Maresia Paulista Pro

Saulo Júnior leva o título

Apesar da derrota nas oitavas, Saulo Júnior fatura título da temporada. Foto: Daniel Smorigo.

Mesmo perdendo nas oitavas-de-final, o ubatubense Saulo Júnior garantiu neste domingo (14/12), o título do Maresia Paulista de Surf Profissional, com o encerramento da terceira e última etapa do Circuito, na praia de Itamambuca, Ubatuba (SP).

 

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Quem também comemorou foi Danylo Grillo, de São Sebastião, que terminou o ranking em quarto lugar e garantiu vaga para o SuperSurf 2009, e David do Carmo, de Praia Grande, o vencedor da etapa, com uma atuação muito forte no momento certo.

 

Outro beneficiado foi Hizunomê Bettero, também de Ubatuba. O surfista, que por muito pouco não ingressou no WCT, entrou para a lista dos classificados ao SuperSurf, pelo ranking Brasil Tour, apesar de perder logo na fase inicial do evento.

 

Davi do Carmo conquista sua primeira vitória no Paulista Pro. Foto: Daniel Smorigo.

Com ondas boas, de 1 metro, a competiu reuniu 76 surfistas, sendo 14 com possibilidades de chegar ao título paulista.

 

Saulo ficou na 17ª posição, perdendo por apenas 23 centésimos para Flávio Nakagima, de Praia Grande e, na bateria seguinte, viu seu conterrâneo e principal rival, Diego Santos, ser derrotado, para manter assim suas chances.

 

Daí em diante, valeu a torcida da areia e ele viu seus concorrentes sendo derrotados um a um, até comemorar ao final da segunda semifinal, quando o último concorrente, Leandro Santos, de Guarujá, não se classificou para a decisão.

 

Além da importância de colocar o seu nome na seleta galeria de campeões paulistas, Saulo ganhou uma moto 0km oferecida pela Tent Beach e o convite oficial para o Brasileiro de Surf na Pororoca, no Pará, Maranhão e Amapá, com todas as despesas pagas.

 

Já aliviado, ele lembrou que no ano passado, passou a mesma situação, tendo de torcer da areia para assegurar a vaga ao SuperSurf. ?Esta última etapa foi um sofrimento. Fiz uma reflexão enquanto acompanhava o final do campeonato e vi que nos últimos anos eu sempre perdia, não conseguia fazer o trabalho até o final e ficava dependendo dos resultados. Este ano não fugiu à regra?, comenta Saulo rindo.

 

?Parece que Deus me dizia: Vai até a metade e deixa o resto que eu faço. Deu tudo certo, não torci contra ninguém, apenas à favor do meu título e estou muito feliz pela conquista do circuito, que já teve altos nomes que despontaram como Hizunomê, Renato Galvão, Tadeu Pereira?, destaca o atleta de 23 anos, que recebeu o vale moto entregue por Adriano Fernandez, do marketing da Tent Beach.

 

Para 2009, o plano principal é o título do SuperSurf, em sua quinta participação na elite nacional.  ?É uma satisfação e uma honra ser incluído nesta lista de campeões. Este resultado vai me dar um gás a mais daqui pra frente e quero manter o meu desempenho para ser campeão brasileiro. Estou muito feliz de me sagrar campeão paulista aqui em Ubatuba, junto com meus familiares e amigos?, anuncia Saulo, que este ano também sagrou-se campeão profissional ubatubense.

 

A batalha pela vaga para o SuperSurf também foi definida na semifinal. Três atletas chegaram a esta fase com condições, inclusive de faturar o título.

 

O santista Giovanni Ferrante e Danylo Grillo atuaram juntos na primeira semi, mas foram superados pelo baiano Flávio Costa, um dos grandes destaques da etapa, e o experiente Wagner Pupo, o mais velho da etapa, aos 40 anos.

 

Na disputa seguinte, Leandro Santos era o único que poderia seguir na briga e numa bateria muito equilibrada não conseguiu superar o local Costinha e David do Carmo. Como Saulo, Diego e David já estavam assegurados na elite, Danylo pôde festejar seu retorno.

 

?A partir de agora, terei de me dedicar o SuperSurf e terei de surfar para buscar resultados. Surfar é o que mais gosto de fazer e dou toda a prioridade, pois minha vida está toda voltada para isso?, diz Danylo Grillo.

 

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Danyllo Grillo garante vaga para o SuperSurf 2009. Foto: Daniel Smorigo.

Ele não quer criar expectativas, mas acredita estar bem preparado para enfrentar a nova situação. ?Estou mais maduro, com 28 anos, e sinto que as coisas são diferentes agora, pois quando eu era mais novo, arriscava muito algumas manobras e acabava errando em alguns casos. Hoje, estou procurando surfar mais dentro do critério de julgamento. Vou entrar com tudo, mas, por enquanto, não dá para falar muito. Temos de esperar as etapas para traçar as estratégias?, acrescenta ele.

