BB Barcellos

Roubadas e sorte na estrada

Barcellos passou frio, quase dormiu na rua, mas se deu bem nas Ilhas Reunião. Foto: Arquivo Pessoal.

Aposto que todos os surfistas já passaram por um perrengue. Se não passaram, logo passarão. Pode ser atleta profissional ou de final de semana. Quem nunca chegou em um lugar desconhecido e deu tudo errado? 

 

Você não fala a língua local, a suposta pessoa que iria te buscar não aparece e ainda vem aquele monte de taxistas, todos mal intencionados e gritando: “taxi, taxi”. Ninguém merece.

 

Confesso, sou profissional dentro e fora água. Organizo minhas passagens com bastante antecedência, mas nunca chego em lugar algum com carro alugado e casa para ficar. Sempre viajo sozinho. Aí já viu. Se contasse aqui todos os perrengues, seriam no mínimo dez colunas.

 

Mas não posso negar, sou um dos caras mais abençoados e sortudos desse mundo. Quando parece que tudo está errado, eu falo: “Chega, não é Deus? Agora começa a ajudar porque aqui já deu”. E então vem sempre aquela ajudinha divina. Parece que tudo começa a conspirar a meu favor.

 

Vou relembrar aqui alguns famosos perrengues…

 

No meu segundo ano de circuito mundial, ainda falava um inglês muito básico, mas já estava acostumado e viajava sozinho. Buscava aprender rapidamente a língua estrangeira. 

 

Comprei uma passagem para as Ilhas Reunião e cheguei três semanas antes do campeonato começar. A ilha é maravilhosa. Fica situada ao Leste de Madagascar, no oceano Índico. Um verdadeiro paraíso, com altas ondas. Então surge um problema: o idioma francês. 

 

Estava sozinho no pico. Tinha cerca de US$ 235 e a inscrição do campeonato. Peguei um mapa da ilha e mostrei para um motorista de ônibus o lugar onde ficaria. 

 

Meu inglês era ruim, mas vocês não fazem ideia da fluência do inglês do motorista. Em certo momento ele parou o ônibus, fez eu descer e apontou um outro coletivo. Este sim me levaria para o caminho certo. Tudo feito com comunicação precária. 

 

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Depois de encarar um taxista sinistro, o carioca relaxa nos tubos mexicanos. Foto: Reprodução.

Me tranquilizava saber que estava em uma ilha. Mesmo que vá pelo caminho mais longo, você chega onde quer.

 

Um ano antes havia me hospedado em uns chalés de frente para a praia. Na ocasião, estava com Marcelo Pedro, Daniel Rocha e Paulo Esteves, logo, o preço da hospedagem foi leve. 

 

Sozinho o contexto era outro. Nos mesmos chalés, daria cerca de US$70 por dia. Ao lado ficava o melhor hotel da região: US$ 90 por dia, com as três refeições inclusas (eu tinha US$235). Fiz o check-in no hotel cheio de pose e pensando em como pagar a conta. 

 

No dia seguinte, como se fosse um presente, entrou uma ondulação clássica e Saint-Leu quebrava de gala. Da janela do quarto dava para ver as linhas e as ondas perfeitas. Por sorte, a gerente do hotel também pegava de bodyboard.

 

No segundo dia do swell avisei que não tinha mais dinheiro. Ela riu, me chamou de maluco e me forneceu outro quarto. Fiquei mais três dias ali. Sem pagar nada. Depois disso, descolou a casa de um local onde permaneci por três semanas. Começou o campeonato, mandei bem e ainda voltei com uns dólares pra casa.

 

Outro perrengue engraçado foi no ano 2000, na Califórnia (EUA). Estávamos eu e Diego Cabral competindo o US Open. Era nossa primeira final de mundial. Logo depois do campeonato, compramos uma passagem para a Cidade do México. A idéia era ir de ônibus até Puerto Escondido. Chegamos no México e pegamos um taxi. Então começou o perrengue. 

 

O cara nem era taxista. Dirigia uma lata velha e entrava em ruas sinistras. Achei que não iria escapar daquela roubada. No fim, deu tudo certo. Ele deixou a gente na rodoviária. Fomos comprar as passagens. Infelizmente, não tinham mais ônibus para Puerto naquele dia. 

 

Fui no guichê da empresa de ônibus e perguntei se tinha algum transporte que iria na mesma direção. Por sorte, um ônibus estava saindo para Acapulco em cinco minutos.

 

Parecia “Sessão da Tarde”. Eu e Diego doidos para pegar onda em Puerto, dentro de um ônibus indo para Acapulco. Como sempre, no final deu tudo certo. Conseguimos, depois de 13 horas de viagem, chegar em Zicatela. Pegamos altas ondas, fizemos a cabeça e ainda tínhamos a grana da final na Califórnia.

 

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Paulo Barcellos aproveita início de temporada clássico no North Shore de Oahu, Hawaii. Foto: Arquivo Pessoal.

