Este texto é uma pequena homenagem ao Zeca, em memória ao seu vasto trabalho e à lembrança da sua luminosa pessoa.
O dedico em especial, à figura deste grande homem que se encontra eterno onde estiver e à paz de sua família e amigos.
Algo que posso falar de Zeca Scheffer com propriedade, é sobre o trabalho que ele vinha desenvolvendo em volta do tow-in.
O que sei é o que presenciei e ajudei a por em prática. Por mais que fossemos uma dupla e decidíssemos em conjunto as ações a serem executadas, o Zeca era a liderança dentro de uma hierarquia natural baseada no respeito, na confiança e na amizade.
Desde o Elcio da Storm Surf Team e do primeiro jet-sky usado no estado para pegar onda com reboque, dois sonhos que nasceram das idéias dele, já dava pra perceber que em sua mente havia algo muito mais complexo do que apenas pegar onda. Algo que eu mesmo, só vim compreender algum tempo depois através da convivência.
Idéias como desenvolver Torres conscientemente através do surf e carregar a bandeira da preservação ecológica e do desenvolvimento sustentável, bem como balizar uma área própria para tow-in na Praia da Itapeva em Torres.
Assim como as de surf, pesca e banho também o são, ainda fogem do imaginário de muito tow surfer e já vinham entre seus planos originalmente.
Isso impediria a proliferação desordenada do esporte, auxiliaria no treinamento de resgates, não criaria conflitos com o surf na remada ou entidades ambientais, corresponderia em segurança e organização.
José Luis de Mattos Scheffer foi fundador e presidente da Associação Gaúcha de Tow-in, criada em 2002.
Eu lembro do Zeca comentando com o Capilé que queria montar essa entidade logo no primeiro dia do curso de tow-in que tivemos com ele e Rodrigo Resende naquele mesmo ano.
O Capilé olhou pro Zeca com uma cara de desconfiado e disse: “não seria melhor vocês terem um jet-sky antes??.
Atualmente existem duas organizações do esporte no Brasil, a AGT (associação gaúcha de Tow-in), filiada em Torres, em volta da Ilha dos Lobos e a Atowinj (associação de Tow-in de Jaguaruna) em Santa Catarina, em volta da Laje da Jagua.
Ambas são de iniciativas do Zeca, em ondas que ele foi o primeiro a desbravar com reboque e com estatuto baseado em suas idéias e intenções.
O lado do Zeca tow surfer eu não quero levantar agora, o que eu quero expor é o profissionalismo, o empreendedorismo e a visão humana e ecológica com que ele encarava o tow-in e a idéia de descobrir novos picos de ondas grandes na costa do Atlântico Sul.
Para os resgates que efetuava voluntariamente criou uma entidade especial, feita para servir como anjo da guarda dos surfistas na Ilha dos Lobos e da população civil em geral.
Seu nome é Jet Patrol e cumpre uma função de patrulha aquática onde os jets são utilizados nas piores situações de mar visando salvar vidas, mesmo de noite na escuridão profunda com ondas de ressaca.
Essa espécie de operação com visão ínfima é algo altamente desaconselhável, pelos órgãos responsáveis e realizadas por ele de todo coração, nos momentos cruciais em que a vida do próximo estava realmente por um triz.
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Em Torres ele detinha uma preocupação especial com a orla relacionada a uma famosa corrente marítima local denominada Marieta. Muitas foram as vezes que ele embarcou por essa correnteza adentro com sua prancha para surfar na Ilha dos Lobos.
Cabe salientar que o Zeca surfou lá por meados dos anos 90 até 2002, apenas com sua própria prancha. Sua relação com a Reserva e o Ibama local sempre foi tranqüila, natural de uma pacata cidade litorânea.
Quando o conheci, já me descrevia que sempre comunicava o órgão responsável antes de remar por lá para esclarecer quem estava surfando antes que as tiazinhas dos prédios começassem a ligar apontando pessoas em volta da reserva.
Esse procedimento rotineiro segundo ele relatava, evitava o deslocamento desnecessário de pessoal e equipamento por parte do Ibama, pois se sabia de antemão que os usuários da área não estavam alheios às regras que por ali vigiam.
