Desde os primórdios do surf as pranchas são confeccionadas por “especialistas” na arte de dar forma ao bloco, o shaper.

 

Os nativos polinésios, mais precisamente do arquipélago havaiano, trabalhavam a partir de um tronco de árvore, o que era sagrado para eles.

 

Assim que o retiravam, ofereciam em troca um peixe ou outro tipo de alimento. Era uma oferenda à mãe-natureza, uma forma de agradecimento. E o colocavam no mesmo local onde a árvore havia sido retirada.

 

Naquele período existiam dois tipos de prancha: os “paipos”, parecidos com os bodyboards, e as pranchas para a população surfar em pé. Esses modelos pesavam aproximadamente 50 quilos, com 18 pés de altura.

 

Anos depois, com a ocupação promovida por missionários europeus, grande parte da população havaiana foi dizimada por causa da colonização. Conseqüentemente, sua cultura desapareceu e o surfe foi duramente perseguido, sendo sua prática um ato de resistência que ocorreu de forma esparsa no arquipélago.

 

No início do século XX, uma turma de Waikiki, praia localizada ao sul da ilha de Oahu, fortaleceu novamente a prática e um dos principais líderes desse movimento foi o lendário Duke Kahanamoku.

 

Sua fama ganhou o mundo ao se tornar campeão olímpico de natação e ele sempre levava sua prancha para demonstrações do “esporte dos reis” nos países que visitava para competir como nadador.
 
Do início do século até os anos 60, houve pequenas transformações no design das pranchas.

 

Como a ousadia de Nat Young durante uma única etapa do circuito mundial realizado na Califórnia na década de 60.

 

Ele cortou boa parte de um longboard, surpreendendo a todos com um surf ágil e rápido comparado aos grandes surfistas da época.

 

Mais recentemente, nos anos 80, o mundo viu atitude vanguardista do australiano Simon Anderson que desenvolveu as famosas “thrusters”, as triquilhas, numa época em que todos os atletas profissionais competiam com pranchas de duas quilhas.

 

Desde então, as pranchas foram diminuindo de tamanho e ficando mais leves, chegando ao design atual.

 

Atualmente, uma das grandes invenções feitas por um shaper, e que vem sendo utilizado por renomadas fábricas em todo o mundo, é o sistema digital concebido pelo brasileiro Luciano Leão, chamado de DSD (Digital Surf Design).

 

O projeto consiste em armazenar as características de uma prancha em um disquete e, por intermédio do programa Surf Cad, a máquina faz o shape sem a ajuda do shaper, a não ser ao final da concepção, quando o artista utiliza seu conhecimento para “lapidar” o trabalho.

 

 

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Mesmo depois da criação desta estrutura sofisticada e de novos conceitos, um equatoriano chamado Alexandre Richard Borja fundou a Balsa Blanks para desenvolver um trabalho puramente atesanal.

 

Borja, 38 anos, faz pranchas de madeira balsa há mais de 11 anos e se tornou um dos shapers mais importantes do estilo.

 

Ele mora perto da praia desde pequeno e conheceu vários fabricantes de pranchas  
mundialmente conhecidos. Por conta desse convívio, surgiu a idéia de fazer pranchas de troncos de árvore, mundialmente conhecidas por pranchas de madeira balsa.

 

“Trocando idéias me surgiu a oportunidade de fazer as pranchas depois de comentar que tínhamos plantação de madeira balsa. Ficaram muito interessados porque a madeira da região é ótima para fazer esse trabalho, única em toda a América e a mais leve do mundo”, ressalta Alexandre.

 

A empresa dele já exportou para vários países, e, há alguns anos, criou um projeto em Biarritz, França com o lendário surfista famoso na década de 60 por sua rebeldia contra o sistema, o californiano Mikey Dora.

 

Foi feito um quiver com três pranchas de longboard com o desenho de Dora. Um desses trabalhos está exposto no museu da Quiksilver em Lafitênia – França.

