A primeira vez que eu vi Tiago Pires ?Saca? surfando foi há uns 12 anos. Saí um pouco mais cedo da sala de shape, peguei minhas coisas e zarpei para Ericeira para poder pegar umas ondas no fim de tarde, num dia ensolarado de primavera e de pouco vento.
Para quem vem do Sul, a primeira parada para checar as ondas é a Pedra Branca, um point break com uma esquerda tubular e perfeita que quebra com meia maré e maré cheia sobre uma laje rasa de pedra. Até lembra um pouco a onda do Félix.
Lá o sol se põe no mar e seu reflexo não deixava ver muito bem quem estava dentro. As ondas estavam com mais de 1 metro, lindas.
Havia apenas dois surfistas na água e reconheci logo um deles, era o Mica Lourenço, um bom e respeitado surfista local. Mas o outro, pensei comigo mesmo, deve ser algum australiano, algum gringo.
Era comum encontrar bons surfistas estrangeiros vagueando pela costa portuguesa se aventurando, instigados pelas histórias de ondas maravilhosas que ouviram falar nas suas viagens em busca de ondas solitárias.
As linhas que ele fazia na onda não eram as habituais vistas em Portugal, com um surf já bastante evoluído, muito acima da média.
Caí na água e perguntei ao Mica quem era aquele surfista. Era o Saca, na época com 15 ou 16 anos de idade. O seu surf já não era uma promessa, era um fato consumado. Tive a certeza de que ele iria despontar em pouco tempo, no mínimo no cenário europeu.
Claro que ainda havia de passar por muita coisa. Já vi muitas promessas e muito garoto com um surf excelente se perderem nos excessos das rebeldias juvenis, nos vários caminhos que levam aos prazeres fáceis que a vida e o próprio estilo surf de vida induzem, às vezes até por não terem um guia, alguém que os poderia ter orientado.
Saca teve a sorte de encontrar o Zé Seabra em seu caminho. Um caminho que parecia certo e mesmo assim sei que não foi fácil. Com certeza ele teve seus momentos de desânimo, desapontamento, lesões e muitos obstáculos. Sei que foi com muita garra, luta e determinação que ele chegou onde está.
Acho que nem é preciso dizer que fiquei emocionado, como a maioria de portugueses e brasileiros, com a eletrizante vitória sobre a ?lenda viva? Kelly Slater na terceira rodada do Rip Curl Pro Search em Uluwatu.
É que não foi uma vitória qualquer! Não preciso detalhar a bateria. Quem viu, assistiu a vitória de um surf seguro e bonito, da técnica, inteligência, estratégia, sangue frio, cabeça fria, presença de espírito, esperteza e humildade, numa luta de igual para igual, exatamente como nós brasileiros e portugueses gostamos tanto de ver e admirar.
Procurando na minha memória alguma situação análoga que possa servir de comparação, acho que posso dizer que foi uma vitória à ?la? Ayrton Senna…
Saca, muito obrigado! Desejo de coração que continues por muito tempo a nos encantar com baterias como essa!