A principal delas em relação ao surf é a de não subir nas pedras da Ilha, famosa lei expressa que se faz cumprir com o objetivo de não assustar os animais e interferir no seu descanso.
A posição bípede humana é sinal de ataque para lobos e leões marinhos, o que os faz correr para seu habitat mais seguro, o mar. Esse alerta constante pode pô-los em situação de estresse e atrapalhar o repouso de sua longa jornada.
O lado da segurança humana também era primordial na visão do Zeca. Muitas foram as vezes que treinamos os movimentos de resgate às vítimas conscientes e inconscientes.
Ele fazia questão de repetir com austeridade todos os procedimentos da maneira mais real possível.
O Zeca chegou a organizar uma aula de ressuscitação cardio-pulmonar com o pessoal da Cruz Vermelha Internacional, específica para atletas em situações de mar.
Seu conhecimento de mecânica náutica envolvendo jet-skys era incrivelmente elevado e foram incontáveis as vezes que ele reparou algum equipamento que sem sua presença teria encerrado a sessão antes mesmo dela começar.
Ele estava sempre atento aos inúmeros reparos constantes que um jet-sky, principalmente os modelos mais antigos e acessíveis, como os que utilizava necessitam.
Logo no nascimento da equipe, antes mesmo do tow-in ser colocado em pratica realmente nas sessões off-shore de Torres no ano de 2003, ele já vinha buscando uma parceria com mecânicos náuticos a fim de coletar informações e conhecimento a respeito da manutenção e reparo desse tão frágil equipamento, que indiscutivelmente é a mais ágil e eficaz maquina em serviço na zona de arrebentação de ondas.
A vontade que o Zeca se empenhava em surfar ondas tão grandes e fortes, que poucos anos atrás eram sequer imagináveis na costa brasileira, e que verdadeiramente pediam a utilização de jet-skys para realização do surf, fez com que todo o esporte nacional colhesse frutos do seu trabalho.
Hoje já se fala em Circuito Brasileiro de Tow-in, em colocar o Brasil no mapa das grandes ondas mundiais e em descobrir novas bancadas inimagináveis até pouco tempo atrás.
O primeiro campeonato brasileiro do esporte foi realizado seis quilômetros mar adentro, graças à sua obstinação e inteligência e agora a futura Confederação Brasileira de Tow-in Surf receberá como base o estatuto que ele criou para a AGT.
O fato de ter crescido surfando as ondas da Ilha dos Lobos na remada, mesmo em dias extremos, dava a ele, propriedade para freqüentar qualquer pico de ondas grandes do planeta.
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Não é à toa que as duas maiores ondas do Brasil têm seu nome gravado subliminarmente nos seus tubos. A pessoa do Zeca era uma legítima autoridade quando o assunto era big surf, já que ele detinha o conhecimento empírico dos riscos envolvidos nessas situações baseado nas diversas vezes em que participou de raríssimas movimentações descomunais de água.
A que hoje é considerada a mais incrível onda do planeta, chamada Teahupoo no Tahiti, foi a primeira e inevitável comparação que se fez à onda de Torres quando essa veio a publico realmente em 2003, tamanha familiaridade. A relação do Zeca com a Ilha dos Lobos, muito faz lembrar a de Jeff Clark com Mavericks, na Califórnia.
O dia em que desbravou de tow-in na Laje da Jagua foi algo realmente mágico. Ele, Rodrigo Resende, e Dê da Barra vinham de Florianópolis diretamente em direção a Ilha dos Lobos quando o reboque que carregava o jet-sky teve um dos rolamentos da roda estourada em movimento.
Após efetivar o conserto e constatar que o tempo perdido tornava inviável a chegada em Torres antes da noite cair, ele se convenceu que aquele tinha sido um aviso de Deus e que a tal laje que se encontrava ali perto, famosa por nunca ter sido descoberta pelos surfistas e que hoje é conhecida como Laje da Jagua, poderia ser surfada pela primeira vez com reboque e ter seu potencial revelado.