 

Tom Curren, outra lenda do esporte, também já experimentou suas pranchas.

 

Um trabalho que deixa Alexandre orgulhoso foi o bloco com balsa especial para ondas grandes, usado pelo havaiano Laird Hamilton naquela que é considerada a onda do século, surfada em Teahupoo, Tahiti, com o shape finalizado por Billy Hamilton, pai de Laird.
 
Além de mini-models e longboards, a Balsa Blanks faz modelos para o kitesurf com madeira mais resistente com bastante aceitação, pela maior leveza e resistência em relação às pranchas de fibra.

 

Para fazer uma prancha de madeira balsa ocorre um processo complicado. A árvore precisa chegar à idade correta para o corte, algo entre 8 e 11 anos, sendo  todas registradas.

 

Para o produto ficar perfeito, a árvore precisa ser cortada na fase certa da lua, senão a prancha fica sem qualidade. O tronco pode ser fêmea ou macho e deve ser bem escolhido.

 

Depois de escolher a cor e densidade, leva-se o tronco ao forno. Depois, ele fica secando por 16 dias, para retirar 92% da umidade e oleosidade.

 

Assim, evita-se o processo da regressão após a laminação bem como o de ocorrência de rachadura. A partir daí, a madeira é cortada com precisão para a colagem das placas ficar  perfeita.

 

Depois, a madeira é colocada em uma mesa de prensa por vários dias para adquirir envergadura. Uma vez envergada, a madeira é novamente cortada para a colocação das longarinas –  de outro tipo de madeira , cedro ou figo – deixando os blanks (blocos) com uma nova combinação, para logo colar e prensar novamente por 15 dias, até ficar bem seca e possibilitar o começo do shape.

 

“Estou fabricando três tipos de blanks diferentes, o Chamber, madeira totalmente maciça; Pré-chamber, bloco com cavernas no meio; e outro de uma combinação de madeira balsa com poliuretano”, diz Alexandre.

 

“Temos que tomar esses cuidados para a prancha não fique pesada e com maior resistência”, esclarece.

 

“Existe uma grande curiosidade em relação aos troncos: Assim que a árvore é cortada, você pode carregar sozinho um tronco de 10 pés. Depois de algumas horas, quando o tronco está “morto”, fica tão pesado que tem que ser levado por várias pessoas ao mesmo tempo”, garante.

 

Os valores podem variar de acordo com o desenho e tamanho dos modelos. Uma prancha para tow-in sai em torno de R$ 1.9 mil, mesmo valor de um kitesurf.

 

Já um longboard pode chegar a aproximadamente R$ 4.3 mil. A principal vantagem das pranchas de madeira balsa é a flutuação, durabilidade e resistência.

 

Por ser feita de madeira nobre, não amassa e é praticamente inquebrável. Possui entre 300 e 500 gramas a mais de peso em relação às pranchas normais. No entanto, se tornam mais leves dentro da água por possuir maior flutuabilidade.

 

Sendo mais rápidas, tanto para entrar, como para sair do mar, podem suportar um surfista de aproximadamente 200 quilos!
 
Questionado a respeito da manutenção e se existe alguma maneira especial para consertá-las, Alexandre explica que não existe nenhuma diferença da prancha de fibra.

 

“Realmente não existe dificuldades para consertar. Se a prancha estiver trincada, lixamos até chegar à madeira, retirando todo o tecido anterior. Aí, coloca-se uma resina pura para isolar. Em seguida, coloca-se o tecido e finalizamos o conserto normalmente como qualquer prancha”, finaliza.

 

Habitual visitante do Brasil, Alexandre trabalha alguns meses em oficinas de São Paulo e Porto Alegre, tendo modelos expostos em várias lojas do país.

 

Independente da época, dos novos materiais e das invenções, Alexandre ultrapassa as barreiras e continua exercendo o trabalho artesanal dos ancestrais do surf.

 

Para realizar tal função, é preciso ter dom e sensibilidade, principais características dos verdadeiros artistas.

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