De todos, acho que o perrengue que passei nas Filipinas foi o pior. Na época, só eu e o Guilherme Tâmega competíamos no Super Tour. Estava na Indonésia para correr a etapa de Mentawaii. Resolvi ir para as Filipinas e comprei uma passagem de Bali para Sebu, com pernoite na Malásia.

 

Ainda não tinha laptop. Anotei o nome do destino, uma pequena Ilha, em um pedaço de papel. Só um detalhe: nas Filipinas existem quase 7 mil ilhas.  

 

Como sou uma pessoa muito organizada, perdi o papel. Dentro do avião perguntei para um filipino como é que se chegava em uma outra ilha. Dessa eu lembrava o nome. O cara explicou e perguntou se era minha primeira vez no pico. Disse para eu tomar muito cuidado, pois sempre aconteciam assaltos e não era bom andar sozinho. 

 

Cheguei no aeroporto de Sebu, logo depois de Manilha (capital da Filipinas), o segundo ponto de entrada dos vôos internacionais no país. Fui ao centro de informações e soube que não tinham mais vôos para Siargão naquele dia. Siargão é uma ilha localizada a duas horas do tão sonhado point de Cloud 9. Descobri existir um barco para o pico. Fui no porto e comprei a passagem. 

 

Como não sabia de nada, comprei a passagem na classe mais baixa por US$ 1,5. As camas pareciam macas de hospital. Não tinha nada para me cobrir e estava bem frio. Lembro que abracei a mochila – onde estavam meu passaporte e minha câmera – e tentei dormir. 

 

Acordei de madrugada morrendo de frio. Olhei para a cama do lado. Um filipino dormia tranquilo com uma coberta. Não resisti. Puxei a coberta e me cobri. Foram 40 minutos de um sonho profundo até o cara acordar e tomar a coberta de volta. Aí já viu. Eu esperava ele dormir profundo e roubava novamente.

 

Depois de 12 horas cheguei em Surigão. Descobri que rolava apenas um barco por dia para Cloud 9. Entrei no barco e não consegui comprar a passagem. Estava lotado. No desespero, continuei na embarcação sem ter passagem. 

 

A guarda costeira interferiu e começou a tirar todo mundo sem passagem do barco. Quando o guarda chegou perto de mim, viu minha cara de desespero e me liberou para viajar no porão. Parecia um clandestino fugitivo de guerra. 

 

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Em Teahuppo, Tahiti, Barcellos entuba com classe e tranquilidade. Foto: Arquivo Pessoal.

Cheguei na ilha mais longe que já tinha ido na vida e ainda tive que pegar um mototáxi com mais quatro pessoas. Jurei que seria minha última viagem sozinho. No fim, peguei altas ondas. Fiquei 21 dias em Cloud 9. Em 20 o mar estava clássico. Valeu muito a pena. 

 

Outro grande perrengue foi durante a perna europeia do ano passado. Tive que voltar uma semana antes do previsto para a Califórnia, quando todo mundo já estava em Supertubos, Portugal, para correr a última etapa do Tour.  

 

Fui em um telefone público para trocar minha passagem. Estava no meio da ligação. Antes de passar os números, coloquei o cartão em cima do orelhão. Ele caiu dentro do aparelho. Como eu conseguiria trocar a passagem sem o cartão? Mais uma vez, apelei para Deus.

 

Começaram as benções. Entrei em contato com a companhia US Airways, em Londres. A menina que me atendeu perguntou em inglês de onde eu era. Por sorte do destino, ela era brasileira e gostava do sotaque carioca. Assumo que as coisas ficaram bem mais fáceis. Expliquei minha situação. Ela trocou a passagem. Eu poderia pagar na hora do check-in.

 

Logo que terminei a ligação, passou uma senhora com uma prancheta na mão. Perguntei se não conhecia alguém que trabalhava na Portugal Telecom. Ela não só conhecia, como trabalhava na empresa. Segunda sorte do dia. Expliquei o que aconteceu. A senhora ligou para um técnico. Ele tinha a ferramenta para desmontar o telefone, mas demoraria mais de uma hora para chegar. 

 

Enquanto isso, fui na Praia Grande pegar umas ondas. Surfei por uma hora. Quando estava me trocando, passou um carro com o adesivo da Portugal Telecon. Dentro dele, um técnico procurava o telefone que engoliu o cartão do brasileiro. Terceira sorte. 

 

Meu cartão estava no telefone da praia das Macas, bem próximo da Praia Grande. Fomos lá tirar o cartão. O cara riu de mim e me questionou o tempo inteiro como eu tinha deixado meu cartão cair lá dentro. Deu tudo certo. Consegui voltar para os EUA sem problemas. Fui direto para o Hawaii onde peguei o melhor início de temporada dos últimos 30 anos. Surfei Pipe com mais de 3 metros no meio de setembro. 

 

É isso, a vida sem sorte não existe. Todos dependemos dela para viver.

 

Boas ondas e bons perrengues, afinal, viagem sem perrengue nunca é perfeita.

 

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