Carta sem data

Sem nome e sem origem

Surfista Peregrino dá sinal de luz de alguma praia remota do planeta. Foto: Arquivo pessoal Alexandre T. Piza.

Não recebia uma carta do Peregrino fazia o quê? Um ano? Dois? Já tinha me conformado que ele teria encontrado seu destino final em alguma bancada solitária ou que, mais provavelmente, cansou de escrever, sei lá, talvez desiludido com o que chamamos de ?comunicação?.

 

O fato é que, sem aviso prévio, surge uma missiva empoeirada.  Aliás, duas. A do Peregrino estava dentro de um outro envelope grande e marrom, cheio de traças, da Marinha Mercante de Angola, remetida por um tal Capitão José Lorençaço de Abracante.

 

O capitão me explicava, com uma letra de mão caprichada: ?Caro Senhor, descobrimos essa correspondência enquanto limpávamos o nosso arquivo morto. Não sabemos quando nem como veio parar aqui, nem quem a escreveu ou a quem pertence.

 

Pelo aspecto, imagino que deva ser de um homem do mar. Estava lacrada e com o seu endereço, portanto a enviamos intacta e intocada da forma que a encontramos. Não está datada, não tem o nome do remetente e nem sabemos em que porto das dezenas que atracamos nos últimos anos, embarcou clandestina. Espero que contenha boas notícias.

 

Saudações.

 

Capitão José Lorençaço de Abracante”.

 

Pela primeira vez o Peregrino chegou as minhas mãos indiretamente. Isso me deu uma estranha nostalgia, um distanciamento ainda maior frente a ele e de suas aventuras. A carta estava manchada de tinta azul-clara e com espessas nódoas de ferrugem numa das pontas, encobrindo boa parte dos selos. Pude ver em um deles o detalhe de uma cerimônia de dança da África, ou seria da Ásia? O outro, bem maior, estava completamente inutilizado, irreconhecível. Apesar da minha excitação, abri com calma para não rasgar as fibras do papel já detonado pelo sal e pelo tempo.

 

?Estou isolado do mundo. Feliz. Numa ilha sem título num mar sem fim. Não ouço voz humana há meses, e o que é mais surpreendente: não sinto falta. Surfei 10 dias e 10 noites, parando apenas para comer algumas frutas que eu havia colhido e colocado com antecedência, embrulhadas em folhas de bananeira, embaixo de uma rocha entre dois coqueiros em forma de cruz. Algumas já haviam apodrecido mesmo abençoadas pelo símbolo. Surfei 10 dias e 10 noites sem parar e, quando finalmente coloquei o pé na praia e adormeci sob o toar do vento, sonhei com um deserto.

 

Hoje de madrugada, depois de um sono pesado de doze horas, entrei novamente no mar. Mais uma madrugada de luz. A primeira onda veio de repente de um ponto distante, além da capacidade do meu pensamento. Procurei o verbo para definir o que eu sentia. Não precisava, não encontrei. Mesmo quando eu tiver mastigado todas as palavras, ainda assim, haverá sentimentos sem nome. Não pude avaliar o tamanho daquela onda, apesar de conseguir perceber seu cheiro. Por algum motivo ela se sentia instável, desequilibrada. ?Nada pessoal?, dizia, ?mas preciso quebrar, romper o longo ciclo de dor de não ser espuma, só ondulação?.

 

##

 

O Peregrino surfa a si mesmo em forma de água. Foto arquivo: Silas Hansen / Primophotos.com.

Entrei. Meus braços ainda meio entorpecidos pelo sono prolongado não me deram a tração suficiente. Meus ritos yogues matinais de desintoxicação foram feitos na íntegra, mas aparentemente, não com o devido cuidado ou em número suficiente. Não consegui sintonizar com o seu ritmo, com a perspicácia da onda, com o mântra da natureza, com a sua ânsia de quebrar, com o movimento das águas. Ela foi mais rápida e me atirou lá de cima.

 

Cai profundamente. Bati no fundo com força; entre as costas, o ombro direito e o pescoço. Por alguns instantes grudei na bancada. Senti minha pele cortar, só não sabia quanto nem exatamente onde. Logo em seguida uma parte de mim se desprendeu dos corais e saiu flutuando para a sobrevivência, e a outra parte ficou lá, colada, escorrendo e alimentando com meu sangue uma nova geração de plânctons e microorganismos vivos e pulsantes que eventualmente aumentarão ainda mais as cabeças de pedra, fortuitamente melhorando a formação das ondas. Apalpei o local, meus dedos entraram na ferida, mas não constatei nenhuma fratura. Comecei a nadar sentindo as peles fatiadas das costas moverem-se estranhamente, indo e voltando, como se batessem palmas, ovacionando ironicamente o pequeno desastre.

 

A próxima onda me pegou nadando no inside, mas ainda na zona de impacto. A prancha foi para a ilha e agora balançava nas pequenas mãos de sal das marolas da arrebentação. Essa nova onda jogou-me para o fundo num átimo. Raspei as costas novamente na bancada, dessa vez do outro lado, mais de leve. O fundo coçava gentilmente minhas costas com suas garras de falcão do mar, como uma amante impetuosa, curando alguns incômodos, desejos, dúvidas, e criando novos dilemas. O meu pé direito, porém, penetrou entre duas cabeças de coral e, ao retirá-lo, arranhei toda a perna até a altura do joelho, quase arrancando a rótula. O meu vermelho começou a tingir o azul. Respirei, buscando energias estocadas e mais consciência. Meu corpo respondeu e, depois de algumas braçadas muito prejudicadas pelos ferimentos, acabei chegando à praia.

 

Acomodei folhas de bananeira, mais frutas e algumas raízes embaixo de uma matilha de coqueiros agrupados que formavam uma espécie de cabana natural. O suficiente para uma semana. Sabia que ia ter que ficar convalescendo alguns dias antes de poder voltar ao mar. Limpei as feridas com água de coco e passei a seiva de algumas plantas nativas, iguais as que me haviam indicado nas Maldivas para casos semelhantes. Preparei-me e deitei confortavelmente na companhia dos gritos das aves, do salto dos peixes da beira e de um caranguejo vermelho curioso, que me fitava  do seu buraco com os olhos esbugalhados. Virei de lado com alguma dor, mirei o horizonte ondulante de maresia que parecia sustentar o sol no alto, e que logo iria se deitar com ele.

 

Daqui a alguns meses, quando as ondas quebrarem sobre aquela bancada, estarão quebrando com o auxílio da minha pele, da minha carne, do meu ser. Estarão incorporadas a eles. Meus tecidos crescerão abraçados aos milhares de outras criaturas marinhas que constituirão aquele coral e, portanto, aquelas ondas serei eu. Uma nuvem passou rindo. A onda que confronta o coral e quebra em função disso é parte dele, assim como ele é parte da onda. Serão agora parte de mim. Um gaivota passou. Essas ondas quebrarão por muitos, muitos e muitos anos imbuídas de um pequeno detalhe da minha identidade. Meu rosto sulcado no mar. Como resultado surfarei quem eu sou. Um surfista surfando a si mesmo em forma de água. Um surfista contribuindo com parte de si para a manutenção das pedras, corais e criaturas do oceano. Algo quase completo. Quase. Como a vida.?

 

 

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