Saindo da orla com seu jet-sky e o parceiro Rodrigo Resende, já com o sol se pondo atrás das montanhas da serra, sem saber a localização correta da bancada que se encontrava 6 km mar adentro, eles ainda tiveram tempo de surfar três ondas cada um.
Zeca teve a honra de ser o primeiro a fazer tow-in no pico e Resende, apos pegar um tubo enorme, logo comparou a Laje da Jagua com Back Door, no Hawaii.
Ao retornarem, na quase escuridão total, se valeram dos faróis do carro que piscavam na praia indicando a localização do porto seguro que os aguardava. Ao chegarem em terra, concluíram ter descoberto o que chamaram de a direita da Ilha dos Lobos.
As duas maiores reuniões de tow surfers no Brasil foram à volta da sua pessoa, na Ilha dos Lobos em 2003 e na Laje da Jagua em 2006. O real tow-in praticado nos pais, em bancadas off-shore com ondas oceânicas, será para sempre a continuidade do seu trabalho.
Explorar lajes, desbravar novos picos em dias de swell extremo, o que os pescadores chamam de ressaca e os surfistas de storm. Achar as ondas perfeitas perdidas pela costa justamente nos dias que todas as praias estão com tamanho acima do permitido e colocar o Brasil no mapa mundial das ondas grandes.
Catalogar e surfar as bancadas que seguram as maiores ondulações, fundos de pedra, montanhas submersas, picos desconhecidos. Esse era seu foco principal, organizar o esporte era a forma de alcançar esse objetivo mais rapidamente.
No verão de 2005, em Torres, a Jet Patrol trabalhou em conjunto com a Brigada Militar na operação Golfinho. Foi a introdução do jet-sky em salvamentos no estado e o resultado foi perfeito, já que nenhuma morte foi registrada por afogamento durante a empreitada.
Atualmente o Zeca estava fazendo aulas de inglês para ir à Califórnia treinar com Shawn Aladio, a maior autoridade em resgates aquáticos com uso de jet-skys do planeta. Ele tinha a intenção de implantar o uso dessas máquinas nas principais praias do Rio Grande do Sul e diminuir o numero de afogamentos na temporada de verão gaúcha.
Quando havia uma onda nova, prestes a ser descoberta ele ia ao encontro do pessoal local para expor suas intenções e fazia questão de levar os nativos (que se encorajavam) nas barcas para não os deixarem de fora do seu próprio pico. Usando técnicas de busca que ele mesmo maquinava, já tinha descoberto mais de cinqüenta lajes catalogadas no Sul do Brasil, visando as grandes ondulações.
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Uma de suas principais intenções atualmente era uma busca que estava sendo organizada em conjunto com a aeronáutica e estudada com bons olhos por autoridades competentes para fazer-se uma confirmação fotográfica off-shore de uma montanha marítima, mãe da possível Jaws brasileira.
A Furgs, de Rio Grande, também já havia sido contatada para realização de pesquisas visando a veracidade de real situação em águas nacionais.
No maior swell já registrado nas bóias oceanográficas do país, em 14 de Novembro de 2004, a Storm Surf Team estava na água o dia inteiro e com um jet-sky reserva na areia caso necessitasse de uma troca. Especularam-se séries de 18 a20 pés no beach break do Cardoso, Farol de Santa Marta/SC.
Quanto à preocupação ecológica referente ao jet-sky, o Zeca era um cara extremamente consciente e prudente. Quando muitos condenavam o uso dessa máquina em meio aos animais marinhos da Ilha dos Lobos ele abraçou a dúvida e retirou seu equipamento de perto até ter a confirmação necessária.
Logo de inicio enviou um aviso a todos tow surfers do país para fazerem o mesmo. O respeito que desperta em seus pares fez com que até hoje nenhum caso de violação referente ao esporte fosse registrado no local que ele tanto amava.
Em 2003, quando a Storm Surf Team foi atacada publicamente em meio ao surf na Ilha dos Lobos, José Luis de Matos Scheffer teve o bom senso de aguardar respostas e buscar uma solução ecologicamente correta para o caso.
Zeca Scheffer foi o representante local do surf na Assembléia Publica de Recategorização da Ilha dos Lobos, ocorrida em 2005 e em todas demais relações envolvendo o assunto e as entidades competentes.
