhe da prancha e perceber todos esses benefícios que ela te proporciona, além de poder surfar com os modelos de prancha que os melhores surfistas do mundo usam e aprovam.
Quantas pranchas você acha que fez para Mick e Steph ao longo desses anos?
Para Mick eu diria que pelo menos 1.000 pranchas e para Steph, provavelmente mais de 300.
Você ainda sente a mesma empolgação e paixão quando faz o shape de uma nova prancha para eles?
Essa sensação nunca se acaba. Para ter uma idéia, eu estou aqui sentado respondendo a esta entrevista e preciso desenhar duas novas pranchas para Steph, estou apenas aguardando ela retornar aqui na fábrica. Nós surfamos juntos hoje pela manhã e tivemos muitas idéias, quero colocar logo
em prática tudo o que conversamos para que ela possa surfar com as pranchas novas.
Você tem alguns segredos guardados para as novas pranchas de Mick e Steph para este ano?
Eu sempre tenho um monte de segredos, mas pode ir sonhando se acha mesmo que vou revelar alguma coisa nessa entrevista (risos). Vamos fazer o seguinte, me pergunta novamente no final do ano quando eu conquistar outro título mundial (risos).
Fonte Zampol Surfboards