 

David do Carmo garante primeira vitória no Paulista – Com uma atuação quase perfeita no momento certo, ele garantiu a sua primeira vitória no Circuito Paulista Profissional. Na decisão, o baiano Flávio Costa, que vinha fazendo grandes atuações, saiu na frente, com uma nota 7,17, parecendo que dominaria a bateria. Mas David encaixou as manobras e em sua segunda onda arrancou 8,5 pontos no critério de notas excelentes.

O baiano Flávio Costa fica com o vice na etapa. Foto: Daniel Smorigo.

A disputa seguiu equilibrada até que o atleta de Praia Grande quase repetiu a sua pontuação, com 8,4, para disparar na frente. O surfista baiano não desistiu. Precisava de 9,73 para virar o resultado e chegou perto, com 8,33. No placar final, David teve o melhor somatório de todo o evento, 16,90 de 20 pontos possíveis, contra 15,70 de Flávio, confirmando o alto-nível técnico da disputa.

 

Com a vitória, ele embolsou R$ 4 mil de uma premiação de R$ 15 mil, e terminou o Circuito na terceira posição, atrás de Saulo Júnior e Diego Santos.

 

?Eram quatro atletas com muita vontade de vencer, mas mantive a calma e Deus me mandou uma esquerda alucinante, que foi fundamental para eu conquistar a vitória. Quero agradecer à minha mãe, uma pessoa que sempre está comigo, ao meu shaper e à Nicoboco. O evento está de parabéns, a Maresia, todos os atletas e estou muito feliz?, vibra David.

 

?Quero curtir muito esta vitória junto com os meus amigos. Este ano foi o melhor da minha carreira. Fiquei em 5º lugar no mundial WQS 5 estrelas e esta vitória veio em boa hora. Eu sempre ficava em segundo e terceiro e todos falavam que minha hora ia chegar e hoje foi o meu dia?, ressalta o atleta.

 

Empolgado, ele voltou a lembrar a mãe. ?Devo tudo a ela, a melhor pessoa do mundo para mim. No ano que vem estarei no SuperSurf e vou lutar pelo título. Quero agradecer a Deus e a todos que torceram e que gostam de mim. Estou fechando o ano com chave de ouro?, finaliza David.

 

Costinha, com 13,47, ficou em terceiro e Wagner Pupo, que chegou a cogitar a aposentadoria, foi o quarto, com 10,57. ?Essa final foi muito importante, pois mostrei que ainda posso chegar em condições de igualdade, inclusive contra a garotada?, afirma Wagner, que também acompanhou o seu filho, Miguel Pupo, 17 anos, na disputa pelo título (foi derrotado nas oitavas).

 

Balanço ? O gerente comercial da Maresia, Paulo Hutter, fez um balanço positivo do Circuito. ?Começamos o Circuito na Praia de Maresias, em São Sebastião (SP), com altas ondas, sol, vários atletas renomados. Depois fomos para Guarujá, tivemos um ótimo público no Canto do Maluf e fechamos o ranking em Itamambuca com tempo bom, boas ondas e sempre com gente bonita. Quero agradecer aos lojistas que sempre nos dão um apoio legal para realizarmos o Circuito Paulista?, fala Paulo.

 

?É sempre bom estar numa vitrine como São Paulo. O Saulo mandou bem durante as etapas, o título está em boas mãos e espero que no ano que vem o Circuito Paulista tenha o mesmo sucesso? argumenta Hutter, informando que se reunirá com a diretoria da Maresia para acertar os detalhes para 2009 e, se possível, melhorar ainda mais o campeonato.

 

?Ainda não fechamos a programação, mas acho que não vai haver maiores dificuldades para o ano que vem, pois a Maresia investe muito no surf como foi feito no Circuito brasileiro amador, na etapa do WQS, no Cearense e no Paulista Pro?, relata ele.

 

25 anos ? Saulo Júnior foi o 25º campeão paulista profissional da história do Circuito, que começou em 1980. Grandes surfistas já escreveram os seus nomes na galeria de títulos, como Almir Salazar, único tetracampeão da história, seu irmão, Picuruta, Tinguinha Lima, Jojó de Olivença e Renan Rocha.

 

Dos 24 títulos até hoje, Ubatuba faturou sete, com Narciso de Oliveira, Tadeu Pereira, Odirlei Coutinho, Hizunomê Bettero, Renato Galvão (duas vezes) e agora Saulo.

 

O Maresia Paulista de Surf Profissional é uma realização da Federação Paulista de Surf. Patrocínio: Maresia. Co-patrocínios: Tent Beach, Ilha do Surf, Surftrip, ZN, Super Tubes, Sun Rocha, Trash e Ousadia. Apoios: Fluir, Waves, Movie Action, Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer, do Governo do Estado de SP, Prefeitura Municipal de Ubatuba e Associação Ubatuba de Surf. Supervisão: Abrasp.