Seu nome é a linha de frente no processo de liberação ordenada do esporte no local e seu vasto trabalho, serve como essencial ferramenta de consulta a qualquer um que deseje efetuar uma abordagem seria e coerente envolvendo o assunto, principalmente quando se diz respeito à futura feitura do Plano de Manejo que esta por ocorrer.
Enquanto os críticos apenas falavam e nada faziam, Zeca foi atrás de um estudo de impacto ambiental referente ao uso dos jets e ajudou a concluí-lo, algo que ocorreu nesse último ano de 2006.
A pesquisa foi feita pelo oceanógrafo João André de Mendonça Furtado, em parceria com a UNIVALI de Itajaí (SC) e sobre a supervisão do Ibama de Torres.
O resultado foi o que já se esperava. Ficou comprovado que o impacto gerado pelo tow-in no Refúgio da Vida Silvestre da Ilha dos Lobos é irrelevante para a vida marinha local, o que não foi grande surpresa no meio especializado.
Muitas foram as vezes que os surfistas de Torres se dirigiram às furnas, cavernas rochosas localizadas entre os morros e o mar, para retirar voluntariamente o lixo que ali se depositava em ações conjuntas promovida pela AST.
Como presidente da AST, Associação dos Surfistas de Torres, por dez anos que foi, esta era apenas uma de suas iniciativas positivas perante a comunidade, pois a Jet Patrol, que desempenhava também uma função ecológica no município, se prontificou a repetir a ação valendo-se do jet-sky como forma de agilizar o processo e acrescentar segurança aos desportistas.
O resultado foi surpreendente e dez sacos de cinqüenta litros contendo detritos indesejáveis ao meio ambiente, foram recolhidos em algumas horas de trabalho. A limpeza das furnas pelos tow surfers chamou a atenção da mídia gaúcha e virou matéria do Programa Patrola da RBS TV.
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Muitos foram os documentos contendo estudos e pesquisas que a AGT, através da pessoa do Zeca, protocolou no Ibama ao longo desse período visando esclarecer o real uso do surf com reboque.
Ele buscava demonstrar o quanto o esporte poderia ser útil tanto para o meio ambiente, quanto para a situação social do município de Torres, e isto desde as primeiras sessões feitas em 2003, ou seja, algo que não nasceu de uma situação adversa e sim já vinha impregnado na sua consciência desde o inicio.
Ele gostava de repetir que um surfista que realmente tem água salgada correndo nas veias, não pode ignorar o mar e os seres que convivem com ele.
Em Torres, o Zeca colocou a Jet Patrol a serviço do Corpo de Bombeiros, disponibilizando os jets para possíveis resgates ao longo de todo o ano. Ele também tinha se prontificado junto a Associação Local de Pescadores para colaborar com esta em situações adversas, visando o auxilio dos homens do mar.
Quanto ao Ibama, Zeca visava colaborar com o seu trabalho através da Jet Patrol, colocando seus serviços à disposição do mesmo e contribuindo com o trabalho do órgão federal em possíveis situações envolvendo busca de animais ou o que fosse necessário.
Quando na Laje da Jagua começou a se especular um possível incômodo, por parte dos jets às Baleias Francas, nas épocas que elas vinham às nossas águas, o Zeca convocou através da Atowinj, Associação local de tow-in que ajudou a criar, uma reunião com as entidades ecológicas responsáveis e com a prefeitura local para expor suas boas intenções, esclarecer possíveis dúvidas e se disponibilizar a ajudar no que fosse possível.
Essa forma clara, aberta e honesta com que gostava de trabalhar era o carro-chefe de suas ações, baseadas em um pensamento que expressava com freqüência, no qual dizia que não gostava de passar por cima do trabalho dos outros.
E o primeiro campeonato brasileiro de tow-in foi feito ali, pelas suas mãos em 2006, no melhor estilo Zeca Scheffer de ser.
Sua vida e sua história, seu caráter e seu heroísmo, estarão para sempre em nossos corações como um exemplo a ser seguido.
Mais uma vez, obrigado!