 

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Costinha sobe ao pódio em casa. Foto: Daniel Smorigo.

Ranking final do Maresia Paulista Pro 2008

 

1 Saulo Júnior ? Ubatuba ? 1.990 pontos

2 Diego Santos ? Ubatuba ? 1.915

3 David do Carmo ? Praia Grande ? 1.875

4 Danylo Grillo ? São Sebastião (São Paulo) – 1870

5 Felipe Martins ? Fortaleza (CE) (Santos) ? 1.730

6 Leandro Santos ? Guarujá ? 1.715

7 Giovanni Ferrante ? Santos ? 1.560

8 Gabriel Medina ? São Sebastião ? 1.490

9 Edgley Santos ? Ubatuba ? 1.430

10 Miguel Pupo ? São Sebastião ? 1.410

11 Heitor Pereira ? Guarujá ? 1.400

12 Wagner Pupo ? Peruíbe (São Sebastião) ? 1.390

13 Gustavo Henrique ? Ubatuba ? 1.300

Wagner Pupo mostra que está no rip e dá trabalho para a molecada. Foto: Daniel Smorigo.

14 Ricardo Ferreira ? Praia Grande ? 1.250

14 Emerson Piai ? Praia Grande (Guarujá) ? 1.250

15 Jorge Spanner ? Rio de Janeiro ? 1.210

16 Ricardo Silva ? Guarujá ? 1.170

17 Jefferson Sobrinho ? Ubatuba ? 1.130

17 Beto Fernandes ? Praia Grande ? 1.130

 

Resultados da terceira etapa

 

1 David do Carmo ? Praia Grande ? 16,90

2 Flávio Costa ? Ilhéus (BA) ? 15,70

3 Costinha ? Ubatuba ? 13,47

4 Wagner Pupo ? Peruíbe (São Sebastião) -10,94

5 Emerson Piai ? Praia Grande (Guarujá)

5 Danylo Grillo ? São Sebastião (São Paulo)

7 Leandro Santos – Guarujá

7 Giovanni Ferrante – Santos

9 Gabriel Medina ? São Sebastião

9 Flávio Nakagima ? Praia Grande

9 Clayton Nunes – Ubatuba

9 Felipe Martins ? Fortaleza (CE) (Santos)

13 Matheus Toledo – Ubatuba

13 Odirlei Coutinho – Ubatuba

13 Ricardo Silva – Guarujá

13 Gustavo Fernandes ? Rio de Janeiro (RJ)

17 Isaias Silva ? Ubatuba

17 Edgley Santos ? Ubatuba

17 Renato Galvão ? Ubatuba

17 Saulo Júnior ? Ubatuba

17 Heitor Pereira ? Guarujá

17 Jorge Spanner ? Rio de Janeiro (RJ)

17 Miguel Pupo ? São Sebastião

17 Dodô Veiga ? Praia Grande

25 Andrew Serrano ? Santos

25 Beto Fernandes ? Praia Grande

25 Edgard Bischoff ? Ubatuba

25 Marco Aurélio ? Ubatuba

25 Diego Santos ? Ubatuba

25 Popó Batista ? São Vicente

25 Leandro Moulin ? Jacaraípe (ES)

25 Igor de Morais ? Rio de Janeiro (RJ)

 

Galeria dos campeões paulistas profissionais de surf

 

2008 – Saulo Júnor – Ubatuba
2007 – Renato Galvão – Ubatuba
2006 – Bruno Moreira ? Praia Grande
2005 – Hizunomê Bettero ? Ubatuba
2004 – Beto Fernandes ? Praia Grande *Campeão Do Circuito – Simão Romão (RJ)
2003 – Odirlei Coutinho – Ubatuba
2002 – Renato Galvão – Ubatuba
2000 – Maicon Rosa – Guarujá
1999 – Tadeu Pereira – Ubatuba
1998 – Jair De Oliveira – Santos
1997 – Jair De Oliveira – Santos
1996 – Tinguinha Lima – Guarujá *Campeão Do Circuito – Joca Júnior (RN)
1995 – Narciso Oliveira – Ubatuba
1994 – Jair De Oliveira – Santos
1993 – Jojó De Olivença – Guarujá
1992 – Tinguinha Lima – Guarujá
1991 – Renan Rocha – São Paulo
1990 – Douglas Lima – Santos
1989 – Picuruta Salazar – Santos
1988 – Amaro Matos – Guarujá
1987 – Almir Salazar – Santos
1986 – Almir Salazar – Santos
1985/84 – Paulo Rabello ? Guarujá
1983/82 – Almir Salazar ? Santos
1981/80 – Almir Salazar ? Santos

 

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.